Luís Cirilo : UM PRIMEIRO BALANÇO

 

UM PRIMEIRO BALANÇO

Sou de um tempo, anos 60, em que o Vitória normalmente ficava a meio da tabela e toda a gente ficava contente com isso.

Porque existia a convicção de que havia quatro clubes (Benfica, Porto,  Sporting e Belenenses a que então se chamava os quatro grandes!!!) que tinham lugar cativo no topo da classificação e para os outros o campeonato começa a partir da quinta posição.

Nesse tempo o Braga estava na segunda divisão, o Boavista longe de atingir o estatuto que viria a alcançar nas décadas seguintes, e os nossos grandes rivais eram Setúbal, Académica e Cuf.

Nesse tempo um quarto lugar era um feito e acima disso algo de inimaginável.

Por isso quando em 68/69 ficamos em terceiro lugar (e podíamos ter sido campeões não fossem os árbitros) com uma das melhores equipas do nosso historial foi uma proeza efusivamente comemorada nas ruas de Guimarães por toda a comunidade vimaranense e vitoriana.

Acreditou-se que o Vitória ia fazer História.

No ano seguinte evitamos a descida de divisão com um “miraculoso” empate nas Antas na última jornada.

E tem sido essa a nossa sina ao longo dos anos com diferentes presidentes e respectivas direcções.

Uma irregularidade incompreensível.

Nos anos seguintes, década de 70, o Vitória começou a frequentar a Europa com mais assiduidade fruto de algumas classificações interessantes intervaladas por épocas de penumbra e desilusão.

A verdade é que cada apuramento europeu era festejado e vivido como uma proeza para um clube que vive afastado dos grandes centros de decisão deste país.

Pelo menos o ultimo jogo em casa dava “direito” a uma invasão de campo para festejar o apuramento europeu e na tentativa de apanhar a camisola (ou outra peça de equipamento) dos jogadores.

Tendência que se manteve ao longo dos anos 80 e 90 em que o Vitória, já com a fortíssima concorrência de um Boavista “filho do sistema” e de um Braga a começar a pôr-se em bicos de pés, conseguiu manter o seu estatuto de equipa europeia com sucessivos apuramentos para as competições da Uefa a par de alguns quartos lugares que não deram Europa por uma conjugação aziaga de factores.

E todos nos lembramos, porque de factos mais recentes se trata, da enorme festa que era em Guimarães a participação do Vitória em jogos internacionais.

A última década foi má.

Por um lado porque a instabilidade no Vitória foi quase constante.

Quase sempre provocada de “dentro para dentro”.

Que nos enfraqueceu, que nos retirou “argumentos”, que abriu espaço a que outros ocupassem lugares que deviam ser nossos.

Nesse tempo vimos o Boavista ser campeão nacional, disputar várias vezes a Champions, chegar às meias-finais da taça Uefa.

E assistimos ao Braga a arrumar a casa, a estabilizar em termos directivos, a começar a crescer em termos de organização e de adeptos.

E nós?

Depois do penoso último mandato de António Pimenta Machado, “minado” por erros do próprio e por uma oposição que não olhou a meios para o derrubar de qualquer forma (não pensando esses “notáveis” oposicionistas que simultaneamente estavam a dar cabo do Vitória!), restou um clube dividido, “ferido” por anos de contestação e em perda face aos adversários.

Vítor Magalhães não foi a solução!

Pese embora ter despertado uma enorme expectativa nos adeptos a verdade é que nunca terá entendido totalmente o que era a realidade vitoriana, as ambições dos adeptos, o potencial do clube.

Eu, que nunca o apoiei, reconheço sem dificuldade que foi um presidente empenhado em contratar bons jogadores e construir boas equipas.

Cometeu dois erros graves; Jaime Pacheco e Vítor Pontes.

Que lhe valeram a descida de divisão com uma equipa que dava tranquilamente para um apuramento europeu.

E chegou Emílio Macedo.

Encontrou uma equipa ao abandono, perdida a meio da tabela da II Liga, com jogadores desanimados e pouco crente no milagre que seria subir.

Havia, contudo, alguém que acreditava.

E que segurou as “pontas” durante os meses em que o clube andou á deriva com Vítor Magalhães de saída e sem a nova direcção entrar.

Esse alguém chama-se Manuel Cajuda.

Que contra tudo e contra todos, e perante a descrença de alguns, conseguiu subir.

E “obrigou” Emílio Macedo a adiar a sua substituição por Manuel Machado já então na calha como alguns ainda se lembrarão.

A partir daí conhece-se a história.

Uma época extraordinária, o terceiro lugar que só não foi segundo porque as pressões do Benfica (de quem alguns no Vitória tanto parecem gostar) sobre os árbitros não o permitiram, o apuramento para a pré eliminatória da Champions.

Era a 25ª hora da História do Vitória.

Ainda por cima defrontando um fraco Basileia.

Entrar na fase de grupos teria significado o nosso “grito do Ipiranga” perante a realidade do futebol português.

Estava ali á mão o nosso salto para o primeiro patamar do futebol português.

Onde hoje o Braga ameaça instalar-se.

