André Coelho Lima – Balanço em jeito de antevisão

BALANÇO EM JEITO DE ANTEVISÃO

Caros vitorianos,

Este título um tanto contraditório é escolhido intencionalmente porque, como certamente se poderão ter apercebido, o meu comentário de balanço de temporada não surgiu ao lado daqueles com quem habitualmente partilho este espaço. E não surgiu intencionalmente.

Tendo-me a AVS pedido que fizesse um balanço da temporada, logo a seguir à final da Taça de Portugal, o perigo de eu poder dizer coisas de que me pudesse vir a arrepender era enorme. Atento o sentimento de vergonha que tive no final do jogo.

No entanto, agora que já passou algum tempo, agora que os vitorianos (infelizmente) já puseram para trás das costas a hecatombe que foi a final da Taça, agora que já está tudo motivado com a nova época, e agora que terá lugar a habitual Assembleia-Geral (e este meu texto sai, propositadamente, antes da AG), penso que estou em melhores condições para falar da época passada, na projecção da próxima.

Em primeiro lugar o balanço.

Penso que o melhor balanço que poderia fazer, foi aquele que fiz em antevisão do jogo da final da Taça de Portugal, e que poderão ler integralmente aqui.

Disse então que:

este é o momento em que se define toda uma época. Em poucos momentos como neste se consegue correr de um extremo ao outro em função de um só resultado. Estar nos antípodas em função do resultado de um só jogo. O momento em que podemos adicionar a um 5º lugar e a uma qualificação europeia, uma Taça de Portugal, título que nunca obtivemos na nossa História e que já 11 clubes portugueses alcançaram. Esse será, sem dúvida, um momento fantástico. Que fará desta, uma época extraordinária. Ou então, com a derrota na final Taça de Portugal, teremos uma época mediana, com um sempre positivo, mas não extraordinário, 5º lugar, e com uma sempre desejada, mas habitual, qualificação europeia; e com mais uma presença na final da Taça – a quinta – com idêntico resultado às anteriores visitas ao Jamor. Uma derrota.

Para nossa infelicidade, foi isto que veio acontecer.

Mas o mais grave de tudo – e esse é o ponto que pretendo ressalvar – não é a derrota, apesar de tudo expectável, contra o F.C.Porto, nem tampouco são os números pelos quais ela se verificou, o mais grave de tudo foram as declarações no final do jogo, depois de uma derrota por 6-2, de jogadores, treinador e dirigentes.

Esse é o facto essencial, e que eu quero realçar da época finda, para o lançamento desta que agora se inicia, e das próximas que virão.

No final de um jogo e resultado daquela monta, fôra o Vitória servido por quem perceba a dimensão do nosso clube, e as declarações só podiam ser de desculpa, de perdão. De desculpa aos largos milhares de vitorianos por se ter manchado com uma exibição miserável, o nome do nosso clube e o símbolo que carregamos na camisola.

Mas não. Surpreendentemente não.

Os jogadores, entre os quais destaco o Targino, têm declarações de normalidade, de naturalidade, e o Targino, conseguiu dizer que para um clube como o Vitória chegar à final já é uma vitória. Pior, o treinador teve declarações em idêntico sentido, de que chegar à final já era meia-vitória para nós, que o Vitória já não ia à final há 23 anos, pelo que era um feito o simples facto de lá se chegar. E alguns dirigentes, proferiram declarações públicas em idêntico sentido.

E isto, mais do que a exibição, mais do que o resultado, mais do que a derrota, isto é que nos envergonha verdadeiramente.

Estivemos lá todo o dia a pensar que íamos disputar uma final, para mais frente a um clube que, apesar de claramente mais forte, não tinha a sua principal estrela e tinha tido apenas 2 dias para preparar o jogo. Quem viu o jogo, parecia que tinha sido o Vitória a jogar a final da Liga Europa 3 dias antes…

Mas afinal, não estávamos lá para disputar o jogo. Ou melhor dito, não estávamos para o vencer, estávamos apenas para o disputar. Porque a nossa vitória (ou parte dela), já tinha sido obtida com o apuramento para final.

