Artigo de Opinião – A insustentável leveza da normalidade

@ vitoriasc.pt

@ vitoriasc.pt

– Tremendo jogo da rapaziada – é o que vos tenho a dizer, e serei muito curto porque em qualquer esquina, ou café, da cidade berço encontrarão melhores relatos do que o meu. Estádio cheio, gargantas gastas, ambiente vestido de branco apaixonado pela equipa da casa que carimba no peito o símbolo que nos une, o símbolo que nos faz únicos, e que nos faz, mais uma vez, verdadeiros conquistadores, conquistadores autênticos em vias de extinção neste país à beira mar plantado. Mas não entendo a exaltação, ou melhor, entendo-a porque também a sinto, mas não me parece lógica. Assistimos a um Vitória que, por mérito, se fez grande, tão superior e com uma vitória tão incontestável que, falar dela, é normalidade quase insustentável, é esforço cunhado de concentração para lhe encontrar uma ponta solta. A melhor equipa venceu. Normal. O resultado não oferece contestação. Normal. Não existiram casos de arbitragem. Normal. A equipa que ocupava o terceiro lugar venceu uma que se encontrava atrás. Normal. A equipa que venceu desperdiçou variadas oportunidades para avultar o resultado. Normal. A equipa derrotada não teve uma oportunidade flagrante. Normal. Tudo normal. Tudo insustentavelmente normal.

É certo que vi algumas camisolas amarelas espalhadas, dispersas como ovelhas tresmalhadas, pelo relvado do D. Afonso Henriques – um amigo alertou-me, enquanto os jogadores entravam em campo, que desta vez iríamos, com toda a certeza, derrotar o Paços, seria uma espécie de segunda oportunidade que só se confere aos audazes – desconfiei, mas não é que o rapaz tinha razão! Desta vez o Paços levou aquilo que merecia. Não sabia que o tipo da voz de bagaço também torcia pelo Paços, vi-o com cara de entupido, presumo que terá comprado uma mobília, a muito bom preço, e agora andará a levitar por aqueles lados. Enfim, cada qual com os seus interesses, nada a criticar, bem pelo contrário, cada um tem que fazer pela vida. E tenho que lhe conceder o crédito merecido, ainda não lhe vi o boné da propaganda nas conferências de imprensa, por isso, como dizia o Ali G.– que não tem voz de bagaço mas até queria – “Respect”.

Pelo que tenho visto nestes últimos dias, depois do jogo, talvez a inteligência, para os lados da foz do Tejo, esteja limitada às raízes das fronteiras do que passa na televisão, ou melhor, talvez aqueles que fazem televisão se limitem às raízes das fronteiras cómodas da foz do Tejo, ou melhor ainda, talvez a propaganda televisiva seja uma daquelas vozes chatas que, pela exaustão repetida, já nem se liga, uma voz que se ouve e se tolera como um qualquer miúdo chato, mimado, que só chora para comer mais, que só berra para que os outros não comam, e só faz birra porque está habituado a berrar para alcançar os seus intentos. Talvez esses miúdos, um dia, aprendam com estas lições de vida, e talvez um dia cresçam e fiquem grandes. E se façam homens. E esperemos, amigos, esperemos sentados, bem sentados, a ver a rapaziada do Vitória a jogar.

Artigo de Opinião: Fernando André Gonçalves

  Categories: