André Coelho Lima – Conferências Vitorianas

CONFERÊNCIAS VITORIANAS

Estão de regresso estes textos, porque me foi solicitado pelos responsáveis da Associação VitóriaSempre que retomasse uma crónica mensal neste espaço, o que faço com muito gosto.

E do muito que aconteceu desde início da época até aqui, penso dever quedar-me pelos últimos acontecimentos, sempre os mais relevantes (e tantas vezes os únicos relevantes) no que respeita a desporto e ao futebol em particular.

Passando ao lado a vertente desportiva, onde vencemos ao V.Setúbal, por números expressivos, que se adicionarmos aos últimos resultados (2-1 frente ao Rio Ave e 1-5 em Paços de Ferreira), parecem querer demonstrar que o Vitória está a querer descolar da posição perigosa em que se encontrava. Benefício da dúvida ao Rui Vitória.

Mas o passado recente fica marcado pelas Conferências Vitorianas.
Esta iniciativa do Conselho Vitoriano é talvez, de que eu tenha memória, a única iniciativa pública, externa e palpável do Conselho Vitoriano, um órgão cuja existência se justifica plenamente, cuja constituição (não a atual mas a estatutária) é muito discutível, mas que agora apresentou uma iniciativa a todos os títulos meritória. Uma palavra para o seu Presidente e mentor da iniciativa, Eng. Isidro Lobo, cuja liderança e visão de qual deve ser o papel do Conselho Vitoriano, e do clube, ficaram bem presentes nesta iniciativa bem pensada e melhor organizada.

Assim, neste meu regresso aos escritos vitorianos penso dever partilhar com os meus amigos aquela que foi a intervenção que tive oportunidade de fazer nas Conferências Vitorianas, tomando posição sobre os assuntos relativamente aos quais nos pediam que refletíssemos: SAD; Formação; Ecletismo

Relativamente ao assunto SAD, assunto que previsivelmente ocupará os próximos tempos do debate vitoriano, considero que a resposta deve ser dada em função dos objetivos que pretendemos para o Clube: se preferimos valorizar o sentimento de pertença que temos do Vitória, ou se preferimos valorizar os resultados desportivos.
Quanto a mim, nunca deixarei de ser vitoriano, me sentir vitoriano, e ter um sentimento de pertença relativamente ao clube, e deste relativamente à nossa cidade, independentemente de qual seja ou venha a ser a configuração da estrutura dirigente do clube. Pelo que não me incomoda nada que o clube se constitua sob a forma de SAD, e nem tampouco que o seu capital possa ser totalmente disperso.
Nisto tenho uma visão muito prática: o futebol é essencialmente resultados desportivos, se esses correrem mal, todos os defeitos se apontam, se correrem melhor, ninguém se interessa se as contas são ou não transparentes, se a gestão do clube é ou não profissional, se o clube é ou não SAD. E uma coisa é certa, o percurso do Vitória tem estado sensivelmente associado à pujança industrial do concelho e da região (como fez notar o Eng. Raul Rocha na sua intervenção), o que aliás recentemente sucedeu aqui ao lado em Braga, onde o clube se amparou no crescimento exponencial do setor da construção civil naquela cidade. Ora neste particular, os próximos tempos não auguram nada de muito positivo. Donde resulta que, inevitavelmente, a única forma de conduzir o clube será aquela que tantos vitorianos têm criticado mas que se converte numa inevitabilidade se nada fizermos: só quem tenha o “poder do aval”, a capacidade financeira, não para injetar dinheiro no clube (porque isso era antigamente, hoje ninguém faz!), mas para poder avalizar os empréstimos bancários feitos ao clube, poderá sequer arriscar-se a querer ser Presidente do Vitória. E continuaremos na mão do dinheiro, daquilo que a mescla dinheiro/futebol permite em termos de projeção de social de alguns protagonistas, ao invés da capacidade gestionária, visão para o clube, do projeto, etc., serem os principais fatores. E há um outro pormenor que deve ser visto com atenção: a banca, como todos se apercebem, fechou a torneira dos financiamentos, pelo que doravante nem a capacidade de avalizar será distintiva porque a banca pura e simplesmente fechou as fontes de financiamento.
Em suma, podemos estar face a um período muito difícil na gestão do Vitória. Por manifesta falta de meios de financiamento para suportar a estrutura monstruosa que nos últimos anos foi criada.
Se face a isto, puder surgir alguém interessado em “investir” (não avalizar) no Vitória, alguém que tendo meios financeiros para isso, queira investir no negócio futebol e na mais-valia em que a nossa força e projeção se podem converter, com isso ganhará, ou poderá ganhar, o Vitória, os adeptos que poderão ver que nunca têm visto (títulos), e a cidade que sempre sai beneficiada com a projeção das conquistas do Vitória.
Se este cenário permite tudo isto, penso francamente que os sentimentos românticos de pertença, abdicarão rapidamente face a uma realidade mais pragmática e mais no sentido do que todos pretendemos: um Vitória vencedor.
Subscrevo por isso a intervenção serena, certeira e instruída do Presidente da Assembleia-Geral, Dr. João Cardoso.

