André Coelho Lima – MOMENTO DE CLARIFICAÇÃO

Do ponto de vista desportivo, antecede este meu escrito uma vitória justa e segura do Vitória em Aveiro. Uma vitória muito importante para nos colocar de forma segura no 6º lugar, ainda que longe de qualquer dos nossos adversários mais próximos (a 6 pontos do 5º classificado e a 5 pontos do 7º classificado), e igualmente importante por anteceder um ciclo de jogos muito difícil.
Interessa por isso uma palavra de louvor aos atletas do Vitória, que apesar de estarem, como é público, face a um incumprimento do clube no tempestivo pagamento das suas responsabilidades, e apesar de verem o clube a viver um autêntico turbilhão, têm sabido manter a serenidade e o profissionalismo, não têm permitido que essas circunstâncias afetem o seu rendimento, e merecem por isso uma palavra de louvor a agradecimento.

Do ponto de vista associativo, a intranquilidade e o mau ambiente que se vinha vivendo veio a culminar na demissão dos órgãos sociais, o que faz com que estejamos a viver um período pré-eleitoral.
Naturalmente e como devem imaginar, não me pronunciarei sobre eventuais ou putativas candidaturas, que são legítimas e aparentemente (e até surpreendentemente) em número apreciável. Temos bastos episódios na nossa História recente que nos demonstram que são sempre em maior número as intenções de candidatura do que as efetivas candidaturas, pelo que penso ser razoável que aguardemos pelas afirmações e reposicionamentos, até ao momento de se ver quem verdadeiramente formaliza uma candidatura à Direção do Vitória. Elogia-se contudo aqueles que, sem tibiezas, já anunciaram sem margem para dúvidas a sua candidatura.

Mas penso que o momento do nosso clube exige acima de tudo responsabilidade.
O Vitória vive um momento financeiramente muito difícil. Aliás, tão difícil quão inexplicável, pelo menos para mim que não consigo perceber estas contas e estes passivos. E essa circunstância não pode deixar de ser lembrada numa altura em culmina o mandato de uma Direção que quase duplicou o passivo, sem expressão assinalável nos resultados desportivos.
Na gestão da empresa Vitória Sport Clube, tenho alguma dificuldade em conseguir compreender como é que no ano em que o Vitória fez o maior encaixe financeiro da sua História, com a venda do Bebé para o Manchester United, foi preciso vender o Ricardo a meio do ano para ajudar a equilibrar as contas. Tenho alguma dificuldade em compreender como é que, ciclicamente, no chamado “mercado de inverno” temos precisado de vender para conseguir pagar salários até final do ano. Tenho muita dificuldade em compreender como se dimensiona uma equipa para uma época, e se chega a meio da época com franca dificuldade para pagamento das responsabilidades, até com os salários dos atletas. E isto é algo a que não estamos habituados.
Num clube de futebol, a incerteza do lado das receitas é muito reduzida, até porque a maior delas, advindas das transmissões televisivas, é de valor previamente conhecido. Só haverá oscilação na quotização e a bilheteira, ambas infelizmente pouco relevantes nas contas finais, e aliás, pouco incertas no Vitória. Assim, a maior incerteza será no lucro potencial, isto é, naquilo que um clube poderá ganhar advindo das suas prestações desportivas nas competições europeias.
Por isso, é relativamente fácil fazer um orçamento, dimensionando os gastos às receitas que são certas e estão asseguradas, e não contabilizando as receitas incertas (competições europeias), isto é, vivendo à altura das nossas capacidades. Se depois algo correr melhor do que o esperado, temos o chamado “mercado de inverno” para poder ajustar o plantel às necessidades de acordo com as competições em que o clube ainda se encontre. Se algo vier a correr pior do que o esperado, o orçamento já estará dimensionado tendo em conta essa realidade. Só assim não deverá suceder em anos extraordinários, como serve de exemplo o ano da qualificação para a pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Circunstância que devia ser claramente justificadora de dispêndios extraordinários. Como sabemos, não o foi.
Há muito erros que têm sido cometidos nos últimos anos. E paradoxalmente, desde a saída de Pimenta Machado, que tinha uma estrutura humana reduzida, dimensionada ao controle total que exercia, o Vitória tem crescido a olhos vistos em termos de estrutura humana.
O Vitória tem hoje ao seu dispor cerca do triplo das pessoas de que dispunha há 10 anos atrás. O que é difícil de compreender. Pois que se é verdade que aumentaram os serviços, as modalidades e em certa medida até a dimensão do clube, não deixa de ser verdade que dá um pouco a impressão de que vivemos agora como um clube rico, de que temos uma estrutura humana sobredimensionada.
E isso não se compreende.
Já há muitos anos, que defendo a profissionalização da gestão do clube. Desportiva e financeira. Nenhuma empresa deste Mundo, com um orçamento de milhões de euros, se compadece com uma gestão amadora e a meio-tempo.

Mas, reforço, temos que ter bem consciência de que este momento, é um momento de clarificação, como intitulei este texto.
O Vitória tem um passivo gigantesco e inexplicável, mas resolúvel ou atacável, mas em simultâneo, qualquer passo menos sustentado e menos responsável, qualquer política menos estruturada ou menos bem pensada, pode colocar o Vitória em patamares para nós inimagináveis, pode fazer o Vitória tombar desportivamente, na sequência da sua queda financeira.
Por isso este momento é muito importante. É um momento sobretudo de responsabilidade.
Porque é a sobrevivência da instituição Vitória Sport Clube que está em causa.
E é só essa que a todos, pelo menos a mim, interessa salvaguardar.

Guimarães, 16 de Fevereiro 2012

André Coelho Lima
Sócio nº 3181

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