Escrevi aqui em 13.04.2011, reportando-me ao final da Taça:

É que a questão já não está em ganhar ou perder. A questão já nem é de conquistar ou não conquistar a Taça, a questão é de pelo menos tentar fazê-lo! De disputar uma final como as finais o merecem, disputando cada lance, tentando sempre ser superior ao adversário, tentando GANHAR.

Se o Vitória for para o Jamor – como temo – para se limitar a garantir a presença física de onze atletas em campo, então é preferível nem ir. Se a ida ao Jamor já é uma vitória em si mesmo, então o Vitória não merece ganhar, porque se resigna a ser um clube de estatísticas, em vez de (querer) ser um clube de troféus, de vitórias, um clube campeão!

23 anos são anos a mais para brindar a imensidão de vitorianos que lá se deslocarão com uma exibição miserável, agachada, temerosa, ridícula até. Até podemos perder 4-0, mas se cairmos, caímos de cabeça erguida, e não de forma… humilhante.

Isso nós não merecemos.

A instituição Vitória Sport Clube não o merece.

E a cidade que fundou este país, não o merece também certamente.

Premonições fazia o Zandinga, mas infelizmente, parece que também vou tendo algum jeito para as fazer…

E esta é a questão central no lançamento da nova temporada.

Não interessam os nomes dos jogadores, não interessam os eventuais regressos do Pedro Mendes, Fernando Meira ou Nuno Assis (que obviamente desejamos), nada disso interessa, se não for incutido no plantel, em cada jogador, em cada atleta que exiba o Primeiro Rei de Portugal ao peito, que o Vitória é um clube ambicioso, que o Vitória é um clube que quer ascender, que o Vitória é um clube que quer ser algo mais do que aquilo que é hoje, e do que aquilo que foi no passado.

Que o Vitória quer ser um clube vencedor.

Mas para isso, tem que ser servido por gente com uma ambição correspondente à dos seus adeptos, com uma motivação equivalente à dos nossos sócios, enfim, com aquilo que há anos se sente na bancada, mas não se projecta para dentro do campo.

E este trabalho é o trabalho dos dirigentes. É o trabalho dos líderes, daqueles que tenham um projecto, uma visão, uma ambição para o nosso clube.

E não é com declarações, de dirigentes, como as que ouvimos no final do jogo de Taça de Portugal que se demonstra essa capacidade de liderança, de envolvimento, bom, até de percepção do vem a ser a instituição Vitória Sport Clube.

Por isso meus caros amigos,

Em registo necessariamente mais brando do que teria sido utilizado acaso tivesse escrito este texto naquele momento, peço ainda assim desculpa por estar a agoirar nesta fase em que toda a gente está em clima de motivação para a nova temporada.

Mas nós temos que nos deixar deste positivismo lusitano que nos leva a esquecer rapidamente os maus momentos para nos re-motivarmos com os potenciais bons momentos.

Se queremos crescer, se queremos ser melhores amanhã do que fomos ontem, temos que olhar para os nossos erros, temos que observar as nossas falhas, temos que analisar os nossos pontos fracos. Só assim seremos um clube voltado para o futuro, para o crescimento.

Mas esse é um papel que cabe naturalmente às estruturas dirigentes.

Que devem indicar o rumo, que devem assumir a liderança, que devem ter a visão para o clube, e a estratégia para a implementar.

Temos que começar, rapidamente, a ter um projecto que vá para além do edificado, da gestão do quotidiano e dos negócios com jogadores, temos que ter um projecto humano, de formação dos nossos atletas, de coerência psicológica, de introdução de uma forma de jogar “à Vitória”, de introdução de um comportamento-tipo do jogador “à Vitória”, de injecção de motivação nos nossos atletas, em suma, de introdução de métodos que façam, de uma vez por todas, os atletas e treinadores que servem o Vitória, corresponder em motivação, ambição e atitude, àquilo que lhes vem das bancadas.

Só olhando para o passado poderemos melhorar o nosso futuro.

Só condenando ostensivamente declarações como as que acima referi, podemos transmitir à equipa e direcção que não é isso que deles esperamos.

Só analisando a profundeza do nosso comportamento motivacional, podemos ajudar a descobrir muitas das razões para as nossas falhas recentes.

Só assim actuando, podemos melhor projectar esta época, como as vindouras.

Fica desde já, o meu contributo.

Guimarães, 8 de Julho de 2011

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

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