Quanto à formação.
Defendi, como sempre tenho defendido, que este é o investimento mais rentável que pode ter um clube de futebol e o que, no Vitória, mais negligenciado é. O investimento é zero ou quase zero (para além das infra-estruturas, que já existem), e o ganho potencial na utilização dos atletas no plantel sénior, e na sua posterior venda, é total.
Antes do mais temos que nos perguntar que resultado pretendemos da nossa formação: títulos nos escalões juvenis ou jogadores capazes de poderem ser utilizados na equipa principal? Eu opto sem hesitar pela segunda.
E se este é o objetivo máximo da formação, rentabilidade desportiva, a que se poderá seguir a rentabilidade financeira, francamente não consigo entender como não existe tampouco uma fiscalização dos resultados da formação de clube, neste particular. O último atleta da formação aproveitado pela equipa sénior foi o Tiago Targino… Como é possível não haver responsabilidades, não haver explicações, do porquê de ano após ano não ficar ninguém no plantel principal?
Mas o pior é que nem sempre é a falta de qualidade dos nossos atletas, dos da nossa formação, que explica tudo. Repare-se: o Flávio foi um dos jogadores marcantes da última década no Vitória. No entanto, apesar de ter sido formado no Vitória, ingressou na equipa sénior com 24/25 anos, tendo tido que ser comprado ao Moreirense. Isto é, para o Vitória não servia, rodou em Fafe não servia, mas depois foi o Vitória recomprá-lo, e pelos vistos já serviu. Ora isto é difícil de compreender. Como é difícil de compreender como é que tendo o Vitória o Dinis para apostar e promover, não lhe dê oportunidades e vá comprar, com a mesma idade e para idêntica posição, o Rafael Crivellaro ao Brasil. Como é difícil de compreender que o Vitória tenha no seu plantel o Leandro Freire, jogador que integrou o plantel sénior com 20 anos, sendo a dupla de centrais titular do 1º classificado da Divisão de Honra (Atlético), oriunda do Vitória, ambos com 19 anos. Como é ainda mais difícil compreender a contratação do Toni, com 32 anos, tendo o Vitória à disposição o Amorim, que foi um dos mais internacionais de sempre das nossas camadas jovens.
Mas o que eu acho mais piada são os técnicos dizerem sempre que os nossos atletas não têm ainda capacidade competitiva para competir ao mais alto nível. Até posso não discordar, mas se isso for assim, de quem é a culpa? Dos atletas não é com certeza! Basta olhar para os exemplos de equipas de topo do futebol mundial como o Ajax, e sobretudo o Barcelona, que ganham campeonatos e taças com os produtos da sua formação. O Barcelona foi campeão da Europa com mais de 7 jogadores titulares oriundos da sua formação.
Mas há um exemplo ainda mais gritante, que dá pelo nome de At.Bilbao. Todos os seus jogadores são bascos. Ou seja, a amplitude geográfica onde podem ir buscar jogadores para a sua cantera é limitada a uma área idêntica ao norte de Portugal, sendo esses os únicos que podem jogar na sua equipa profissional. No entanto, o At.Bilbao é uma equipa bem melhor que o Vitória, que já foi campeão de Espanha, e tem sempre uma equipa competitiva com diversos internacionais.
Será que são só os nossos que são maus?
Eu não acredito. Acho que o mal está mais em quem prepara, e em que exige (que não exige) resultados.

Por último, o ecletismo.
Neste particular queria dizer apenas que, como na altura própria disse, a tentativa de controle financeiro das modalidades foi o maior erro que esta Direção poderia ter cometido. Foram avisados, levantaram-se muitas vozes experientes, no entanto, prosseguindo nesta senda de centralizar os proveitos financeiros das secções, e distribuir pelas diversas modalidades, cometeu-se o erro que está à vista. E que veio, inevitavelmente, a conduzir à existência de salários em atraso nas principais modalidades (situação que nunca acontecera até aqui) e a um natural menor empenhamento na captação de meios financeiros por parte dos seccionistas.
Na questão das modalidades, como noutras questões das nossas vidas, a autodeterminação deve ser a regra. Aquelas que tiveram condições para existir, existirão, dentro das suas possibilidades, dentro das possibilidades que o mercado (isto é, os patrocinadores) tiverem nessa modalidade. Tudo o que passe disto será uma sustentação artificial de diversas modalidades contribuindo para o défice sucessivo do clube. No fundo, aplica-se às modalidades o que se aplica ao futebol: devem existir na medida das suas possibilidades, do interesse que manifestem, sem subsidiação ou dependência de financiamento pelo clube.
Defendia eu, mediante a aprovação do orçamento de cada modalidade (defendeu o meu irmão na sua intervenção, mediante o relatório e contas por ser mais exato, no que concordo), o clube poderá comparticipar 5%, 10% ou 15% consoante a análise global ao peso das modalidades que seja feito. Assim podendo (aliás devendo) as modalidades existir, mas mantendo um nível competitivo que não seja artificial, que seja correspondente ao interesse que conseguirem captar nos seus investidores.

Em conclusão, pedindo desculpa pela extensão do texto que se justifica creio por tocar diversas e sensíveis áreas de intervenção no nosso Vitória, partilho assim com todos aquilo que defendi nas Conferências Vitorianas, e aquelas que são as minhas posições sobre algumas das áreas fulcrais para o futuro do nosso clube.

Guimarães, 5 de Dezembro 2011

Nota: quero apresentar o meu lamento sobre o tema que, sendo totalmente irrelevante, pelos vistos ocupa os espíritos dos vitorianos que é de se chamar “Vitória” ou “Guimarães” ao nosso clube. Francamente, não consigo perceber onde esteja o problema. Isto é exatamente como sucede nas famílias ou em grupos de amigos, onde há uma alcunha e o nome formal. Para nós, a família, o nosso clube é o “Vitória”. Para os outros, os de fora, o nosso clube é o “Guimarães”. Até para melhor distinguir o nosso Vitória do outro, do de Setúbal. Isto sempre foi assim. Nem consigo compreender porque é subitamente resolveu inquietar alguns espíritos. Quanto a mim, apelo a que os vitorianos se ocupem com questões mais decisivas do que esta que não tem qualquer relevância, e tomando posição, manifesto desde já que votaria favoravelmente a uma proposta que alterasse o nome do nosso clube, passando a ser o Vitória Sport Clube de Guimarães. É assim que sempre fomos conhecidos. Somos daqui, com muito orgulho, pelo que nem percebo a causa de tanta súbita irritação.

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

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