A década por capítulos [02/03]

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CAPÍTULO IV – Época 2002/2003

Terá sido, talvez, a época mais inebriante do futebol vitoriano… com Augusto Inácio a manter-se ao leme, o Vitória almejou a melhor classificação desde 1998. Ficou em quarto lugar, posto esse que, normalmente, daria lugar a acesso uefeiro… algo que devido aos rankings europeus, à altura, não sucedeu!

Mas, para além da óptima classificação, o que ressaltou, principalmente na primeira metade da época, foi o futebol de qualidade acima da média que a equipa praticou, aliado a uma proposta táctica inovadora.

Com efeito, na temporada de 2002/03 muito poucas equipas interpretaram o futebol do ponto de vista colectivo, como o Vitória o fez. Adoptando um arrojado sistema táctico de 3-5-2, sem qualquer referência na área, e com extrema mobilidade na zona medular, o futebol rendilhado dos branquinhos fez as delícias dos
amantes do bom futebol… ainda para mais, tendo a equipa passado a temporada afastada do Afonso Henriques devido às obras de beneficiação para o Euro2004, e actuando no Estádio Dr. Machado de Matos, em Felgueiras.

E verdade seja dita, o ambiente infernal que se criou num estádio de dimensões reduzidas catapultou a equipa para a produção de verdadeiras sonatas de bom futebol, em que a mobilidade de todos os elementos, as desmarcações rápidas, e fintas de Nuno Assis, a visão de jogo de Pedro Mendes, a raça de Djurdjevic e Romeu ou a sagacidade táctica de Hugo Cunha foram autênticos acordes de uma verdadeira sinfonia de refinados maestros.

Para entrar na imortalidade da memória dos amantes do the beautiful game, Augusto Inácio manteve a base da temporada anterior, retocando, apenas, nos pontos que considerava deficitários e essenciais. Assim, a Guimarães chegaram para a defesa, o central Ricardo Silva emprestado pelo Porto, o, também, central Medeiros proveniente do Varzim. Para a zona intermédia, a aposta recaiu em Rui Ferreira, que chegou do Salgueiros, no brasileiro Jaime e em dois homens que de um modo ou de outro deixaram recordações no berço. Falamos do brasileiro Rafael e do inesquecível sérvio Ivan Djurdjevic.

Rafael chegou a Guimarães, graças ao negócio Vieirinha que, ainda, juvenil rumara ao Porto. O brasileiro, que um dia houvera sido campeão mundial de futebol de praia, tinha no futebol de onze encantado em Paços de Ferreira e desiludido na Invicta… Guimarães, seria, pois, a hipótese definitiva para a redenção; redenção, essa, pese embora todas as esperanças e alguns fogachos, nunca haveria de chegar!

Quanto a Djurdjevic, jamais um estrangeiro terá experimentado tamanha sensação de empatia com a melhor torcida do mundo: a vitoriana! Ainda hoje o sérvio que chegou proveniente do Farense é recordado como símbolo de querer, determinação e abnegação…

Para a frente de ataque, juntamente com o referido Rafael, que podia desempenhar o papel de ponta de lança, chegou do Farense, o longilíneo Josiesley Ferreira, bem como o brasileiro Paulo César, que vindo do Gil Vicente prometia muitos golos… haveria de os marcar em todos os clubes por onde passou (o já citado Gil Vicente, Leiria e Braga), menos em Guimarães!

Com a qualidade do treinador e da equipa na sua globalidade, ao qual se juntou a explosão individual de atletas como Nuno Assis, Pedro Mendes, Rogério Matias, Hugo Cunha ou Romeu, o início da época foi entusiasmante, já que três vitórias consecutivas (em Leiria, em Felgueiras frente ao Nacional e em Setúbal) demonstravam que na cidade onde nasceu Portugal todos os sonhos eram possíveis…

Realce para o primeiro golo da época ter sido apontado na Marinha grande pelo improvável goleador Bessa…

E essa onda de euforia nem haveria de esmorecer com a primeira derrota da época, em casa, frente ao Porto por duas bolas a zero… o Vitória era uma máquina de bem jogar futebol, que encantava o mais empedernido dos adeptos, batendo-se sempre com o mesmo empenho e arte contra qualquer adversário! Esse frenesi tanto conduzia a vitórias memoráveis como por quatro a dois no Primeiro de Maio, com golos de Pedro Mendes, Nuno Assis, Rafael e Romeu, como a improváveis derrotas, como aquela em casa contra o Varzim por três bolas a uma, mesmo depois de Pedro Mendes ter colocado a equipa em vantagem!

