A opinião de…

Uma primeira palavra, nesta que é a minha primeira crónica para o “VitóriaSempre”, para a Associação VitóriaSempre [AVS].

É merecedor do maior elogio, a dedicação e abnegação que todos os seus membros, particularmente os que actualizam e fazem viver o www.vitoriasempre.net, emprestam à nossa causa, à causa vitoriana. De facto, a AVS tem sabido pensar e organizar alguns dos episódios mais marcantes da História recente do Vitória, e tem sabido, essencialmente, dar corpo àquele que é o nosso maior factor distintivo face aos demais clubes: a força dos nossos adeptos. Através deste autêntico fórum de adeptos vitorianos, sentimos uma estrutura que fala por nós, pelo adepto, e isso fazia falta ao universo vitoriano.

Uma segunda palavra para meu conforto e para esclarecimento dos que leiam as minhas crónicas doravante. Apesar de ser público que tenho actualmente a responsabilidade de exercer cargos de representação do nosso Município, e na nossa sociedade, quero deixar bem claro que me absterei – sempre – de fazer comentários que possam misturar qualquer das restantes funções que ocupo, com aquela por que aqui estou (por sinal bem anterior a todas as outras), que é a condição de adepto e sócio do Vitória. Este valor é para mim inabalável. O respeito e amor que tenho pelo Vitória impedir-me-iam, só por si, de o fazer. A ética como forma de estar na vida, fazem-no igualmente.

Uma terceira palavra, para registar uma curiosidade. Que é a coincidência de me terem convidado para escrever estas crónicas, na mesma semana em que recebo uma carta do Vitória para receber a medalha de 25 anos de sócio; sendo que o meu pai, vai na mesma altura receber a medalha de 50 anos de sócio. Uma feliz coincidência.

Mas a maior de todas, vem a ser a possibilidade, eu diria a felicidade, de poder escrever estas linhas a seguir a uma vitória caseira sobre o Benfica.

Eu que vou ver o Vitória há quase 30 anos, só me recordo de ver o Vitória vencer por uma vez (1-0, golo de livre marcado pelo Quim Berto), a outra, mais recente, não estava em Portugal. Um dos primeiros jogos que vi foi um Vitória vs. Benfica em que perdemos 1-4 tendo o nosso golo sido marcado pelo Da Silva, e desde então, esta malapata nunca mais nos abandonou, uma espécie de maldição que se tinha abatido sobre nós…

Mas este resultado, mais do que as questões de sorte ou azar ou de espiritualidades várias, em que acredito zero, pode ter sido o lançamento de uma época bastante acima da média do que temos estado habituados.

O Vitória ganhou ao Benfica, e ganhou bem. Jogou mais, controlou o jogo, nunca virou a cara à luta, esteve personalizado em campo, e por isso ganhou. Os “comentadeiros” nacionais dedicaram-se a analisar os lances em que o Benfica havia sido prejudicado, sem perguntarem quantas jogadas de perigo teve uma e outra equipa, sem quererem saber quem mereceu ganhar, quem teve maior posse de bola, enfim, quanto a esses comentários estamos habituados, mas quanto a mim, não o facto de termos ganho ao Benfica, mas a circunstância de termos merecido ganhar, de termos tido futebol que justificasse esta vitória, isso sim é um facto adicional de regozijo.

Mas sou dos que pensa que não devemos embandeirar em arco. Este início de época é um bom lançamento, mas é apenas isso, e temos todos a obrigação de não elevar de tal modo as expectativas que ao primeiro resultado menos positivo sejamos nós, os adeptos, o principal factor de desmotivação e de tremideira nos nossos jogadores. Vamos ter calma. Ganhamos dois jogos a dois adversários muito difíceis, vamos tentar ganhar novamente ao U.Leiria para partirmos para um campeonato tranquilo. Sem pressões.

Analisando a equipa, penso claramente que temos soluções, e alternativas, no meio-campo e ataque, mas creio que temos uma defesa mediana e sem soluções. Excepção feita ao Bruno Teles, os restantes jogadores não enchem as medidas; e o sector onde se exige maior estabilidade foi precisamente o mais delapidado, com jogadores que são hoje titulares e que chegaram com o campeonato a decorrer, enfim, creio que será por aqui que poderão começar os nossos problemas.

