A opinião de…

BANHO DE REALIDADE

Aviso antecipadamente que o meu texto não será simpático.

E pior serão os dados com que o terminarei.

Mas sinceramente, e sobretudo depois do jogo de ontem, penso que estamos precisados de deixarmos de nos iludir connosco próprios, de passarmos a olhar para nós próprios, como se nos víssemos de fora.

A última vez que aqui escrevi, chamei ao meu texto “A sorte protege os audazes”, título premonitório do que ontem aconteceu, e para além do mais, título que encaixa em todos os jogos realizados pelo Vitória desde então.

Falta de capacidade? Não! Falta de ambição.

E isso, quanto a mim, não se admite.

O Vitória, contra o Sporting, decidiu não jogar. Aguentou o adversário até sofrer um golo, depois resolveu entrar em campo. A verdade é quando o fez, foi superior ao Sporting, marcou um golo mas podia ter marcado muitos mais, sentia-se capacidade para isso, sentia-se que os nossos jogadores não eram inferiores aos do Sporting.

Então porque raio não haveremos de tentar ganhar???

Ontem em Braga aconteceu o mesmo. O Vitória não joga, o Vitória limita-se a existir em campo. Incapaz duma jogada ofensiva, incapaz de ter sequer a veleidade de tentar marcar. O Vitória prepara os jogos para não sofrer golos, e tentar marcar na pausa para lanche do adversário. Já não há paciência!

Ontem perdemos, porque não quisemos ganhar.

Não perdemos, como diz o treinador, porque o Targino falhou isolado no início do jogo. Porque se tratou de um lance perfeitamente casual, que não resulta de uma jogada pensada ou dum jogo ofensivo consequente, simplesmente calhou de aparecer à frente da baliza. Não marcou. É pena. Mas é até ofensivo tentarem-nos convencer que o surgimento do Targino naquela situação fez parte da programação do jogo.

Por isso, mais do que as derrotas, é humilhante para os vitorianos assistirem a exibições absolutamente miseráveis do seu clube. A falta de ambição, a falta de brio, a falta de vontade de ser melhor que os outros, apenas tentando impedir que os outros sejam melhores.

Estou convencido que se fosse administrativamente determinado que poderíamos empatar todos os jogos, como que por decreto, o Vitória abdicaria de disputar o Campeonato Nacional. E dói ouvir o treinador dizer que “o nosso objectivo da época já está conseguido”… O que é que isso significa? Que os jogos já deixaram de interessar? Então para que se desdobram os jogadores em declarações a dizer que queriam ganhar em Braga para buscar o 3º lugar…? Penso que já chega de tentar fazer das pessoas parvas, permitindo-se um discurso durante a semana, e depois engatando um outro no final de mais uma derrota, quase como que convencendo-nos de que tudo aquilo é normal, que o nosso objectivo já está conseguido, que o Braga tem mais anos de preparação da equipa, etc., etc. Sem nunca ter a humildade de reconhecer que com esta ambição, o Vitória só pode almejar a alcançar um ponto por jogo, sem ter a humildade de ver que o Braga tinha jogado na 5ª feira anterior, e os jogadores deles passavam pelos nossos com uma diferença de performance física enorme, enfim, sem ter a humildade de ver onde falhamos para procurar melhorar, em vez de continuar a tentar atirar areia para a cara das pessoas.

Aliás, quero perguntar: como estão a pensar disputar a final da Taça?

É que com esta performance miserável, e contra um adversário da valia do Porto ou do Benfica, começo a pensar que é melhor ficar em casa a sujeitar-nos a mais uma vergonha.

É que a questão já não está em ganhar ou perder. A questão já nem é de conquistar ou não conquistar a Taça, a questão é de pelo menos tentar fazê-lo! De disputar uma final como as finais o merecem, disputando cada lance, tentando sempre ser superior ao adversário, tentando GANHAR.

Se o Vitória for para o Jamor – como temo – para se limitar a garantir a presença física de onze atletas em campo, então é preferível nem ir. Se a ida ao Jamor já é uma vitória em si mesmo, então o Vitória não merece ganhar, porque se resigna a ser um clube de estatísticas, em vez de (querer) ser um clube de troféus, de vitórias, um clube campeão!

23 anos são anos a mais para brindar a imensidão de vitorianos que lá se deslocarão com uma exibição miserável, agachada, temerosa, ridícula até. Até podemos perder 4-0, mas se cairmos, caímos de cabeça erguida, e não desta forma… humilhante.

Isso nós não merecemos.

A instituição Vitória Sport Clube não o merece.

E a cidade que fundou este país, não o merece também certamente.

O título de “banho de realidade” não se reporta ao que disse em cima, mas ao que direi em baixo.

Que espero possa servir de tónico para a preparação da final do Jamor, possa servir para que vejamos que, ou começamos rapidamente a conquistar títulos, ou quedar-nos-emos eternamente na estatística dos que lhes falta “um bocadinho assim”…

Eu sempre pensei que não obstante faltarem ao Vitória taças e títulos, o Vitória era claramente o 4º melhor clube nacional, em presenças e palmarés europeu, em presenças em finais da Taça, em classificações honrosas nacionais, etc.

Partilho alguns números comparativos, que pesquisei em face dum artigo que li no jornal «SOL» há algumas semanas atrás relativo às participações europeias dos clubes portugueses. Artigo que, confesso, muito me preocupou.

A estes dados devem acrescer ainda os números recentemente divulgados, de que o Braga foi o clube português que mais encaixou com as competições europeias esta época (€ 12,6 milhões… lembram-se por quanto vendemos o Bebé?). Seguido do Benfica (€ 9,7 milhões), Porto (€ 2,7 milhões) e Sporting (€ 1,8 milhões).

Temos que estar conscientes de tudo isto, e ainda do nosso “palmarés comparativo” como me proponho fazer em baixo, para melhor conhecermos – com realidade – a posição relativa do Vitória no panorama do futebol nacional:

Sócrates, o filósofo grego, celebrizou a frase “Conhece-te a ti mesmo” inscrita no Oráculo de Delfos, para a partir daí construir o seu método filosófico.

Penso que se trata de um bom princípio.

Porque me parece que precisamos de nos inteirar na nossa realidade, da nossa posição relativa na História do futebol, precisamos de tomar este “banho de realidade”, para percebermos que já chega de sermos o clube do “quase”, que já chega sermos bons apenas nas estatísticas (e afinal nem somos tão bons assim), que está na hora de mudar a História deste clube, para o tornar num Grandioso Clube, como todos merecemos.

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

 

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