A opinião de…

A REALIDADE DOS FACTOS

Há alturas na vida em que é imperioso sabermos despir a paixão que caracteriza o nosso afecto clubistico e olharmos para a realidade com a frieza que ela impõe.

Mesmo quando o que está em causa é o Vitória que é para nós, vitorianos, como uma segunda família.

E a realidade que se nos depara não é agradável.

Os últimos dez anos foram vividos em quase permanente instabilidade.

Directiva, desportiva e financeira.

Nos últimos sete anos o clube teve três presidentes.

Pimenta Machado concluindo um consulado demasiado longo e que não terminou da melhor forma por razões que seriam demasiado extensas para expor este artigo.

Vítor Magalhães, que alguma imprensa local transformou num “Messias”, entrou bem mas depois foi descalabro de todos conhecido.

E Emílio Macedo ainda em funções e cuja presidência tem conhecido a irregularidade que tem sido constante no clube.

Com esses três presidentes o Vitória obteve apuramentos europeus, e até uma inédita pré eliminatória da champions, mas também situações aflitivas e uma descida de divisão que marcou o fim do estado de graça de Vítor Magalhães.

Demasiado para apenas sete anos.

Em termos desportivos qual é a realidade?

Ao longo deste dez anos passaram por Guimarães mais de uma dezena de treinadores, centenas de jogadores (só com Emílio Macedo já foram feitas cerca de 60 contratações!) e disso se ressentiu a performance desportiva de uma equipa que mais parece um corredor de passagem do que um plantel de futebol.

Todos sabemos, pelo que me dispenso de citar nomes, a surpresa com que algumas contratações foram recebidas logo seguida da desilusão de ver que os contratados estavam longe de terem a qualidade necessária a vestirem a nossa camisola.

Para além do facto de o aproveitamento de jogadores da nossa formação estar aquém das necessidades de um clube que tem de viver realística óptica de formar/vender a fim de garantir a sua sustentabilidade.

Porque houve nuns casos falta de aposta consequente em jogadores que o mereciam e noutros devido a uma política de cedências que às vezes raia o incompreensível.

Até porque se emprestam jovens portugueses da casa para se contratarem jovens brasileiros que em nada lhes são superiores.

Finalmente, até porque este artigo tem limites de espaço, cometeram-se erros estratégicos tremendos que condicionaram e condicionarão o futuro do Vitória.

Refiro-me á forma inglória como se desperdiçou a possibilidade de acesso á champions.

Perante um adversário fraco o que fez o Vitória?

Zangou-se com o Porto devido a uma guerra que não lhe dizia respeito, e em que foi “bengalinha” do Benfica, e perdeu o acesso a jogadores (Alan á cabeça) que lhe dariam outra qualidade competitiva.

Não contentes com isso, e sabendo que o Basileia era um adversário acessível, não foi feita uma aposta forte no plantel.

Vendeu-se precipitadamente Geromel quando podia perfeitamente ter-se aguardado para Janeiro sabendo já o nosso eventual destino na Liga dos campeões.

Quando era preciso arriscar tudo contratou-se …Wénio , Gregory e Luís Filipe!

Porque Nuno Assis veio lesionado e quando ficou operacional onde ia a Champions.

E os cinco milhões de euros, no mínimo, que podiam ter entrado e não entraram.

Tudo isso conduz-nos a uma situação económica complexa.

Que leva a que no ano em que se vendeu como nunca (Bebé, Assis, Moreno, Paulo Sérgio) ao ponto de o clube ter encaixado quase dez milhões de euros se chegue á necessidade de vender a toda a pressa Ricardo (com evidente prejuízos desportivos) para pagar salários!

E a uma situação conhecida, e que nos envergonha, de em modalidades de alta competição como o basquetebol e o voleibol existirem permanentes situações de salários em atraso que fazem recear uma debandada de atletas e técnicos.

O atrás escrito não é uma visão catastrofista do Vitória.

É a pura realidade.

Que tem, entre outros, o reflexo conhecido da quebra nas assistências no estádio e pavilhão, no número de lugares vendidos e até no número de sócios.

Quando no sábado, frente ao Marítimo, e com uma noite amena e boa para ir ao futebol estavam apenas 8877 vitorianos nas bancadas creio que se atingiu o limite do suportável.

E, para quem quiser olhar com olhos de ver, acenderam-se todas as luzes de alerta possíveis.

Porque nem na Liga de Honra alguma vez tivemos tão pouca gente a assistir a um jogo oficial.

E, sejamos claros, a ida ao Jamor não pode justificar tudo nem branquear nada.

Porque vamos ao Jamor, vinte e três anos depois, após termos eliminado “potências” como o Torriense, Merelinense, Portimonense e Académica e fazendo uma época exibicionalmente muito fraca.

Em que o quinto lugar, que em Agosto parecia uma meta ambiciosa, acaba por resultar (se resultar…) de épocas fraquíssimas de Nacional e Marítimo e não de especial mérito nosso.

Quando um Vitória “normal” teria aproveitado o “apagão” do Sporting e as várias frentes em que o Braga esteve envolvido para ficar tranquilamente em terceiro lugar.

Como, aliás, chegou a parecer possível durante a primeira volta.

Não quero com tudo isto apontar o dedo especialmente a alguém.

Não é tempo disso!

Apenas dar um contributo para que olhemos para a nossa realidade com a preocupação que ela merece e na perspectiva de rapidamente invertermos este rumo desgraçado pelo qual seguimos.

Não é tema para agora, até porque o artigo vai longo, mas é dentro de nós que temos de procurar a explicação porque razão ao fim de setenta anos de supremacia nossa vemos hoje o Braga discutir connosco a primazia no Minho e no lote de clubes a seguir aos chamados grandes.

Eles cresceram muito nestes dez anos.

Nós não.

E no desporto, como na vida, o passado é História!

Temos é de tratar do futuro.

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