Esser Jorge Silva – As consequências da incerteza

Esta semana demos voz a Esser Jorge Silva. Leia o artigo…

@ Esser Jorge Silva

@ Esser Jorge Silva

As consequências da incerteza

Sim, há nove jogos que o Vitória Sport Club não ganha e isso está a levar os associados e simpatizantes à loucura. Não é normal, não acontece muitas vezes, não é desejável, dito de outra forma: dói no íntimo de nós, não estamos habituados e o criador nos livre de hábitos desses. Há os que apresentam hoje a pobreza como causa do momento incrível. Desde a dramática redução do plantel e do orçamento do club realizado em 2012 que os vitorianos voltaram a ter consideração pela palavra humildade. O recurso a jovens jogadores, a ausência de vedetas e nomes sonantes, inclusive a ausência de jogadores experientes trouxe de volta à existência vitoriana a noção escassez que desde sempre lhe subjaz a existência. E foi a partir dessa condição que o Vitória obteve uma das suas maiores páginas desportivas, vencendo a Taça de Portugal, um troféu que parecia nada querer com a vida vimaranense.

Creio expressar a generalidade dos sentimentos se afirmar que ninguém esperava uma época tão boa, resultados tão extraordinários tanto desportiva como financeiramente. A ida à Liga Europa surgiu assim como a cereja no topo do bolo, algo impensável no início da empreitada. O que contribuiu para isso? Uma clara afirmação programática, um insofismável discurso positivo, uma assertiva comunicação da realidade vitoriana resultaram num correr de riscos não só com adesão da maioria mas também coletivamente aceite. E assim sabendo, qualquer associado ou simpatizante conseguiu rever-se no apelo ao regresso aos tempos de apertar o cinto, do fazer das tripas coração, do esticar um cobertor que não cobria o espaço da cama. Na metáfora dos idosos, sai sempre uma metáfora para estas alturas: “já dividimos uma sardinha por três”.

Hoje, precisamente um ano passado sobre essa tarde magnífica no Jamor, vemos instalada na vida Vitoriana uma impensável descrença. Não é normal ser-se derrotado por tanta gente em tão pouco tempo, aliás, logo a seguir a um período em que se parecia ir conseguir replicar a época passada. De repente uma joia de treinador como Rui Vitória tem o nome lançado na lama. Jovens abnegados jogadores cuja capacidade de superação esteve sempre presente nos últimos dois anos parecem ser culpados de qualquer coisa. Assobios voltaram às bancadas. Mandar pessoas para o “caralho” em uníssono parece chique apesar da cobardia latente. Pontapear o carro de Júlio Mendes quando no papel de pai guardando a filha é de uma cobardia própria dos imbecis. Uma reação vestida de alguma violência, perguntas várias nos cafés, nas redes sociais e mesmo nalguma da pouca imprensa que resta no areópago vimaranense ocupa o espírito dos vitorianos.

O desnorte está a apoderar-se do clube outra vez. Ocupa hoje o espaço público a descrença e a ideia presente da falta de rumo. O desnorte sobressai sempre quando não há fio condutor, quando a meta existencial desapareceu, quando não há objetivo. Perdido o seu objeto, todo o grupo social pressente a ameaça da sua extinção e tende a provocar divisões no seu interior. No caso do Vitória é interessante notar que quando se consegue união entre as suas partes há sucesso e quando os pares se desentendem há fracassos imediatos.

É absolutamente claro que Júlio Mendes conseguiu unir as partes. Mesmo os que tinham dúvidas no seu projeto (e aqui segue a declaração de interesses deste escrevedor: ele não se revia projeto de Júlio Mendes) acabaram por compreender a sua praxis. Uma noção realística dos recursos, uma gestão ascética, navegando em águas tumultuosas das dívidas mas buscando o rigor da decisão, uma humildade discursiva, um caminhar seguro evitando areias movediças, deram aos Vitorianos o farol, sempre necessário quando se fala numa coletividade de emoções.

Mas há uma coincidência inevitável que marca a fronteira entre os bons tempos e o mau tempo no canal Vitoriano. Expressa-se numa clara correspondência entre o momento em que o Presidente da Direção do Vitória se deixou enredar numa putativa candidatura à presidência da Liga de Futebol Profissional e o desnorte Vitoriano. Note-se que não se pode considerar ilegítima a pretensão de ocupar aquele lugar. Todavia, foi pessimamente pensada a forma de enfrentar a comunicação deste desejo de Júlio Mendes. Ao contrário de todo o seu percurso, geralmente recortada por uma certa frieza que caracteriza a sua comunicação facial, numa penada transmitiu todos os sinais de incerteza à estrutura vitoriana. Argumenta-se que ir da presidência do Vitória para a presidência da Liga de Futebol é prestigiante para o clube mas esta é uma má avaliação. O território futebolístico veste emoção e, deste ponto de vista, para qualquer vitoriano que se preze, o Vitória está acima da Nossa Senhora de Fátima.

E, vivendo o clube tempo de afirmação mas ainda em estado de debilidade, o espectro do futuro incerto volta a ocupar os espíritos. É por isso urgente e imperativo que a massa uniforme que compõe os associados vitorianos deixe de estar entregue à ausência de notícias e continue possuída pela ambiguidade prolongando esta incerteza. A normalidade e o sentido da obrigação profissional levada ao limite que vinha caracterizando o Vitória tem que ser reposta. Para tal é necessário que se resolva imediatamente a questão do treinador Rui Vitória, uma pessoa educadíssima, um treinador competente, um pedagogo à medida das pretensões estratégicas da inclusão de jovens na equipa principal. Se estabeleçam os objetivos e o plano para lá chegar de forma clara e inequívoca. Se proceda a uma definição compreensível de uma estratégia sustentável.

É mesmo urgente que o faça porque, de outra forma, o Vitória voltará rapidamente aos dias de lodo que conheceu não vai há muito tempo. E, partindo-se do princípio que não é viável a cooptação de algum vice-presidente, que sejam marcadas as eleições o mais rápido possível. Há uns anos atrás, num jogo com a Académica em Coimbra, todos pudemos constatar a perceção dos adversários quando o Vitória se apresenta sem comando: nesse dia um bilhete passou, inexplicavelmente, em minutos e perante uns milhares de vimaranenses, de 10 para 50 euros. Estavam uns cinco mil Vitorianos na fila para comprar bilhete e esta foi uma ordem da direção da Académica de Coimbra. Valeu à data a intervenção do responsável da polícia local que obrigou a direção a Académica a abrir uma bancada ali alojando os vimaranenses gratuitamente. Um clube que desperta esta paixão é uma relíquia que qualquer outra região em Portugal desejaria ter. Notando-lhe falta de liderança, os nossos adversários, geralmente possuídos pela inveja da grandeza Vitoriana, espreitam sempre o momento destas autoflagelações que a família vimaranense se tem submetido nas últimas décadas.

Não se desperdice, portanto, tanto tempo e angústias, protelando decisões prementes e fundamentais não só para a vida do Vitória mas também para a própria identidade e noção de pertença dos vimaranenses. Não é possível, nos dias que correm, deixar de ser profissional e, sem qualquer receio de me enganar, me parece que o Vitória não tem sido profissional nesta última fase deste campeonato. Urge voltar à noção de orientação, rumo e objetivo. Colocar norte no azimute!

 Esser Jorge Silva 

  Categories: