Esser Jorge Silva – A fábrica de vitorianos

Esser Jorge

A Fábrica de Vitorianos

Há muitas formas de produzir vitorianos. A mais conhecida é aquela do pai que, perante o rebentar das águas, passa pela Conservatória para dar nome ao filho e vai a correr, à sede do Vitória, fazer do rebento gente séria e com clube. Mas há outras maneiras de fabricar vitorianos. Resulta de pessoas desconhecidas, almas anónimas e insignificantes que passam ao lado da teia de grandiloquências que polulam por aí. São os Joões, os Maneis, os Quins, os Zecas, algumas Marias, umas tantas Conceições, o Zé da Superior e a sua Zefa (para homenagear uma antiga criação do Amadeu Portilha). Este articulista não rebentou para o mundo com as cores do Vitória. Mas fez-se homem provando a porção mágica que lhe foi sendo sorvida pelos druidas da terra. Como? Expliquemo-nos.

Em Agosto de 1975, nos meus primeiros dias de Portugal, um maralhal de crianças de Selho S.Lourenço, perguntou-me se eu era como o Jeremias. E, percebendo que eu não sabia nada da personagem, lá me explicaram quem era. Pela ausência de qualquer resposta concluíram que o interlocutor nada sabia do Jeremias. Mas, putos são putos, resolveram o problema da minha ignorância assumido que tendo eu chegado de África, obviamente conhecia o Eusébio. Como ouvira falar desse, disse que sim senhor “conhecia” Eusébio. Sem dar a perceber, tratei de saber quem era Jeremias, o que me foi explicado por um senhor muito humilde e doente chamado Acácio, homem muito austero cuja única extravagância consistia ser sócio do Vitória.

No ano seguinte já não havia Jeremias mas houve aquela famigerada final da Taça de Portugal contra o Boavista que António Garrido nos surripiou com todo o descaramento. Durante essa época, um sem número de selhenses tratou de me incutir o Vitória levando-me aos jogos no antigo Estádio Municipal. Recordo José Maria Sousa, o “Mico”, sempre de boné à Pedroto, um excelso vitoriano e aplicado treinador do Grupo Desportivo de Selho que tinha como objetivo de vida, conseguir que um jogador do Vitória um dia alinhasse pela equipa local. Dinho e Mundinho haviam de lhe realizar o sonho de José Maria alinhando certo dia pelo G.D.Selho num torneio aí organizado.

Mais tarde, já habitando o centro da cidade, pude conhecer uma série de gente épica do Vitória. De todos, mesmo considerando gente como José Maria Pedroto ou Tom Blanker (com quem privei e melhorei o inglês) é-me impossível esquecer Almiro, o irrequieto “jogador vadio”, que nessa altura, toda a equipa decente possuía. Sem dinheiro para comprar uma bola que seria rompida no terreno onde hoje pousa a bancada central do D.Afonso Henriques, Almiro estabelecera um acordo comigo e com os meus amigos e, quando a bola se desgastava, ele trataria de “falhar” um remate durante um treino e colocar uma bola fora do estádio. E assim, durante duas épocas, um naipe de putos puderam ter uma bola de “capão”, suprema glória infantil.

Poder-se-ia aqui falar de um sem número de recordações, como por exemplo, os porteiros do antigamente que fabricavam vitorianos virando as costas para, “distraidamente”, permitirem a entrada de quem não tinha ingresso. Ou dos anónimos que colocavam a mão do ombro do ganapo e diziam à entrada “é meu filho”. A grandeza do Vitória é feita destas minudências das relações e da afetividade que vai dando origem a memórias prensadas em cada um de nós. Espalhados pelo concelho, “Micos”, porteiros, ex-putos e anónimos com histórias de encantar, pequenos benfeitores e grandes amantes do doloroso sofrer, criam com atos indeléveis uma intricada malha que se impregna na pele.

Agora que exportamos pessoas, preocupa a perda que também estará a sofrer o Vitória com esta expulsão geral de portugueses do país. A redução de assistência, claramente visível nos jogos em casa, prova-o. Mas, estamos certos, os vitorianos que se vão, desempenharão o seu papel pelo mundo para onde forem levados. E, além, algures num ponto de um qualquer mapa, pode ser que esta sabedoria em fabricar vitorianos se estenda pelo mundo inteiro e nasçam outras formas de vitorianismo. No passado a cidade recebia estrangeiros para serem transformados em indígenas através do Vitória. Agora é preciso aprender a levar o Vitória para o estrangeiro. Pode ser que os próximos apaixonados do clube andem por lá…

Esser Jorge Silva

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