Esser Jorge – O silêncio não dá inocentes

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Mesmo que percamos o jogo no meio de todos os azares, e a derrota surja da noção de improbabilidade que um jogo de futebol acarreta, é uma obrigação civilizacional estender a mão e cumprimentar o adversário. Mas quando a derrota é o resultado da mais simples constatação, aquela simples e dorida realidade que nos mostra a outra equipa melhor executante do que a nossa, só nos resta conformamo-nos, sorrir ao adversário e esperarmos pelo dia em que a nossa competência nos proporcionará a desforra.

A nossa história faz-se de vitórias, os nossos grandes momentos. Mas o que nos agiganta são os momentos de infortúnio. Já batemos palmas ao Sacavenense, besta negra do Vitória em duas eliminatórias da Taça de Portugal na década de 1980. Já nos levantamos aplaudindo o Estrela da Amadora após eliminar-nos, no nosso estádio, numa meia-final da Taça de Portugal. Já fomos vergados pelo Moreirense, nosso “irmão mais novo”. Quando nos caiu a realidade “da segunda” em cima, muitos de nós choraram em silêncio a amargura da nossa sorte. Mas ao fim de 10 segundos de profundo silêncio, todos cantaram “Vitória até morrer”. Em cada derrota, em cada infortúnio, não só reforçamos a nossa resistência como nos descobrimos mais próximos. Mais unidos, portanto.

Quero com isto dizer que não me desonra a derrota apesar de a detestar. Aliás, se há coisa que me parece uma modorra e de um tédio exasperante é aquela condição do adepto da equipa que ganha sempre. Prefiro de todo experimentar por vezes a amargura que faz de nós seres humanos. Com isto quero dizer que me custou bastante encaixar a derrota com o Betis. Naquela altura o empate parecia-me um excelente resultado.

A frustração só domina os fracos. E, em consequência da derrota, a forma como foram tratados os adeptos do Betis Balompié foi miserável. Que ninguém me venha com a ladainha do “olho por olho, dente por dente”. Lá porque a miséria humana esteve presente na forma como os adeptos vitorianos foram recebidos em Sevilha, não nos cabe rebaixarmo-nos ao nível da inferioridade local. Pelo contrário, cabe-nos uma atitude de vigia e de reivindicação de atitudes sãs e ímpias. Os sócios e simpatizantes não podem permitir que uma meia dúzia de grunhos colem ao Vitória uma imagem tão negativamente bruta como a que em geral os poderes futebolísticos atribuem aos vimaranenses.

Na sua história recente o Vitória submeteu-se a uma estratégia de sobrevivência económica descurando a sua presença noutros fóruns decisores que compõem as várias extensões do futebol e disso parece pagar um preço. Exemplos são muitos: dos jogos à porta fechada justificados pela “má organização do jogo” (com os adeptos do Braga a destruírem uma bancada do D.Afonso Henriques) por oposição à penalização do Paços de Ferreira por “mau comportamento do seu público” em Braga (num jogo, presume-se, muito bem organizado pelo Braga), passando pelo castigo “sumaríssimo” ao guarda-redes Douglas por oposição ao muito lento processo ao treinador Jorge de Jesus, sem esquecer a ausência de qualquer penalização a Gabriel cuja violência não resultou numa perna partida a Olímpio por manifesta proteção divina. Para não falar naquele penalty inventado no Dragão e a expulsão de Addy contra o Benfica sem motivo para tal. Não discorro sobre o andebolizado jogo com o Porto para a Taça de Portugal porque tratarei do tema num destes dias mais adiante.

A invocação de conspirações é, regra geral, um argumento que serve para alimentar o ego dos fracos. Mas é impossível não perceber a existência de uma série de acontecimentos ao redor do Vitória que parecem estar corelacionados com o silêncio, a falta de voz, a ausência no areópago dissertativo. A serenidade e discrição que tanto têm servido para afastar o ruído e a cacofonia são, paradoxalmente, também a evidência de uma ausência de estratégia para as ramificações do futebol que se jogam fora do campo. Impõe-se uma mudança na perceção pública da imagem do Vitória, nomeadamente, é imperioso não descurar a presença do clube tanto nas instâncias do poder (que em Portugal também “jogam”) como no campo da comunicação e afirmação que ocorrem no espaço público. Deixar toda a despesa sobre as injustiças para Rui Vitória é um erro que pode desgastar a imagem e autoridade, degradando a legitimidade da sua palavra.

Esser Jorge Silva

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