A opinião de…

A TAÇA…

Habitualmente, recuso-me sempre falar na Taça de Portugal.

Recuso-me porque me irritam aquelas declarações de jogadores e técnicos vitorianos, quando chega a 1ª eliminatória para clubes da 1ª Divisão, que sempre dizem “este ano queremos ganhar a Taça”. Irrita-me porque normalmente, para além do fogacho da declaração, não se sente uma preparação da equipa, uma programação com vista a esse objectivo, e invariavelmente, mais tarde ou mais cedo, acabamos por tropeçar, e normalmente com clubes inferiores, ridicularizando a posteriori essas declarações.

A verdade é que eu digo isto porque penso que o Vitória, com o estatuto que tem no futebol nacional, já tinha que ter – há muito! – uma, pelo menos uma, Taça de Portugal. E não o tendo, como não tem, penso que as declarações dos nossos atletas deviam sempre pautar-se por um certo comedimento, isto é, é tamanha a nossa obrigação de algo fazer, que o melhor mesmo é estarmos calados e só começar a falar a partir dos quartos-de-final.

Por isso quero abordar hoje este assunto.

Porque mais do que o jogo com o Torreense, interessa-me analisar este fado vitoriano que se prende com a circunstância de sermos claramente o melhor clube português a seguir aos (chamados) três grandes, aquele que desde os anos 30/40 mais tem mantido um posicionamento regular na disputa dos lugares que se lhes seguem, e no entanto, temos alguns dos que foram ou têm sido nossos adversários, a conseguir ultrapassar-nos claramente em palmarés. É o Boavista que só aparece com uma equipa competitiva nos anos 70, e que até está actualmente perto da extinção, mas que, nos 30 anos em que foi nosso adversário, além de ter sido campeão nacional, foi três vezes 2º classificado e venceu uma série de Taças de Portugal (5) e Supertaças (3), é o Beleneneses que além de ter sido campeão nacional, foi também três vezes 2º classificado e venceu 3 Taças de Portugal, e agora, mais recentemente, até o Braga, que tem igualmente uma Taça de Portugal e conseguiu o ano passado um 2º lugar…! O Braga que nunca foi sequer 3º classificado! Classificação que o Vitória obteve já por 4 vezes.

Sei que a esta altura estarão a pensar que este meu texto é um tanto masoquista, mas penso sinceramente que temos que olhar frontalmente para a realidade e perceber que o grande problema com que o Vitória se debate rumo à sua afirmação, à sua evolução, é o palmarés, é a obtenção de títulos, é a conquista de troféus. E atentas as dificuldades orçamentais do Vitória, parece-me claro que a Taça de Portugal, e subsidiariamente a Taça da Liga, são, deviam ser, objectivos primordiais do Vitória. Mais do que a classificação mais ou menos honrosa em mais um campeonato, o Vitória precisa de um título com muita urgência, pelo que as eliminatórias da Taça de Portugal deveriam, quanto a mim, ser olhadas e preparadas como se eliminatórias da Liga Europa se tratassem, preparadas como os jogos mais importantes da época e não apenas como mais um jogo. Porque é o nosso grande problema, e algum dia temos que o ultrapassar! E temos que começar a fazer alguma coisa por isso, para além das declarações esperançosas de início da época. Que diabo, até o Setúbal, além de ter sido 2º classificado por uma vez, venceu já 3(!) Taças de Portugal e uma Taça da Liga… temos que acabar com isto!! Com este cenário em que, das equipas que contam, só o Vitória não ganhou nada, ou quase nada.

Para esta época, agora que atingimos os quartos-de-final, estamos entre as três melhores equipas a concurso. O Porto, o Benfica e o Vitória (presumindo antecipadamente a indesejada eliminação do Olhanense). Temos depois adversários a ter em conta como o Setúbal, a Académica e o Rio Ave e os restantes são clubes de divisões inferiores. Estamos a um eliminatória das meias-finais, ou seja, é agora mais real, e agora mais devido, o discurso de querer vencer a Taça (essa do querer chegar à final nunca perceberei… que alegria podemos ter com chegar à final se formos pela 5ª vez derrotados? O objectivo é vencer!! Já chega de jogar só para lugares honrosos!). Por isso penso – e vai nesse sentido o meu repto – que dirigentes e sobretudo técnicos, devem erigir este como o grande objectivo desta época. Devem preparar a equipa sobretudo para este objectivo, até secundarizando o campeonato. Devem preparar a equipa para estar na máxima força nos momentos em que se disputarem as subsequentes eliminatórias da Taça de Portugal. Porque o Vitória precisa – urgentemente – de um caneco, porque o Vitória precisa de afastar estes demónios, porque o Vitória precisa de começar a conquistar títulos (e não apenas ir às finais) para poder começar a transformar em palmarés a dimensão humana e até desportiva que temos exibido na História do Futebol Português.

A Homenagem ao GRANDE Jesus

Queria deixar ainda umas palavras finais, porque me coube a oportunidade de escrever a crónica na semana a seguir ao jantar de Natal da Associação VitóriaSempre [AVS], que teve lugar este sábado.

Isto porque, para além do convívio e da simpatia que os dirigentes da AVS tiveram para connosco, penso que o que marcou indelevelmente a iniciativa foi a homenagem ao Jesus (desculpem não lhe chamar António Jesus mas, foi sempre apenas como “Jesus” que o conheci enquanto atleta do nosso Vitória). De facto, a AVS resolveu a partir de agora homenagear em cada ano um antigo atleta do Vitória, entregando o Prémio «Conquistador». Este ano que foi o primeiro ano da atribuição dessa distinção, resolveu a AVS premiar postumamente esse grande guarda-redes do Vitória dos anos 80 e inícios dos anos 90.

Mais do que a entrega do prémio em si, queria dizer que a presença em peso da família do Jesus, o extraordinário filme de homenagem que foi exibido, e sobretudo, tenho que destacar, as absolutamente tocantes palavras de homenagem a esse grande atleta, proferidas pelo Vasco Rodrigues, foram claramente o momento da noite, um momento onde se pôde sentir, nas lágrimas que vertiam em alguns dos presentes, para além da família, o verdadeiro “sentimento vitoriano”, um sentir que não se explica, só se sente. Aqueles breves momentos, de homenagem a um homem que marcou com a sua postura e profissionalismo o Vitória, conseguiram ser em simultâneo momentos de manifestação de um sentimento vitoriano como há muitos anos não via. Foi muito bonito. Foi especial. Foi próprio de nós, vitorianos.

Louvo a AVS pela excelente homenagem que preparou.

Agradeço à família do Jesus a sua presença, e as palavras que foram ditas.

Fico mais feliz, depois de um episódio pleno de sentimento como aquele, de ser vitoriano, de pertencer a uma família diferente, no desporto mundial.

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

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