Artigo de Opinião – Sempre o Vitória!

GMR

@ Artigo de Opinião

Sei que muitos de vós assistiram, ao longo destes últimos anos, e certamente tomou consciência, do eclipsar de grande parte da força motriz deste país e desta cidade, do extravio da opinião sustentada daqueles que completam um curso e depois se formam com o punho cerrado à volta do canudo, daqueles que ainda pensam mudar o mundo, exclusivamente, pelo sopro das suas vontades, pelo vento dos seus sonhos. São jovens, muitos deles da minha idade, grande parte naturais da minha cidade, outros ainda, que fizeram deste berço de cidadania, o deles também, mas todos, todos, todos, fruto do investimento de progenitores esperançosos, pais sonhadores, que largaram o futuro dos seus filhos na política ineficiente deste país.

Recentemente, um amigo eterno retorna, apenas de visita, ao país que o abandonou, à cidade que abandonou e, num abraço sentido, diz-me: «Nunca mais volto.» Primeiro estranho, depois entranho. E, sem o querer entender, sem o desejar entender, como o entendo. Diz-me outras palavras que não decorei, mas que julguei assim: «Sabes? O fado triste é para ser vivido na música, não pelas ruas. Em cada esquina vejo a saudade, a angústia, vejo a pobreza, vejo o olhar dos sonhos desfeitos, das ambições comprimidas por quem as deveria acalentar.» – Interrompe a conversa esticando o braço no ar e pede dois finos, dado que a garganta já começava a arranhar, e continua: «Sabes? Fico triste quando calco esta calçada, vejo um povo sucumbido a uma força transparente que o esmaga, que o tritura, um povo que faz do voto um jogo de pingue-pongue, como se a política fosse um símbolo, como se o destino tivesse cor.»

«Ignorantes». Dizemos em conjunto, como se nós, também, não fossemos um deles.

Não lhe disse mas pensei: esta é a minha geração, que também é tua, e de muitos vocês, a geração à tangente, a geração que, com um guinar do volante se desvia do embate, aliás, desvia-se para não descarrilar, para não claudicar no acidente voraz que tem sido este país.

Mais um gole no fino, mais um abraço sentido a quem o reconhece, a quem o revê. «Amigo, acredita, nunca mais volto.» Continua. «Sabes uma grande diferença? As notícias, os noticiários, lá duram apenas 20 ou 30 minutos, são notícias verdadeiras, factos reais, aqui, muitas vezes, assemelham-se a projecções de possíveis acontecimentos. Parece que a notícia tem que ser alimentada, e fabricam-se pequenas telenovelas para que o povo se entretenha. E muitas vezes, o facto real é atirado para um canto, é despejado apenas em cima da hora, quando já não há nada a fazer. Enfim, interesses!» Diz-me.

Levanto dois dedos no ar, não de vitória, apenas para pedir mais dois finos. E depois outros dois. E outros, e outros. E outros. Depois, já no fim, no íntimo cavado de uma clarividência, lá surge a conclusão: «No meio disto tudo, no meio desta miséria, sempre temos o Vitoria!» «Sempre o Vitória!» Digo-lhe. Os dois dedos levantados deixam de pedir dois finos, adquirem o símbolo identitário que não se apaga, e que, mesmo com um afastamento forçado, se mantém timbrado na memória. É uma identidade que não possui partido ou politica, tempo ou barreira, uma identidade que vale mais do que palavras. Vale Homens. Homens verdadeiros, não das telenovelas ou das notícias de palha, homens que carregam uma crença enorme, uma vontade que emerge de uma força interna, imensa, uma força que nos une, que nos faz pensar que, afinal, nem tudo é mau, nem tudo é falso. É uma força que nos faz ter esperança. Esperança. Uma força que festeja 92 anos de existência mas que detém raízes tão profundas que se misturam com o próprio berço da nacionalidade, raízes que, nos bons ou maus momentos, se mantêm sempre inabaláveis.

Braço novamente esticado no ar, mais dois finos para o caminho. E rematamos: «O que nos safa é o Vitória!»

«Viva o Vitória! E, antes que venha o fino, vou ali à casa de banho escrever uma notícia!»

Artigo de Opinião: Fernando André Gonçalves

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