Mas, a verdade é que da décima segunda jornada à décima sétima, o Vitória faria doze pontos em dezoito possíveis e não conheceu a derrota… a máquina demonstrava-se cada vez mais oleada e bate o grande rival Boavista por três bolas a uma (golos de Pedro Mendes, Djurdjevic e Fangueiro), ganha em Barcelos, e vence o Marítimo… pelo meio, empata em Felgueiras, a um, com o Moreirense de Manuel Machado e termina a série empatando a um com o Benfica, no campo emprestado do Felgueiras, com golo de Bessa e novamente Zahovic a fazer a desfeita aos vitorianos.

Realce para a falta de desportivismo da claque adversária que com um petardo atinge gravemente o brasileiro Marcinho que, à altura, fazia exercícios de aquecimento… Porém, tal como agora tais factos seriam camuflados! Tivesse sido ao contrário e as parangonas da comunicação social estavam garantidas!

Estávamos em Janeiro…e se desportivamente, as coisas pareciam andar sobre rodas, directivamente a confusão era total… logo no início do ano, devido ao famigerado saco azul – que ano mais apropriado, do que aquele em que se jogou em Felgueiras, para se inspirar em Fátima? – Pimenta que havia aproveitado o seu tempo de antena para proclamar a sua existência aos quatro ventos era detido… haveria de ser solto, após pagar milionária caução!

Logo a seguir, vinham as eleições… contra o presidente em exercício, concorria Manuel Rodrigues, que prometia remodelar o Vitória, inclusivamente com a criação de uma SAD. Porém, com uma campanha à Pimenta o presidente que detinha o poder manteve-o e como troféu eleitoral apresentou os brasileiros Rubens Júnior, um bom-vivant dispensado e emprestado pelo Porto e Fábio Júnior que chegava emprestado da Roma, onde chegou rotulado de ovo Fenómeno mas parecia não se adaptar ao futebol europeu… e verdade seja dita, a sua passagem por Guimarães seria um fracasso absoluto.

Janeiro, traria, também, a eliminação da Taça de Portugal, aos pés do Porto e depois de estar a vencer… mas, a sina vitoriana na Taça manteve-se e o azar continuou a perseguir os Conquistadores.

Com tamanha ebulição, o balneário ressentiu-se… a contabilidade do Vitória passaria a ser auditada a pente fino constantemente e os incentivos dados por baixo da mesa deixaram de ser possíveis… e surgiram os primeiro problemas relativos a salários em atraso, o que levou Guga, após marcar o golo solitário da vitória sobre o Belenenses, a queixar-se que se assim continuasse teria de pedir na porta da igreja… não iria fazê-lo, mas com tal frase assassina selaria o seu destino em Guimarães!

Mas, além destes factos, também o desaparecimento do factor surpresa contribuiu para a abrupta queda na segunda volta do campeonato… as equipas adversárias pareciam conhecer, já, o antídoto para esbater as boas movimentações vitorianas e surgiram derrotas surpreendentes em casa contra Leiria ou Paços de Ferreira e outras dolorosas como no Bessa, onde apesar de Pedro Mendes ter apontado um golo do meio campo, de nada valeu!

Porém, com a vantagem garantida o Vitória asseguraria um muito meritório quarto lugar, depois de empatar em Alvalade a um, com golo de Fangueiro e vencer por duas bolas a uma em Moreira de Cónegos, gerindo a vantagem amealhada na fase inicial da temporada…

Quarto lugar esse que na prática nada valeria, já que não garantiu o apuramento europeu…mas no galarim da década, esta época merece estar debruada a letras de ouro, atendendo à qualidade sublime do futebol praticado… talvez o melhor destes dez anos de estórias, ora recontadas sob a forma de capítulos…

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