90 anos de VITORIANISMO

22 de Setembro. Mais um aniversário do Vitória Sport Clube.  Quando muitos auguravam o fim da  nossa querida instituição antes da comemoração desta data, não só a comemorámos como esta é festejada na ressaca de um triunfo saboroso no derby vimaranense, onde mais uma vez, os adeptos vitorianos deram mais uma lição de apoio incondicional à equipa. Parabéns Vitória!

O 90º aniversário do Vitória é celebrado num momento conturbado e crítico. O nosso clube vive uma fase de restruturação profunda que obrigou a cortes orçamentais e consequente diminuição da qualidade técnica do nosso plantel. Nada que uma grande dose de garra, ambição, coragem e crença não compensem. Não fosse o rei conquistador a nossa maior fonte de inspiração.

Invocar a história do Vitória não é simples. Para muitos incautos, resume-se a uma supertaça. Esse pequeno troféu  (para esses) é o resumo de 90 anos de vida do nosso VSC.  Nós, vitorianos, sabemos que não é assim. Porque a paixão que nos move permite-nos exaltar muito mais que meras taças. Não são os títulos que nos fazem vibrar, cantar e chorar pelo nosso clube. Caso contrário, a velha frase “mais vale sermos espanhóis”, que levou os nossos vizinhos arcebispos a deleitarem-se, seria seguida à letra e apoiaríamos o Barcelona, por exemplo. Que ganha troféus a rodos. Por isso, mais do que os títulos, o sentimento de orgulho que mantém vivo o vitorianismo, é a nossa maior vitória. O nosso título mais precioso. O de “melhores adeptos do mundo”.  Celtic  e Liverpool podem reclamar para si essa designação. Poder, podem. Mas ambos possuem troféus que provavelmente não caberiam na sala “Edmur”.  E isso quererá ou não dizer algo…

Tudo começou oficialmente em 1922. Este foi ano de fundação do VSC. A direcção de que faziam parte António Macedo Guimarães, Emílio Pereira de Macedo, Luís Gonzaga Leite, Domingos André de Magalhães, Eduardo Pereira dos Santos e Sargento Dória. É esta direcção que funda conjuntamente com o Sporting Clube de Braga na época de 1922/1923 a Associação de Futebol de Braga e é essa filiação que estabelece a data fundadora oficial do Vitória Sport Clube. O primeiro jogo que se registou do Vitória como equipa oficial resultou num triunfo sobre o Braga por 7-1, a 27 de Março de 1923, no campo da Atouguia. O primeiro de milhares.

A 27 de Janeiro de 1924, é inaugurado o campo Zé Minotes. Este campo não seria palco de muitos jogos do Vitória, pois logo em 1925, o campo da Perdiz passa a ser a nova casa do clube.  Foram momentos de confusão, com constante indefinição no que ao campo de jogos utilizado diz respeito, mas também fruto de guerras com a AF Braga e da fusão do Vitória com o  Atlético Clube de Guimarães, o que fez com que o nosso clube se denominasse Sport Clube de Guimarães.

O nome Vitória Sport Clube é recuperado em 1926/27. Mas a crise duraria até 1931. Nesse ano a inauguração do campo do Benlhevai criou condições para o desenvolvimento do Vitória.  Em  1932, o Vitória contrata o treinador húngaro Genecy. Começavam a ser dados os passos necessários à construção do clube do qual nos orgulhamos.

Em 1934, o Vitória conquista em Braga o seu primeiro título distrital. Em 1938 torna-se campeão do Minho e vence pela primeira vez um dos “grandes” do futebol português, o Porto, por 3-2 num jogo a contar para a Taça de Portugal.

Progressivamente o número de associados ia aumentando. Em 1942, o Vitória regista 800 associados, numa época que assinala a primeira participação do clube na 1ª divisão. Em 1944, registam-se 1300 sócios, o que demonstra um crescente interesse da população pelo clube.

Segue-se o campo da Amorosa, em 1945. O primeiro palco de grandes recitais de futebol praticado pelos jogadores vitorianos. Em 1949/50 chega a Guimarães, porventura, o treinador com mais curriculum até à altura, Janos Biri, que tinha treinado o Benfica. Nessa época o Vitória quase que desce de divisão…

Em 1952, a polémica do futebol chega a Guimarães. Alexandre Peics coloca o Vitória a jogar em “WM” (marcação direta do defesa central ao avançado centro). Chega o primeiro estrangeiro ao clube: o espanhol Lara. O futebol começa a entrar definitivamente na rota do profissionalismo…

Em 1955, o Vitória baixa de divisão. Algo que só se viria a repetir uma vez até à data de hoje. A travessia no deserto durou 3 anos. O regresso do clube à 1ª Liga deu-se em 1958, onde permaneceu até 2006…

A força vitoriana começa a espalhar-se pelo mundo. Em 1959, o Vitória viaja até à África colonial, a pedido dos vimaranenses radicados naquelas colónias. Dois anos volvidos, o 4º lugar conquistado torna-se a melhor classificação de sempre.

Os primeiros jogos com equipas “europeias” dão-se em 1964. AEK e Estrela Vermelha são os opositores.  Dois anos depois, o Vitória participa na denominada “taça do mundo”, onde volta a mostrar-se à Europa.  António Mendes torna-se o primeiro jogador vitoriano a representar a selecção portuguesa.

