Esser Jorge – Que não se quebre a corrente vitoriana!

Esser Jorge

Que não se quebre a corrente vitoriana!

Como se fosse uma espécie de praxe que atravessa os indivíduos e as organizações, no final de cada ano, um sentimento introspetivo toma conta de todos. No caso do Vitória impõe-se ainda mais essa análise porquanto, o seu estado de hoje, não era possível caber na melhor imaginação há ano e meio atrás.

Dizem os que se dizem muito sabedores do fenómeno futebolístico que o passado é uma estatística. Mas, também é certo, não há estatística sem atos e decisões, não há números sem estratégia, nem resultados sem trabalho. E, mais do que tudo o resto, não há glória sem risco. Quem experimentou o sabor da vitória após atos de abnegação e sofrimento, quem acreditou na possibilidade perante a improbabilidade estatística e chegou ao fim em primeiro lugar, sabe que essa é a suprema glória dos endeusados pelo suor, essa é a inspiração extraída da transpiração.

Estranhamente, apesar do abismo em frente, tudo isto foi conseguido a partir de um plano. Prata da casa, gente jovem e com nervo, resiliência da totalidade (do grupo de trabalho como soe dizer-se), comunicação verdadeira (assumindo a realidade como ele é, e não como se gostava que fosse), serenidade nas palavras, discurso humilde e realista, energias orientadas para o essencial e costas voltadas para o acessório. Um treinador pedagogo, bem formado, sabedor e inteligente. Aproveitamento de sinergias através do produto das escolas de formação, um maná anteriormente desaproveitado. Jogadores com vontade de correr, mas que também sabem discorrer uma ideia perante câmaras de televisão. Enfim, este foi o ano em que o Vitória Sport Club através de uma rutura com a tradição, afirmou, alto e bom som, que é possível fazer melhor, de maneira diferente, por caminhos por si desbravados, pelos vistos anteriormente desconhecidos.

Pode-se argumentar que a estratégia se impôs por si, isto é, a condição depauperada em que foi colocado o Vitória Sport Club impôs-se aos seus dirigentes e gestores. Mas, saber reconhecer a realidade, agindo nas suas tramas, é também um mérito e, encontrar as armas para gizar a estratégia que a bolsa vazia impunha, é mérito de Júlio Mendes e da sua equipa (neste particular, este escrevedor é absolutamente insuspeito de aqui o afirmar na medida em que já lho disse pessoalmente: “eu era dos que não acreditava em si”).  E foi assim que o ano que agora termina se configura com uma vertente bipolar para os vitorianos.

Primeiro o lado maior, a Taça de Portugal, finalmente ganha depois de outras cinco tentativas, após o que parecia ser a maldição vitoriana. Muitos anos se passarão e a jornada há-de ser contada de pai para filho, de avô para netos, de geração em geração como nosso dia inteiro e limpo, como disse Sophia de Melo Breyner das ocasiões únicas e transcendentes. Estou certo que nenhum vimaranense esquecerá a emoção daqueles últimos dez minutos de jogo naquela bela tarde de 26 de maio de 2013 no decrépito Estado Nacional no Vale do Jamor em Oeiras. Quem agora ouvir um desiludido speaker sussurrar os golos do Vitória no Youtube perceberá as lágrimas de raiva contida e dor na alma, ali vertidas pelos milhares vimaranenses. E ninguém irá esquecer o abraço do consórcio vitoriano desconhecido chegado de todos os lados.

Conto uma pequena história a mim acontecida na bancada: quando perdíamos por 1 a zero, no degrau acima, um velho conformava-se e discorria sobre o facto de termos ido até ali, à final, para si um feito. Enquanto isso, no degrau abaixo, um jovem de uns 16 anos levantava os braços e gritava a plenos pulmões, Vitória, Vitória vamos lá embora, pra frente. Este jovem e outros que tais, nunca se conformaram, nunca desistiram e formaram uma nervura intensa, revoltosa que haveria de resultar numa ebulição vulcânica, uma torrente de lava invisível que tomou conta daquele estádio nos últimos dez minutos. A certa altura o jovem desatou a chorar e, como a mãe não o segurava e o pai agarrava um outro rebento, agarrou-se a mim lamentando a injustiça da lenta passagem do tempo. Atrás de nós, o senhor de idade avançada perdia a compostura e deixava correr lágrimas sufocadas num silêncio comovente. Lágrimas e abraços, vindo de todos os lados, numa comoção libertadora acompanhou a entrega da Taça de Portugal ao Vitória Sport Club.

Chegamos ao lado menor da questão. O ano em que o Vitória inscreveu o seu nome na lista dos vencedores do trofeu mais popular do país coincide com o ano em que muitos adeptos deixaram de ir ao estádio. Tempos houve em que fábricas e comércio fechavam para “libertar” os seus trabalhadores para o estádio. Hoje, o resultado da frágil economia vimaranense cujo impacto obriga, cada vez mais, as famílias a pensarem nos seus atos e a medirem os seus gastos escorraça os adeptos vitorianos das bancadas. O elevado número de desempregados, há muito tempo atirados para esta estatística, começam a não vislumbrar saídas, a interiorizar um futuro de impossibilidades, a não ver horizonte, a desaparecer para as sombras dos estigmatizados, a esconder-se na escuridão da pobreza envergonhada.

Aquele jovem impertinente que atrás se alude, metáfora precisa da energia vital e do devir conquistador, está hoje obrigado a refrear o seu fulgor, derreado pelas forças adversas das circunstâncias. Mas o Vitória Sport Club de hoje, no momento em que está a passar do Cabo das Tormentas para o Cabo da Boa Esperança, tem obrigação de lançar uma mão aos seus membros, chamando-os para o seu estádio, mesmo que estes não tenham dinheiro para ali estar. A energia vital do clube vem dessa massa constantemente nervosa, dessa juventude que, a cada momento, renova as pulsões, mantém o fogo da paixão e funciona como a corrente de gerações. Que não se quebre a corrente.

Esser Jorge Silva

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