Esser Jorge – Belo e civilizado é o futebol

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Belo e civilizado é o futebol

Aprecio cada vez mais a forma como os jogadores e equipa técnica do Vitória abordam os momentos conflituosos do jogo. Me parece que tal se deve à ação pedagógica do treinador Rui Vitória. E, de facto, dali têm vindo alguns ensinamentos que, seguramente, têm resultado a estruturação do Vitória enquanto equipa de futebol. Além disso, o Rui é um tipo que vai além do futebol, sabe apresentar-se e, no campo, honra o espaço destinado ao treinador. Não rumina chicletes, não rompe a relva, não gesticula, não grita, não aponta o dedo, sorri quando o golo é da sua equipa e não provoca o adversário na hora do infortúnio. Explica-se bem e tem léxico diverso. Gosto disso!

Mas há mais: um desses ensinamentos prende-se com a sua atitude perante o “erro do árbitro”: em vez de se desfazer em pequeniloquências e ofensivos adjetivos, em vez de esgares de vingança e urros figadais, em vez do discurso persecutório e da vitimização, o Rui mantém a elevação de quem é superior e está acima de quem tanto erra, objetivamente, seres sem a sua dimensão.

Creio que não será por acaso que os jovens jogadores do Vitória não se detêm em protestos e discussões com os árbitros incapazes de fazerem regredir uma má decisão. Porque todos sabemos, nenhum árbitro volta atrás. É muito bem visto: uma má decisão, ao ser acatada imediatamente, impede o seu prolongamento em consequências mais adversas. Não conflituar com uma entidade com poder supremo, como um árbitro de futebol, é um ato de inteligência. Para além do óbvio, a atitude tem também a particularidade de produzir no ser errante (que o saberá sempre, ainda que tenha errado inadvertidamente) a noção de ser injusto.

Ao contrário do que muitos pensam, percebe-se que tal atuação nada tem de conformista. É sim, em toda a sua extensão, uma clara e inteligente ação estratégica. A breve prazo, o comportamento da equipa do Vitória, sendo conhecido pela sua elegância e atitude lisa, produzirá respeito e retração à penalização injusta. Quiçá provocará ainda a adesão dos sentidos do árbitro à diferença Vitoriana.

Note-se que esta realidade é muito difícil de conseguir. Um jogo de futebol é um território de conflito instituído mas de onde se esperam comportamentos racionais. Já houve tempos em que ganhava o caceteiro, o maldoso, o chico-esperto, o bruta-montes, a ignomínia e a má-criação. Ainda hoje muita gente entende que se chamarmos nomes feios ao árbitro e à sua mãe, ganhamos um lugar de destaque, vingando não só a nossa sorte mas, essencialmente, conformando o nosso interior deixando vincada a nossa marca: assim fica a saber quem nós somos!

E quem somos nós? Trogloditas, gente mal-educada, pessoas irracionais, bárbaros, malvados, desmiolados? Porque tende um jogo de futebol a retirar-nos a nossa noção individual? Certa vez, num ambiente académico, perguntaram-me o que, na minha opinião, tinha substantivamente mudado no futebol? As cadeiras nos estádios, respondi. Ver um jogo sentado, com o corpo instalado, adocicado e adormecido, substituíra a visão do jogo de pé com o corpo retesado e enrijecido. Sentados tornávamo-nos civilizados e tolerantes.
Mudaram as bancadas mas demorou a mudança no meio do relvado. Afortunadamente hoje vemos uma atitude esmerada, polida e correta no jogo do Vitória. É claro que tal não deve ser confundido com falta virilidade, abnegação e empenho. Trata-se da estética do jogo, muito mais belo e apreciado. Decididamente, hoje ganha a civilidade, o saber estar, a compreensão do jogo e a educação. Deve-se a Rui Vitória.

Esser Jorge Silva

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