Análise da 1ª volta de Filipe Fumega!

A construção de um modelo de Jogo

Este poderá não ser o título mais bonito, mas será uma tradução clara do que foi a primeira volta do Vitória SC. Mas vamos por partes. Antes do inicio da época, o Vitória, agora com Júlio Mendes à cabeça e Luís Cirilo como responsável pela área desportiva, deixava sair os seus nomes mais sonantes, mas que na maioria dos casos estavam já acima dos 30 anos. Nomes como Nuno Assis, João Alves, João Paulo, Nilson rescindiam com o clube. A estes juntaram-se a saída de Edgar em fim de contrato e Bruno Teles já em cima do fecho do mercado. E para fazer face a tantas saídas o Vitória limitar-se-ia a contratar David Addy, André André, Baldé e a receber por empréstimo Delac e Lalkovic do Chelsea, sendo que para tudo o resto iria recorrer à sua recém-criada equipa B que era composta por jogadores que andavam espalhados por outros clubes por empréstimo e por ex-juniores.

Quis também o calendário que nas primeiras 5 jornadas o Vitória jogasse 4 dos desafios mais complicados da época (Sporting, Porto, Moreirense e Braga). E passada a pré-época eis que chega a hora de defrontar o Sporting, num jogo que fora na altura considerado como um primeiro indicador a dar por parte dos dois clubes, um que passava por uma revolução e outro que vinha de uma época em que o investimento não se traduziu em resultados. E a imagem que o Vitória deixou nesta primeira jornada fez acreditar os seus adeptos que apesar das dificuldades e da equipa jovem, o Vitória poderia até ter algum sucesso, e não iria como proclamado por muitos lutar para não descer.

Tal ideia havia de ser repelida nas jornadas seguintes. Ora, o jogo com o Porto veio mostrar um Vitória com muitas dificuldades na construção de jogo. Um Barrientos ainda longe do que se esperava dele aquando da sua contratação e um meio campo muito defensivo eram as queixas dos adeptos. Queixas que iriam crescer após o empate caseiro com o Estoril, em que o Vitória esteva a perder por 2-0 a 10 minutos do fim, e em que valeu o coração; a vitória, digamos que, sofrida contra um Moreirense a jogar com 10 jogadores desde os primeiros 10 minutos de jogo; e a derrota em casa no derbi que todos os vitorianos querem ganhar, frente ao arqui-inimigo Braga. A juntar a estes resultados o Vitória de Rui Vitória apresentava um futebol, se é que aquilo era futebol, de qualidade muito negativa, o que fazia os adeptos começarem a criticar jogadores e equipa técnica.E foi, precisamente, após o jogo com o Braga que Rui Vitória percebeu que havia coisas que não estavam a funcionar bem e decide promover alterações, recuperando Olimpio para o meio-campo a fazer dupla com El Adoua e mais tarde desistindo de João Gonçalves como titular. Porém e apesar da vitórias frente a Académica e Setúbal o Vitória continuava a demonstrar deficiências na sua organização de jogo, e as derrotas frente a Benfica e Nacional haveriam de deixar o mundo vitoriano em alvoroço. Sendo que o empate frente ao Beira-Mar marcaria a época do Vitória.As trocas promovidas a seguir a este jogo haveriam de dar mais consistência ao jogo do Vitória, com a entrada de Marco Matias para o lugar de João Ribeiro e o recuo de El Adoua para a linha defensiva. Sendo que André haveria de ganhar mais liberdade no meio-campo a partir deste jogo. Seguiram-se então a vitória frente ao Olhanense e a derrota frente ao Paços de Ferreira, na Mata Real.No meio de alguns destes jogos o Vitória teria outros em que apresentava uma garra e alguma consistência, refiro-me aos jogos da taça frente a Setúbal e Marítimo, que a par do jogo com o Beira-Mar terão sido importantes na mudança que estava para chegar. Mas essa mudança apenas chegaria após um grande jogo frente ao Braga, o 2º da época disputado no D. Afonso Henriques, muito vazio por sinal, ou não fosse a competição em causa a Taça da Liga.Ora neste jogo, a lesão de Alex logo no início permitiu a entrada de um defesa-direito da equipa B, de seu nome Kanu, que faz uma exibição de grande nível, provando que na equipa B havia bons valores, mas que acima de tudo revoluciona a forma de jogar do Vitória. A partir deste jogo passaríamos a ter um Vitória a jogar num esquema muito parecido com o do Porto de Mourinho. Com uma defesa rápida, que fica mais subida do que era normal, com o aspirador Olímpio, agora capitão, o todo-o-terreno André e um renascido Barrientos como número 10. Nas linhas lugar para os elétricos Marco Matias e Ricardo e na frente o pinheiro Baldé.A partir deste jogo e com a entrada em 2013, ano de Capital Europeia do Desporto em Guimarães, o Vitória não haveria mais de perder. E com a saída de jogadores para a CAN o Vitória A haveria de conseguir transportar o futebol perfumado do Vitória B, com a recruta de vários dos seus jogadores para a equipa principal. E seguem-se então o empate com Gil Vicente e Marítimo, em jogos que mais do que o resultado ficam na memória as excelente exibição da equipa, com um futebol rápido, que alterna entre a bola no pé e no espaço, com o futebol direto para Baldé, com os extremos a procurarem a 2ª bola. Sendo que não se pode esquecer a capacidade das diagonais para dentro dos extremos e a subida dos laterais pelo corredor.E chega o jogo da época. Quartos de Final da Taça de Portugal. Um Vitória com uma média de idades de 23 anos, assente no trabalho de equipa e na garra, com um e outro momento de genialidade de homens como Ricardo, Barrientos, Tiago Rodrigues… haveria de abater o seu rival e acabar com a sua pretensão de ganhar a taça nacional, calando os jornais e mostrando que há qualidade na formação do seu clube. Algo que se confirmaria nos jogos com o Rio Ave e com o Sporting, em alvalade.

E chegados aqui as conclusões que se tiram são simples. Há grande qualidade na equipa B, o Vitória de Rui Vitória aproveitou-a bem, sendo que os jogadores jovens tem sempre mais vontade de mostrar que os velhos, pelo que nomes como Tiago Rodrigues, Paulo Oliveira e Kanu iniciaram um renascimento da equipa principal, que se fez sentir em todos os jogadores, vejamos a recuperação de jogadores como Barrientos, Freire e Olimpio, tantas vezes criticados e agora membros de uma equipa que encanta os seus seguidores.

Douglas

Douglas afasta cada vez mais o fantasma Nilson e escreve a sua própria página na história do clube; Ricardo promete ser um jogador de classe mundial dada a sua humildade e capacidade de trabalho; Barrientos mostra hoje o porquê de ter custado meio milhão de euros; Baldé cresce e começa mostra toda a sua qualidade; Paulo Oliveira assume-se como um patrão da defesa e leva-nos a recordar os tempos de Geromel. E a estes juntam-se tantos outros. Uma coisa é certa a juventude vitoriana tem mostrado que vale a pena sonhar com dias melhores e que tem qualidade para assumir as despesas da equipa principal se assim for necessário, pelo que a pergunta que se põe é: e agora o que vai ser da equipa com os regressos da CAN e dos lesionados?

O Vitória tem hoje um modelo de jogo muito próprio, baseado num 4x2x3x1, em que a defesa, com outra velocidade, joga mais subida do que no passado, em que os laterais tem liberdade para subir ao ataque; em que o meio-campo está assente num aspirador Olimpi(c)o, com um Box-to-Box com uma grande leitura de jogo e capacidade de passe acima da média, com um número 10 que vive o seu melhor momento desde que chegou, que anda pelo campo livre e a espalhar magia, que se vira com receções controladas que mete a bola no espaço como ninguém; com 2 extremos tão iguais e tão diferentes, elétricos, que aparecem em diagonais mortíferas, com capacidade para chutar, cruzar e disputar todos os lances como se fossem o último e com um avançado que faz uso da sua estatura e força para ganhar posição, lutar pelas bolas, segurar de peito ou com o pé, tocar para o extremo, que roda sobre a redondinha como se fosse um qualquer médio, dando assim mais soluções à equipa. Começa aqui a aparecer um modelo de jogo à Vitória ainda longe da perfeição, mas que se pode ver quer seja na equipa A ou B, pelo que agora à que o terminar e transpor para os escalões mais jovens.VB

E a terminar deixo duas referências, foi assim com bases idênticas que nasceram momentos históricos de Manchester United, que em 1995/1996 mostrou que ao contrário da crença é possível ter sucesso com uma equipa de jovens, e o Dortmund, de Jurggen Klopp, das últimas 2 épocas. E como diria Friedrich Nietzsche “Eu vos digo: é preciso ter um caos em si, para se poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: ainda tendes um caos dentro de vós.”