Uma última palavra para o Manuel Machado.

Escrevi em tempos, mais precisamente na última vez que o Manuel Machado treinou o Vitória, que “Manuel Machado é o treinador certo para o Vitória”.

E mantenho essa posição. É um treinador que sabe escolher jogadores, sabe preparar equipas, de trás para frente como deve ser, e organiza equipas de forma a que elas consigam suplantar a capacidade individual dos seus jogadores. É isso que se espera dum treinador. Que além de escalar o onze inicial, saiba espremer o plantel que tem, fazendo os jogadores valerem mais num colectivo por si conduzido, do que aquilo que resulta da sua valia individual.

Agora, como em tudo na vida, existe sempre o reverso da medalha: o Manuel Machado é (1) um treinador muito defensivo, é (2) um homem teimoso e com personalidade forte, e é (3) de Guimarães. E todas estas são, quanto a mim e numa perspectiva quase psicanalítica do homem ao leme do nosso barco, características que é muito importante ter presentes.

Vejamos:

(1) Treinadores defensivos, como todos sabemos, não gozam da simpatia das bancadas. Porque coloca muitos trincos de início, porque demora a meter avançados em campo, porque insiste naquele jogador destrutivo de que ninguém gosta, e depois todos assobiam. Mal. Se confiarmos na capacidade do Machado, se estivermos conscientes de que ele sabe o que está a fazer, se lhe concedermos o benefício da dúvida, vamos dar espaço para que mostre a sua capacidade na organização e estruturação de equipas, de que só o Vitória sai a ganhar. E aliás, o José Mourinho, como sabemos, foi acusado de ser defensivo no ano em que ganhou a Liga dos Campeões pelo Inter de Milão…

(2) Esta segunda característica é igualmente importante, no seu relacionamento com as bancadas, mas sobretudo com a Direcção e restantes órgãos sociais. É preciso ter-se consciência de que ao se contratar o Manuel Machado, não se está a contratar um treinador qualquer, mas antes um homem que trabalhou neste clube quase 20 anos, alguém que conhece o Vitória por dentro como poucos, os seus vícios, o seu funcionamento, os seus funcionários, tudo! Ora, assim sendo, é preciso que estejamos preparados, adeptos mas sobretudo Direcção, para que é compreensível que por vezes saiam comentários que extravasam claramente aquela que é a competência estrita dos treinadores. Porque o Manuel Machado, no que respeita ao Vitória, não é como um treinador qualquer. Por um lado, deve-lhe ser naturalmente exigido que se cinja ao papel que tem na estrutura, mas por outro lado, não estar a contar com eventuais consequências da sua ligação especial ao Vitória, é estar a pedir problemas, como surgiram no passado, e que desta vez temos obrigação de rememorar, precisamente para os evitar.

(3) O Manuel Machado é de Guimarães. Para alguém que veja isto de fora, esta seria sempre uma circunstância que lhe daria alguma vantagem face aos demais, mas para nós que somos de cá, e sabemos bem (sobretudo no que ao futebol diz respeito) da justeza do ditado popular segundo o qual «Guimarães é má mãe e boa madrasta», temos muitos exemplos de manifestação disso mesmo. Não direi em Guimarães, mas com toda a certeza no Vitória, a exigência e a intolerância para com os nossos, os que são de cá, é sempre muito superior àquela que dispensamos aos que não são das nossas escolas ou da nossa estrutura. Estamos sempre prontos a apontar o dedo a um jogador formado em Guimarães, seja por ser vizinho, por ser próximo, por ter sido colega de escola, enfim, seja porque razão for, a verdade é que essa intolerância para “os nossos” é algo que tem tanto de presente, como de incompreensível. E portanto, tal como aconteceu da última vez que cá esteve, o Manuel Machado também vai ter que lidar com este handicap. Eu lamento profundamente que esta realidade ainda subsista no Vitória, e deixo esta característica para ser referida em último lugar, precisamente para com ela fazer transportar um apelo, para que deixe de ser uma desvantagem, que ele seja pelo menos avaliado como qualquer outro o seria, ou (que diabo!) e porque não, que possa até ser uma vantagem de tal forma que se lhe dê mais o benefício da dúvida por ser um dos nossos, do que o contrário.

André Coelho Lima

Sócio nº 3161

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