Algumas Considerações Sobre As Conferências Vitorianas …

I- As Conferências Vitorianas correram de modo satisfatório, e disso se pode orgulhar o presidente do Conselho Vitoriano, Isidro Lobo, bem como a Comissão Executiva, responsável pelas mesmas.

II –  Porém, a verdade é que o modo como os painéis, principalmente o da manhã onde se discutiram os novos caminhos do futebol português, foram constituídos de modo a dar, apenas, conhecimento de um lado da realidade. Com efeito, Fernando Gomes, Presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e candidato à FPF, Paulo Lourenço, consultor da FPF e docente universitário, e Nuno Miranda, especialista em Fundos de Investimento, defenderam os prós de uma realidade, não deixando ver o outro lado da moeda.

III- Com efeito, o ainda, presidente da Liga reportou a sua intervenção à sua experiência no Porto, ao modo como foi constituída a SAD e os proventos dela retirados. Esqueceu-se, porém, de afirmar que a mesma foi constituída sobre uma estrutura já organizada profissionalmente, com dinâmica vencedora e, acima de tudo, em período de vacas gordas. À pergunta de a crise financeira poder impossibilitar as subscrições de valores, escusou-se a responder.

IV — Quanto a Paulo Lourenço, que assumiu ser este um caminho inevitável, a verdade é que procurou, juridicamente, argumentar a realidade que defendia. Porém, entredentes, acabaria por dizer que a aposta na SAD acarretaria uma irreversibilidade, que se prende com a impossibilidade de o clube voltar atrás. Porém, desmistificou a ideia da despersonalização do clube e do seu afastamento para os sócios, realçando os benefícios fiscais da medida, bem como uma maior responsabilização por parte dos Administradores.

V- Nuno Miranda, explicitou a importância dos Fundos de Investimento. Porém, destes ressalta uma ideia: ninguém anda no mundo das finanças para perder dinheiro. E se o objectivo deste instituto é a maximização dos activos, que percentagem leonina o mesmo lucrará? E, em caso, de falência do activo, como o mesmo será ressarcido? Apenas, o lado do encaixe financeiro e concomitante injecção de capitais foi abordado, sendo que, para justificar a sua existência referiu que para as empresas gestoras dos mesmos não importa negociar com um clube ou com um Sociedade Anónima Desportiva.

VI – Na parte de tarde, falou quem sente e entende o Vitória e isso esbateu, algum distanciamento que houve de manhã entre oradores e plateia. Porém, nota para a moderação. Se de manhã, Carlos Daniel, conseguiu com todo o seu profissionalismo ser uma mais valia na discussão, sabendo, porém, não ser o centro do debate, à tarde, José Neto, apesar de toda a bonomia, perdeu-se em intrincadas histórias e dissertações que, apenas, serviram para atrasar os trabalhos.

VII- Raúl Rocha é um homem polémico. Mas merece respeito, pois é um pensador e um estudioso do Vitória. Além da informação histórica, conseguiu ser pertinente quanto baste, quando abordou a mudança estatutária, que segundo ele, o clube necessita. Porém, adoptou um caminho errado ao defender que contas de apresentação e aprovação de orçamentos e relatórios e contas não deveriam ser apresentadas em Assembleia Geral. Estando nos órgãos sociais vitorianos, e sabendo a dificuldade que as várias direcções, inclusivamente esta, têm tido na aprovação de contas, será que a comissão de revisão estatutos, já a trabalhar, vai dar-lhe ouvidos cerceando o direito dos vitorianos de intervirem na vida do clube? Esperemos que não!

IX – Saúde-se a sua ideia de em eleições para o clube, poder-se formar listas distintas para os diversos órgãos, sendo posteriormente a sua constituição elaborada através do método de Hondt. Esta ideia, em contrasenso ideológico com a que explicitamos no Ponto VIII, seria uma exemplo de democracia e participação dos vitorianos nos seus diversos órgãos.

X- A sua ideia, também, de colocar estatutariamente um limite de 10% à derrapagem orçamental é uma prova de boa-fé e de preocupação com o Vitória. Porém, porque durante o presente ano não exigiu contenção financeira à actual direcção permitindo o aumento, já conhecido, do passivo? Ou, então, após a apresentação das contas do clube, ainda antes da Assembleia Geral, não se demitiu, atendendo à escabrosa execução orçamental?

XI – Rui Vitória e Flávio Meireles surpreenderam. Demonstram que pensam futebol, articulando todos os seus conceitos. Das suas intervenções, ressalve-se a necessidade do enquadramento do jovem jogador numa estrutura que preveja as suas potencialidades e as maximize. Demonstraram-se contra os talentos de geração espontânea e fizeram uma apologia do trabalho, de um investimento criterioso e de um acompanhamento atento aos jovens. Talvez, pela eloquência, destes dois homens, genuinamente, do futebol, Emílio Macedo da Silva entusiasmou-se e posteriormente anunciou que para o ano o Vitória possuirá uma equipa B para continuar a acompanhar os seus jovens talentos.

XII – Porém, destas intervenções que teoricamente defenderam a necessidade de aposta nos jovens da formação, uma ideia ressaltou. A saber: a importância de seguir o modelo holandês, estruturado desde a base até ao topo, de modo às exigências do futebol profissional não serem tão árduas e que a teoria é diferente da prática.

XIII – Com efeito, Rui Vitória, apesar de afirmar, que tem observado os juniores, até em jogos treino, tendo já levado os jovens Ricardo e Areias a treinar com o plantel sénior, mantém as apostas em veteranos consagrados e que fisicamente não demonstram estofo para estas andanças. Terá a desculpa de ter apanhado o comboio em andamento, porém a verdade é que já poderá começar a lançar as bases para o futuro, chamando, já, em Janeiro alguns dos meninos que têm brilhado pelos campos da Liga Orangina.

XIV – Pedro Coelho Lima é um símbolo de vitorianismo. De ecletismo. O modo como falou das modalidades amadores demonstra como deve ser o desporto, o fair-play. Uma paixão imensa pela causa. Porém, também, soube ser pragmático ao afirmar que ao invés de existirem muitas modalidades, importará existir, apenas, as que consigam ter rentabilidade desportiva. E, acima de tudo, dotadas de auto-sustentabilidade financeira. A pensar.

XV – Por fim, no encerramento, destaque negativo para João Cardoso. Falou como se a SAD fosse, já, uma certeza e uma inevitabilidade, parecendo querer obrigar os associados a seguir esse caminho. Mal, o representante máximo dos sócios. Deveria, atendendo ao carácter magno do seu cargo, demonstrar abertura a todas as opiniões. Porém, mais uma vez enveredou por um discurso atinente aos hipotéticos interesses da actual direcção. Só o despersonalizou.

XVI- Um bem-haja ao Conselho Vitoriano, na pessoa do seu presidente. Discutir o Vitória com paciência e ponderação só nos há-de tornar maiores. Esperemos que este tipo de iniciativas se perpetuem no tempo. É que o Vitória além de paixão, tem de ser razão…. logo pensado, discutido, e compreendido…

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