1969. Data histórica. Estreia oficial do nosso clube nas competições europeias. Situação que se repetiria várias vezes ao longo das décadas seguintes. O Vitória deixa de ser um clube de província.

Em 1980, António Pimenta Machado assume a presidência do Vitória. Ocupou esse lugar durante mais de 20 anos e é um dos responsáveis pelo facto da nossa instituição ser um dos baluartes do futebol português. A criação das infraestruturas necessárias ao progresso e desenvolvimento do clube foi um desejo posto em prática por Pimenta.

A partir daqui a vida do Vitória muda por completo. Treinadores de craveira chegam a Guimarães, como José Maria Pedroto, Manuel José, Marinho Peres… jogadores de classe abundam nas equipas vitorianas, como Paulinho Cascavel, Ademir, Neno, Paulo Bento, Pedro Barbosa, Zahovic, Dane, Ziad…

Chegamos à tal conquista da supertaça, em 1988, frente ao  F.C.Porto.

Depois do brilharete europeu dos anos 80, duelos com equipas poderosas como Barcelona, Ajax, Lazio e Celtic marcam a experiencia europeia do Vitória nos anos 90.

Os quartos de final da taça Uefa, em 1986/87, constitui a participação mais longa do clube nas provas europeias.

No que há Taça de Portugal diz respeito, até ao limiar do século XXI, o nosso clube marcou presença em 4 finais, não logrando vencer nenhuma. Amargo de boca.

A formação entretanto conquistava títulos para o clube. Campeonato de iniciados e de juniores.  Na primeira liga, o 3º lugar continua a ser o ponto mais alto alguma vez atingido.

A primeira década do século XXI foi de altos e baixos.Ora uma descida de divisão traumática, ora um 3º lugar e apuramento para a Champions. Ora um 15º e 14º lugar, ora um 4º com grande futebol e um 5º com apuramento para a Taça uefa.

Mais foi neste período que o vitorianismo foi posto verdadeiramente à prova. E resistiu… A descida ao inferno da Liga de Honra provou que o amor dos vitorianos pelo clube é verdadeiro e inquebrável. O número de associados aumentaram neste período e o Vitória continuou a ser o 4º clube em número de assistências no seu estádio.

Depois disto a entrada em cena do pior presidente da história do nosso nobre clube. 5 anos de terror vividos pelos vitorianos que nunca se afastaram do clube mesmo passando as maiores provações. Um cordão humano num dia de chuva torrencial, um treino com 4 mil pessoas a assistir deram mote à descrição “somos únicos”. E somos mesmo.

Títulos? Nem ve-los. Pelo contrário. Mais um trauma surgia na nossa vida. A eliminação da Liga dos campeões pela mão de um árbitro que viu o que mais ninguém foi capaz de vislumbrar. Chorei, chorei  e chorei. 3 anos depois. Ida ao Jamor. Pela 5ª vez. Nova derrota. Mais uma vez a Taça de Portugal nos escapava. Agravante: 2-6 o resultado. Pior que isso as pessoas que abandonaram o estádio antes do fim do jogo. Estou certo que os verdadeiros vitorianos ficaram até ao fim.

Pelo meio, a conquista da Taça de Portugal… de voleibol e basquetebol bem como do titulo nacional de futebol de praia e voleibol. Vitória orgulha-se do seu ecletismo.

Tudo esta história para dizer o quê? Vitória orgulha-se da sua história. Não a troca por nada. O fervor clubístico dos vitorianos não existe desde há 4/5 anos a esta parte (como outros). Existe desde sempre. Mais de 90 anos de história, são 90 anos de amor, de mística, de paixão, de vitorianismo. Perdoem-nos os que têm títulos, nós temos uma paixão.

Orgulhamo-nos de não contribuir para o terceiro-mundismo do futebol português. Por isso nos mantemos fiéis a um simbolo. A força do nosso emblema é contagiante e faz roer de inveja os mais diversos adversários. Quando me questionam sobre o porquê de apoiar um clube que não ganha títulos, respondo: “Quem não sente, não entende. Logo não vale a pena explicar”.

Se um dia vamos ser recompensados por tanta lealdade, amor e devoção? Não sei. Mas estou certo que se a máxima “resistir é vencer” for religiosamente cumprida, seremos sempre vencedores.  Recentemente exterminamos um cancro dentro da instituição. Estamos a viver a cura. No meio de tanta desilusão, suor, lágrimas e roubos de igreja, podemos dizer que já sobrevivemos à cólera, à peste negra e à febre amarela…  Iremos continuar a resistir a tudo mais. Pois somos conquistadores, envergamos a imagem do rei ao peito. O mesmo que desbravou o caminho para os que festejam os títulos pisarem. Honraremos a bandeira, o símbolo e a nossa história. Pois dela não temos vergonha. Mas sim orgulho. Somos mais de 25 mil! No futuro seremos mais! A semente que fez germinar o vitorianismo há 90 anos, está para durar. Que venham mais 90 primaveras!

Parabéns GRANDE VITÓRIA SPORT CLUBE!

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