Mas na clara demonstração de que não percebeu isso, não percebe o Vitória, ou seguiu motivações não vitorianas, Emílio Macedo e a sua direcção só fizeram asneiras!

Meteram-se numa guerra que não era deles, zangaram-se com quem nos ia ceder jogadores decisivos para o assalto á Champions, fizeram alianças com quem só nos tem prejudicado.

Para além de protocolos cujo teor continuamos sem saber.

Em vez de defrontarmos o Basileia com Alan,  Luís Aguiar, Adriano e João Paulo tivemos de o fazer com Wénio, Gregory e Luís Filipe.

Porque Nuno Assis, o único jogador de valor vindo do SLB, esteve lesionado meses.

Eliminados da Champions, eliminados da taça Uefa, fizemos um campeonato abaixo das nossas possibilidades.

Findo o qual Emílio Macedo conseguiu, finalmente, “livrar-se” de Cajuda.

Veio Nelo Vingada.

Outro equívoco.

A que se sucedeu Paulo Sérgio.

Equivoco ainda maior.

Que perdeu o apuramento europeu no ultimo jogo em casa e ainda nos desrespeitou da forma que se sabe.

Até que chegou o desejado Manuel Machado.

Um campeonato abaixo das expectativas, uma falta de ambição que se estendeu da direcção á equipa passando pelo treinador, um terceiro lugar fácil de alcançar que perdemos em casa derrotados pelo último e antepenúltimo do campeonato.

Pelo caminho baixou a média de assistências e de lugares anuais vendidos.

Não admira, pois, que os apuramentos europeus de hoje não suscitem entusiasmo.

E que os quintos lugares do campeonato sejam olhados como algo que não tem nada de especial.

Porque todos sabemos que o Vitória pode fazer muito mais e muito melhor.

Tem potencial e adeptos para isso.

O Jamor foi a última prova, se necessária, que é assim.

Porque os vitorianos esquecendo anos de frustração, épocas de mau futebol, um vaivém de jogadores absolutamente desproporcionado (e nalguns casos inexplicável) estiveram lá.

Á “ antiga”.

Largos milhares dando um apoio inexcedível á equipa.

E que obtiveram em troca?

Uma cabazada das antigas.

Uma exibição que nos envergonhou.

Declarações de satisfação (tipo “objectivo cumprido”) por parte de jogadores e responsáveis que são um insulto á nossa ambição de adeptos.

Pelo caminho, e pelos vistos, ainda houve gente do staff vitoriano que andou a pedir camisolas autografadas a jogadores do Porto!

Batemos no fundo.

E agora?

Agora, ao que parece, lá vão sair alguns dos jogadores que são mais-valia.

Fala-se de Rui Miguel, Jorge Ribeiro, João Ribeiro, Targino, N’Dyaie, Douglas até João Paulo.

Pelo caminho permite-se a inacreditável naturalização de Nilson pelo Burkina Faso (!) que o vai afastar da equipa durante o mês de Janeiro para estar na CAN.

Desconhece-se o que vai acontecer com os jovens emprestados a vários clubes (Lousada,Freamunde, Amarante) nos quais tiveram prestações bem positivas.

Mas ouve-se falar na venda a preço de saldo de Lionn e Renan Garcia.

Para além da certeza da chegada de mais um camião de sul-americanos.

Ao ponto de nem sabermos se na próxima época teremos uma equipa ou um escrete!

E continuam as enormes interrogações sobre a real situação financeira do clube.

Porque no ano em que mais receitas se obtiveram na transferência de jogadores (quase 10 milhões de euros) fomos obrigados a vender Ricardo em Fevereiro, sem hipótese de o substituir, para pagar salários.

E é patente a falta que Ricardo fez á nossa defesa.

Bem como Custódio, “oferecido” ao Braga, para termos de levar com Cleber e Renan que em termos de classe estão a anos-luz.

Ou William que foi emprestado ao Setúbal sem que face á lesão de Douglas tivéssemos alternativa a Edgar.

Eu acredito no Vitória

E nos seus adeptos.

Mas já não consigo acreditar nesta direcção tantos são os erros cometidos.

E espero que o pior não esteja para vir…

Porque seria horrível constatarmos que a grande festa vitoriana no Jamor foi a despedida de um Vitória “á Vitória”.

Uma grande instituição com um extraordinário potencial de crescimento.

Com adeptos únicos e inexcedíveis no amor ao clube.

Mas que por erros e opções erradas de quem o dirige estará ,por este caminho,“condenado” a ser mais um perdido na triste realidade do futebol português.

Sejamos ainda mais claros: o amor, a dedicação, a paixão dos vitorianos pelo Vitória tem sido duramente postos á prova nesta última década.

Tem resistido estoicamente.

Mas desengane-se quem pensa que aguentamos tudo.

Porque não aguentamos.

E só há dois caminhos:

Ou continuamos por aqui…rumo ao abismo.

Ou mudamos de vida.

E porque, felizmente, não somos uma SAD ainda são os sócios que mandam.

Está na sua mão o futuro do Vitória!

 

 

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