André Coelho Lima – EM ESTADO DE SÍTIO

EM ESTADO DE SÍTIO

Escrevo depois de um regresso às vitórias, que nos coloca num não honroso, mas tranquilo, 7º lugar. Num jogo fraco, numa equipa que se sente temerosa e sem chama, o Vitória ganhou porque foi a melhor equipa, e porque para a 2ª parte se apresentou revigorado e disposto a tentar ganhar o jogo.
Quanto ao resto da época, as expectativas são reduzidas, os lugares europeus são quase uma miragem (pelo menos a continuar com estas prestações), o que naturalmente também muito contribui para um desânimo generalizado que se sente no estádio e no campo.

Mas a fase que o clube vive, o momento de desesperança que nos assola, e sobretudo, o beco sem saída em que se tornaram as contas do clube e a gestão desportiva, é que nos devem fazer pensar no futuro do nosso clube.
De entre estas duas dimensões há dois factos recentes que merecem reflexão: o crescente clima de conflitualidade associativa, e a demissão em bloco de dirigentes do futebol juvenil.

A contestação à Direção tem colocado o Vitória em estado de sítio. E isso não me parece útil.
Independentemente da opinião que tenhamos sobre a Direção e o seu trabalho, ela está legitimamente eleita para o exercício de um mandato, que salvo situações de força maior, deve ser estável até ao seu final.
Há muitas medidas (ou a falta delas), que têm merecido a minha crítica nestas linhas, como merecerão a discordância de muitos associados, mas com o clima de conflitualidade permanente, de insulto constante, não conseguimos dar ao clube, e particularmente à sua equipa de futebol, a tranquilidade de que ela precisa, e da qual também somos responsáveis.
A Direção tem certamente feito o melhor que sabe. Se é ou não suficiente é outra questão. Mas não podemos ser um clube que vive em permanente conflitualidade consigo próprio à mínima contrariedade. Sente-se que o clima é cada vez mais insustentável para os atuais órgãos sociais, o que os próprios também terão percebido, mas deixemos que cumpram o seu mandato em tranquilidade, que sejam executados os seus planos com algum sossego, e em altura eleitoral os vitorianos decidirão o que quererão para o seu futuro.
Até porque há uma outra dimensão, nada despicienda, que é a de que este clima de permanente inquietude afasta naturalmente potenciais candidatos que naturalmente se desmotivam por perceberem a constante panela de pressão em que se poderão envolver.
A crítica e contestação são legítimas e são até necessárias. Mas tem que haver margem para que a crítica exista sem colocar permanentemente em causa os mandatos dos órgãos legitimamente eleitos.

O segundo assunto prende-se com as demissões em bloco de dirigentes do futebol juvenil do clube. Isto porque as motivações que vieram a público dessas demissões, por causa do protocolo Vitória/Benfica, deixaram-me perplexo e devem levar-nos a reflexão séria.
As acusações de que o futebol juvenil possa estar a soldo do Benfica, de que os escalões de formação do Vitória possam estar a ser geridos essencialmente para municiar o futebol juvenil do Benfica, como tratando-se de uma espécie de Benfica-B, são dados absolutamente intoleráveis. E se apresentadas como justificação das saídas de dirigentes, devem pelo menos levar a que tudo pare, para ver se há nelas algum fundo de verdade. E deviam sem dúvida levar a que a Direção clarificasse o que efetivamente se passa.
Não se compreende porque motivo tem o Vitória um protocolo com o Benfica, ou com qualquer clube da mesma liga que nós disputamos. Poder dispor de empréstimos de jogadores, é naturalmente positivo, poder estabelecer plataformas de entendimento paralelas para venda dos nossos atletas, é aceitável, agora protocolar formalmente, entre dois clubes que podem até disputar a mesma posição, é algo de incompreensível. A própria dimensão de agachamento face ao “clube grande” é algo de, em si mesmo, vexatório para a condição de vitoriano.
Mas há questões bem mais graves do que este conceito de rebaixamento a que o protocolo nos impõe. Porque o que não podemos de forma alguma permitir é que o nosso valor, as nossas apostas, o nosso investimento, os nossos atletas, possam estar a ser desbaratados ou geridos de acordo com o interesse de quaisquer terceiros, que não o Vitória Sport Clube.
Repito pela importância. Tudo isto assenta no que veio a público após as demissões no futebol juvenil. Era importante que a Direção esclarecesse estas acusações, que eventualmente desmintam a versão apresentada. Agora não podemos é permanecer neste silêncio ensurdecedor, sem qualquer esclarecimento que aborde o assunto em causa, porque as acusações são graves demais para ser ignoradas.

Guimarães, 10 de Janeiro 2012

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

Nota: queria deixar expressa a minha censura à designada “nova mascote” do Vitória apresentada no jogo frente ao Benfica. Trata-se nada mais nada menos que o 1º Rei de Portugal, o fundador da Nação Portuguesa, que o Vitória apresentou como mascote e fez passear numa volta ao estádio, no intervalo do último jogo, perante a indiferença das bancadas.
É uma enorme honra para todos os vitorianos que o Vitória ostente a imagem de D.Afonso Henriques de Soares dos Reis no seu símbolo, que a imagem institucional do Vitória exiba, orgulhosamente, uma imagem do 1º Rei de Portugal, mas tornar a imagem quase sagrada de D.Afonso Henriques, um Rei que é um símbolo de Portugal, numa mera mascote, é algo que manifestamente contraria o respeito que é devido pela figura do 1ª Rei de Portugal, é algo que francamente vulgariza a importância simbólica que para o próprio Vitória tem a figura de D.Afonso Henriques.
A D.Afonso Henriques é devido o respeito que é devido às figuras sagradas, não devendo banalizar-se a sua utilização. É um símbolo. De Guimarães e de Portugal. Não pode ser desrespeitado e vulgarizado para utilização como mera mascote, para mais de gosto muito duvidoso. Contrariamente a outros, não precisamos de exibir a nossa condição guerreira, na medida em que ela é idiossincrática, não carece de ser exibida para ser notada.
Não vulgarizemos os nossos símbolos. Que são também símbolos nacionais. Honremos devidamente aqueles que de forma tão distinta homenageamos na simbologia vitoriana.

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