A opinião de…

VITÓRIA: QUE PROJECTO E QUE FUTURO?

Começo esta primeira crónica com o mesmo título e mesma pergunta que fiz em 2007, num artigo de opinião, semanas antes das eleições que vieram a ser ganhas por Emílio Macedo.

De lá para cá, a mesma pergunta impõe-se, agora que Emílio Macedo foi reconduzido num segundo mandato – já em curso -, e é possível, com alguma segurança, fazer uma análise da sua gestão.

Antes de continuar, deixo bem claro e numa declaração de interesses – para que dúvidas não hajam sobre a minha posição – que não apoiei, nem votei em Emílio Macedo, porque não me revia nas sua propostas e entendia não ter um projecto para o Clube, como também não apoiei, nem votei em Pinto Brasil, pela mesma ordem de razões. Não lavei as mãos como Pilatos, porque contribui e continuo a contribuir, para a discussão e procura de uma solução para o Vitória.

Feita essa declaração, passo, de forma sucinta a analisar a gestão de Emílio Macedo. Que projecto foi por este implementado? Que modelo de gestão desportiva e financeira? Que meta foi traçada e com que meios?

Constato que não há qualquer projecto ou pensamento estrutural, mas decisões conjunturais, algumas delas até positivas – a título de exemplo, e porque ainda na ordem do dia (face à lamentável e ambígua atitude da autarquia), refiro a proposta de aproveitamento dos espaços comerciais do Estádio D. Afonso Henriques –, mas que são avulsas e não traçam um rumo para o futuro, nem uma meta desportiva e financeira para o Vitória. Aqui e ali, Emílio Macedo e a sua Direcção, procuraram resolver, com empenho reconheça-se, problemas de contabilidade e desportivos – e nalguns casos foram bem sucedidos – mas sem porem em pratica um projecto estrutural que permita, a médio prazo, o saneamento financeiro e o sucesso desportivo sustentado do Vitória, particularmente no que diz respeito ao futebol profissional.

Não fosse o inesperado encaixe e sucesso financeiro da venda de Bebé e o bom trabalho desenvolvido por Manuel Machado e sua equipa, na prospecção e escolha de jogadores, e este ano, no que à época de futebol profissional diz respeito, o Vitória voltava a debater-se com os mesmos problemas de tesouraria, a mesma incapacidade ir ao mercado comprar, com critério, jogadores de qualidade – essenciais, conjuntamente com maior investimento na formação, para o sucesso desportivo do Vitória – e a mesma falta de qualidade global do plantel. Paradigmático foi o início de época sem se saber quem iam ser os centrais e os jogadores nucleares do meio campo, bem como, fazer uma pré-época sem ter o plantel definido e com mais de uma dezena de caras novas e vários jogadores com continuidade incerta no plantel.

Continuamos a não ter um verdadeiro departamento de futebol profissional – apesar de se notarem algumas (ainda pequenas) melhorias a que não deve ser alheio o maior envolvimento do vice-presidente Paulo Pereira (a confirmar no futuro) – que planeie devidamente e antecipadamente a época, que seja capaz de projectar as próximos duas ou três épocas desportivas.

Continuamos dependentes do maior ou menor acerto do treinador – do momento –  nas suas escolhas e da disponibilidade de jogadores no mercado a custo zero ou de emprestados sem lugares nos seus clubes. Consequentemente, tanto poderemos fortuitamente ambicionar, num ano, ir à Liga dos Campeões ou no mínimo à Liga Europa, como, no ano seguinte, estaremos muito provavelmente a lutar para não descer.

Poderão alguns dizer que essa é a nossa sina, esse o nosso passado e esse provavelmente o nosso único futuro. O passado é certo, que em maior ou menor grau, assim foi. Agora o futuro não pode ser esse, não nos podemos continuar a agarrar a esse fado, temos que ambicionar mais e trabalhar mais, com profissionalismo, rigor e determinação e com um projecto, em que se faça o diagnóstico da situação do Clube, se definam objectivos e prioridades, se determine os meios a utilizar e se faça a correcta planificação e execução de toda a gestão desportiva e financeira, que nos permita levar o Vitória ao título e ao sucesso desportivo sustentado.

Se assim não for continuaremos dependentes da bola, se esta entra ou não, se somos felizes ou não com a escolha do treinador A ou B, do jogador A ou B, ou do árbitro A ou B. Tudo variáveis que interferem no resultado final, é certo, mas que não podem ser as principais condicionantes do nosso trajecto e desempenho, enquanto Clube e enquanto equipa, no caso de futebol profissional (não menosprezando todas as outras modalidades do Clube que têm que fazer parte do mesmo projecto).

Esta Direcção presidida por Emílio Macedo tem que perceber isso, e ainda está em tempo de o fazer, se não está a cometer o mesmo erro das direcções antecessoras e, hoje a realidade desportivo do País, e em particular do futebol profissional, não permite mais amadorismos, nem um Clube de um só homem, como no passado.

Haja pensamento estrutural e profissionalismo e poderemos, num futuro próximo, ter um trajecto sustentado e, finalmente, alcançar o título que o Clube almeja, e que os seus sócios merecem.

P.S. 1 Agradeço o convite da Associação Vitória Sempre que muito me honra e me permite, no melhor fórum de adeptos do Vitória, contribuir para o debate do futuro do nosso Clube.

P.S. 2 Saúdo Emílio Macedo pela sua resposta a Vítor Pereira e a António Magalhães, a qual, apesar de tardia, foi, pela primeira vez na minha opinião, eficaz e de bom nível.

P.S. 3 Lamento a derrota do Vitória em Coimbra, mas que não ensombra o bom início de época. De lamentar também a atitude da P.S.P. em Coimbra que colocou em causa a segurança dos adeptos do Vitória e que merece, não só uma investigação pelo Ministério da Administração Interna, mas como da própria Liga de Clubes.

Pedro Miguel Carvalho

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