A opinião de…

A UM VERDADEIRO VITORIANO

Numa semana em que a Família Vitoriana ficou empobrecida e entristecida com a notícia do falecimento do Sr. Custódio Garcia, eu não posso dedicar estas linhas a outro motivo. Nem ao último jogo, miserável, nem ao anterior, que é preferível nem recordar, nem ao sorteio da Taça, que esperemos não sejam esperanças vãs, nem a nada.

Este foi um foi um homem que eu conheci bem.

Que tive como modelo para mim. De Vitoriano. Que creio que não consegui, nem conseguirei, igualar. Nós, vitorianos, costumamos dizer que “ninguém é mais Vitoriano do que eu, talvez igual, mas mais não”. Este é um exemplo de Vitorianismo perante o qual me curvo.

Conheci o Sr. Garcia em 1993. Quando entrei para o Vitória, juntamente com o José Luís Machado, e formamos o Departamento de Juventude. Logo se destacou para mim aquele senhor de suspensórios, sempre simpático e muitíssimo educado, sempre a comparar-me com antepassados meus que tinham estado no Vitória, de que ele – só ele – se lembrava. Sem segundas agendas, recebeu-nos sem espreitar por cima do ombro, olhava para as pessoas de forma desprendida, sem juízos ou temores prévios. Para mais (soubemos depois), parte do trabalho que nos propúnhamos desenvolver no Vitória entroncava com as áreas e funções que o Sr.Garcia vinha desenvolvendo. Tê-lo-ia feito ser mais fechado? Para qualquer um sim, mas não para o Sr.Garcia… pelo contrário! Era visível a alegria estampada no rosto de quem dizia “ainda bem que há alguém disposto a dar utilidade ao meu trabalho e a continuá-lo!”, dizia-nos. Era assim o Sr. Garcia.

A verdade é que, talvez muitas pessoas não o saibam, mas se o Vitória tem hoje um arquivo fotográfico, a ele o deve. O Sr. Garcia guardou religiosamente, durante anos, originais das fotos de várias épocas, fossem fotografias ou meros recortes de jornais ou revistas, guardava tudo, de tal modo, que são hoje praticamente as únicas lembranças que o Vitória tem do seu passado; seguramente até meados dos anos 80, praticamente todas as fotografias que existem do Vitória, são do arquivo do Sr. Garcia. Por isso, para nós, que passamos horas a fio a digitalizar essas fotografias, ainda com os primeiros scanners que demoravam imenso a digitalizar cada fotografia, foi um trabalho que nos encheu de orgulho, porque sabíamos, como ele o sabia, que estávamos a eternizar o trabalho do Sr. Garcia, estávamos a pô-lo num formato partilhável, estávamos a dar História ao Vitória, a torná-la acessível a todos, a colocá-la à disposição de todos os Vitorianos, em suma, a honrar o seu trabalho. Nós, nenhum mérito temos nisso, fomos meros executores materiais; já o Sr. Garcia tem-no todo, porque soube, há muito anos, perceber da importância de arquivar todos esses registos. É por isso com redobrada alegria de cada vez que vejo em sites, em blogues ou no facebook, fotos antigas do Vitória… orgulho-me de saber que fomos nós que as pusemos em formato partilhável, mas sei que em cada uma dessas publicações se homenageia o trabalho do Sr. Garcia.

Como se imagina, muito mais haveria a dizer acerca do seu trabalho pelo nosso clube. A extinta «Comissão de Fundos para um Vitória Maior», que ele dinamizou e a que presidiu, que tão importante foi na obtenção de financiamento particularmente na década de 80, o Museu do Vitória, chamado de “Edmur”, que sempre foi uma batalha sua, até porque, era necessário expor todas aquelas taças e distinções que só ele havia guardado e que apenas ele sabia a que competição se referiam. A gestão da cabine de som, de que ele era responsável no tempo das marchas militares, e que nos entregou a nós, com todo o carinho e empenhamento.

Ainda recentemente falamos, no meu carro, no Largo João Franco, perto de casa dele, a propósito de lhe fornecer dados sobre os membros da minha família que serviram o Vitória, em diversos órgãos e posições, desde o meu bisavô, o meu avô e tio avô, até aos meus irmãos, propunha-se, numa 2ª edição do seu livro que pretendia editar brevemente, fazer referência a algumas famílias que serviram o Vitória em várias gerações. Nunca parava. Tanta, mas tanta informação que apenas ele tinha… Ainda bem, para o Vitória, mas sobretudo para o Sr. Garcia, que conseguiu publicar o “seu” livro, um livro onde plasmou toda a sua compilação de informação vitoriana.

Para partilhar, porque ele nunca quis nada só para ele.

Mas deixem-me recordar o homem, para além do Grande Vitoriano.

Respeitado porque respeitador. Sempre respeitador. Que em todos os gestos e actos revelava uma postura e nobreza de carácter a todos os títulos exemplar, de uma humildade que nos vergava. Bem sei que apenas se costuma homenagear e dizer belas palavras das pessoas depois de já não estarem entre nós. Estou tranquilo, porque não padeço desse mal. Fi-lo várias vezes em vida, transmiti-o a si, e aos seus familiares. Ele sabia, como sabe, a opinião que dele tenho, como sei aquela que de mim guardava, uma amizade partilhada, com tantos anos de diferença, mas uma amizade sincera. De respeito e admiração, esta última de sentido único: de mim, para ele.

Tive por isso a felicidade de estar presente na homenagem que o Vitória fez ao Sr. Garcia. Tive a redobrada felicidade de eu próprio receber a medalha de 25 anos de sócio nesse dia, o mesmo dia em que o meu pai recebeu a medalha de 50 anos de sócio. O que me permitiu que quando fui receber a minha medalha, não quisesse que fosse nenhum dirigente a colocar-ma, queria que fosse um VITORIANO. Pedi que fosse o Sr. Garcia a colocar-ma, no que ele acedeu, saiu do púlpito onde chamava cada um dos sócios, e veio ao meu encontro colocar-me o emblema do Vitória ao peito. Tenho esse momento guardado na minha memória. Para sempre.

Numa frase que espelha a sua abnegação e a forma como sempre pôs os interesses do Vitória acima dos seus próprios, no dia da sua homenagem, no dia que em que foi ele o centro das atenções, conseguiu dizer: “a minha maior felicidade foi ver tanta gente receber o emblema de 25 anos de sócio, que são os próximos candidatos aos 50. O Vitória tem 88 anos, pressupõe-se que em 2035 estejam todos a receber o emblema dos 50 anos, o que quer dizer que o Vitória, vai durar pelo menos até aos 113 anos…

Sr. Garcia: o Vitória nunca acabará!

E em parte – em grande parte – é devido a si. À sua existência, à forma como dedicou a sua vida ao seu Clube, que é de todos nós, à sua dedicação abnegada, ao seu Vitorianismo desprendido e desinteressado, mas sempre dedicado e empenhado.

As minhas palavras para si:

O Vitória e os Vitorianos estão-lhe eternamente gratos.
Espero poder ter contribuído, humildemente, para ajudar a eternizar a sua obra pelo nosso Clube.
O Vitória não teria sido o mesmo sem si. Mas deixa-nos um Clube maior do que aquele que recebeu.
E essa é a maior homenagem que nós, e o nosso Clube, lhe podemos fazer.

Muito obrigado por tudo.

VIVA O VITÓRIA!

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

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