Esser Jorge – Manual para o Jovem Atleta Vitoriano

esser jorge

Já não me lembrava de ver um jogo de futebol num domingo à tarde, sequer no Estádio D.Afonso Henriques. Desde aí tenho feito um esforço à procura da última vez que tal visão me fora dada mas não consigo recordar-me. E contudo, durante quase uma vida, num tempo em que a televisão ainda não se tinha apropriado do futebol e do seu horário, o domingo estava reservado para uma ida ao estádio.

Voltar a ver um jogo com a luminosidade natural no nosso estádio trouxe, para além do quadro memorizado, lembranças antigas que podiam passar por um pequeno jogo entre iniciados, a mostra da equipa juvenil que havia ganho um torneio em França, o passar das belíssimas meninas do voleibol mostrando uma taça conquistada algures, tudo isto, enquanto Eduardo Freitas anunciava entre mais uma marcha inglesa, o resultado do sorteio do “tijolo” promovido pela Comissão de Fundos para Um Vitória Maior e se anunciava, logo a seguir, um frango no Zé da Curva para o jogador que marcasse o primeiro golo do Vitória. E neste intermédio até podia aparecer por ali um pequeno cão branco, saltitando atrás de uma bola e fazendo malabarices diversas que o fotógrafo Simão Freitas registava e expunha na montra do seu atelier, aliás, local onde também surgia a reportagem fotográfica do jogo dessa tarde. O resultado era, na maior parte das vezes, como o deste Vitória-Rio Ave: ganhávamos!

Uma extravagância da altura era esta cadência de acontecimentos poder ser prevista. Excluindo o resultado do jogo, ia-se ao estádio sabendo ao que se ia. Cada coisa tinha o seu lugar e cada lugar tinha as suas coisas. O planeado tinha grandes possibilidades de acontecer apesar do planeamento estar, por essa altura, acometido a um sistema económico que, por planear tudo, era tido como triturador dos espíritos livres.

A chegada deste tempo atual em que planeia de hoje para amanhã, se decide das nove para as dez, se apela ao impulso e à emoção permanente e se apregoa, não a riqueza lentamente construída, fruto do trabalho diário sistemático, seguro e abnegado, mas a possibilidade de enriquecimento repentino, sorteado, caído do céu, retirou-nos não só os cenários memorizáveis assim como nos trouxe a impossibilidade de proceder as nossas vidas segundo uma narrativa linear, pensada segundo uma carreira, capaz de ser imaginada de trás para a frente. Vivemos em ansiedade, andamos aos trambolhões, desnorteados e sem bússola. A calendarização e os horários dos jogos de futebol são uma boa metáfora do nosso desnorte, acontecendo em dias deslocados e em horas improváveis.

Por isso mesmo, ao ver a longa fila de jovens vitorianos desfilando no decorrer do intervalo desse dominical jogo, uma certa nostalgia do passado inundou os nossos sentidos. Nisso não houve mudança: o Vitória continua a ser a casa comum dos vimaranenses. A força do apelo social às insígnias do clube é deveras impressionante. A invocação do seu nome traz sempre acoplada uma certa ideia de profissionalismo (que aqui toma o valor de ato elevado e não de ato remunerado), noção essa geradora de um orgulho e uma compreensível vaidade para os jovens atletas que ali aprendem e ostentam com orgulho.

Para uns representar o clube não é mais do que isso mesmo, uma forma de dar algo de si a uma paixão que é incutida desde o berço e uma forma de promover o fluxo contínuo entre familiares. Para outros, trazer o jersey vitoriano encostado ao corpo é, em certa medida da vida social vimaranense, uma forma de elevação do estatuto que alguns progenitores encontram para os seus filhos. Não admira assim que, ano após ano, se engrosse o número de atletas que, por uma razão ou por outra, ali estagiaram na vida, uns para tornar o corpo tão são como a mente que os ali leva, outros porque ali chegam imbuídos de uma ideia de futuro, uma saída para a vida, um percurso onde tudo se aposta.

Acontece muitíssimas vezes a circunstância do progenitor dar o seu filho a conhecer, lembrando a sua condição de jogador do Vitória. Em geral, quando tal acontece, estamos perante um atleta de futebol, desporto que vive desse estatuto superlativo. São muitos os jovens nessa circunstância e que rapidamente adquirem a certeza de ter encontrado o seu futuro. Inclusive, muito cedo adquirem não só os traços mas também os trejeitos da vedeta do amanhã. Seja no caminhar, na linguagem corporal, na forma de expressar, no vocabulário, nos locais de frequência, a maior parte desses jovens forma uma imagem muito recortada de alguém que já incorporou a personagem do artista. Digamos que nesse percurso de aprendizagem todo o acessório surge rapidamente enquanto o essencial se mantém escondido.

Nesse percurso onde a dificuldade de aprendizagem de qualquer tarefa é substituída pelo prazer do jogo, é esquecida a noção da realidade cuja afirmação é de uma crueldade insuportável: só uma minoria de atletas será bem sucedida e uma maioria dos aprendizes será, muito cedo, lançada no mundo de coisas reais e difíceis. Darão aí conta da futilidade dessa formação exclusivamente futebolística. Sentirão então que toda a aprendizagem no metier de artista, na realidade, resultou numa formação frustrada. Só nesse momento emergirá no historial da pessoa, as possibilidades não realizadas no passado. Dito de outra forma, mesmo quando já se decidiu que, no futuro se pretende ser futebolista, jamais se poderá excluir a aprendizagem teórica provinda da escola. Só essa aprendizagem gerará um capital seguro, certo e longínquo ao artista. Por seu lado, a arte do futebolista, esse, é, em toda a sua natureza, um capital efémero que desaparecerá logo após os trinta anos.

Esser Jorge Silva

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