A opinião de…

Cabe-me a sempre difícil tarefa de comentar uma derrota.

Em traços muitos gerais, penso que esta derrota tem tudo de parecido com a de Coimbra, isto é, demonstramos ter equipa capaz de ombrear com aquele adversário e vencer a partida, mas não fomos capazes; os golos adversários foram golos fantásticos, com uma percentagem de sucesso próxima dos 100%, mas a verdade é que os jogadores que apareceram em condições de finalização, apareceram por estarem mal marcados e não terem sido interrompidos na sua marcha, em devido tempo.

Já o disse aqui, e repito: o Vitória tem um meio-campo ofensivo e ataque de primeiro quilate, não apenas nos jogadores que jogam de início, como nas soluções que temos no banco; mas tem uma defesa e trinco muito limitados, não apenas nos titulares, como ainda e sobretudo nas soluções alternativas. Há um notório desequilíbrio na equipa, com um ataque com maior qualidade que a defesa, algo que terá que ser corrigido o quanto antes para podermos aspirar aos lugares a que, legitimamente, ambicionamos.

De resto, deveremos olhar para esta contrariedade sem dramas. Era melhor que não tivesse sucedido mas no fundo todos sabíamos ser difícil segurar a posição com que entramos nesta jornada. Convém é manter a regularidade exibicional, e melhor, significativamente, os automatismo e o posicionamento defensivos. Sentiu-se uma equipa capaz, apesar de derrotada; e isso, por si só, já é um bom sinal. Esperemos é que a capacidade que se sente acabe por vir ao de cima.

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Aproveitava este meu texto para partilhar com os meus amigos uma reflexão, à qual, aviso desde já, vou retomar muitas vezes. Refiro-me ao fosso escandaloso que existe neste país entre os clubes chamados grandes, e os restantes, no que nos interessa, até entre aqueles que lhes surgem imediatamente a seguir. Sem o Boavista em jogo, o Vitória e o Braga são claramente os clubes que espreitam os lugares a seguir aos grandes, havendo no entanto uma disparidade gritante no tratamento que é dispensado a uns e outros. Costumo dizer, a propósito disto, que o Benfica é o grande responsável pelo campeonato miserável que temos, refiro-me àquele Benfica dos anos 60 que espalhou adeptos um pouco por todos o país e criou uma tendência que obstou a que nas grandes cidades portuguesas os adeptos de futebol fossem, como é natural, pelo clube da sua terra, mas antes pelo Benfica. Aliás, este é um fenómeno exclusivamente português, onde um indivíduo pode ser de Braga e adepto do Benfica, ou de Leiria e adepto do Porto, isto é, onde a identidade regional não é minimamente associada às preferências clubísticas. É este raciocínio que me leva a concluir que, futebolisticamente, Guimarães é a única cidade europeia de Portugal! A única onde os vimaranenses são pelo clube da sua terra, o que permite que o Vitória tenha a dimensão que tem, e que em bom rigor sempre teve ao longo da sua História.

Mas a verdade é que, aqueles clubes que têm potencial de crescimento, aqueles clubes que podem –devem – ser maiores dos que as suas actuais dimensões, têm que se unir para fazer valer aqueles que são os seus direitos e perspectivas, defender um tratamento mais equitativo no tratamento jornalístico, na distribuição dos dinheiros da televisão, defender no fundo que seja conferida a esses clubes um tratamento correspondente à dimensão que efectivamente têm.

Tudo isto a propósito de um artigo que li recentemente no jornal Record, escrito pelo “conhecido” Ricardo Costa, que, surpreendentemente, vem exactamente no sentido do que há anos defendo e aqui venho explanando. Permito-me citar a quase integralidade do artigo cuja foto é, curiosamente ou talvez não, uma imagem de um jogador do Vitória (João Ribeiro). Diz o seguinte o Dr. Ricardo Costa:

Tal como no país se pedem reformas, também no futebol se sente a necessidade do país. Sentir não é sinónimo de ter vontade de fazer, ou, até, de fazer mesmo: no futebol, é igualmente endémica a distância entre o que deve ser feito e o que é feito. No contexto do que é estrutural, alguns problemas (desafios) surge aos meus olhos como mais evidentes. Um deles é o fosso entre os clubes grandes e os pequenos e médios clubes (PMC).

É pernicioso para o futebol profissional, não termos uma “classe média” de clubes, forte e sustentada. Temos exemplos de médios que chegaram a ser “grandes” e até campeões e vencedores de competições. Mas não temos, nem nunca tivemos, um conjunto considerável de clubes que se desenvolvessem continuadamente, que, com estabilidade, trouxessem adeptos e receitas, que brigassem com os grandes por posições e lhes retirassem os protagonismos. Clubes que fidelizassem simpatias regionais – como acontece de há muito com o Vitória de Guimarães – e concentrassem os investidores económicos.

(…)

Uma Liga atenta ao que se faz lá fora e apostada em “criar valor” com a globalidade dos clubes tem que meter as mãos nesta massa, liderar os que não têm a voz dos grandes e revolucionar o aproveitamento do mercado (não só nacional) e do audiovisual em favor dos PMC. Por uma razão simples: os três grandes têm poder negocial e institucional próprio; todos os outros só o terão verdadeiramente em conjunto…

A única coisa que eu lamento é que tendo o Dr. Ricardo Costa estado ligado à Liga de Clubes até há bem pouco tempo, não tenha aproveitado essa circunstância para fazer valer esta sua visão.

De todos os modos, fica o mote para que os nossos dirigentes, do Vitória, empreendam e prossigam verdadeiramente uma estratégia de afirmação dos clubes médios, conduzam uma série de actos nos patamares de decisão do futebol português que conduza a que o tratamento que é dispensado a estes clubes seja, pelo menos, correspondente à sua real dimensão. Entre todos, o Vitória é de certeza o que mais teria a ganhar com isto.

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

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