Esser Jorge Silva – Contra a mecanização, viva a espontaneidade!

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Este ano o Vitória já venceu cinco vezes fora e apenas quatro em casa. O Rio Ave também já venceu mais vezes fora do que em casa. O Paços de Ferreira venceu duas vezes em casa e outras tantas fora. O Estoril é um caso sério de grandeza no terreno do adversário e uma natureza anã em casa: perdeu mais vezes em casa do que no terreno do adversário. Só o Arouca e o Olhanense amealham mais no seu território do que na casa do adversário onde nunca venceram. Talvez por isso mesmo estejam os dois em lugares de despromoção. A grande questão que aqui trazemos hoje é esta estranha forma de vida das equipas que parecem estar mais à vontade no campo alheio do que junto dos seus. Que fenómeno é este? Jogar em casa já não traz vantagens?

Pese embora o último empate a zero, gostei muito do jogo entre o Vitória Sport Club e o Gil Vicente. E confirmei o meu juízo no jogo contra o Sporting. Arrisco dizer que terão sido dos jogos do Vitória mais bem delineados que assisti nos últimos anos. Note-se que não escrevo “jogo bem conseguido” por alguma razão. Para que tal acontecesse teria de haver materialização em golos daquelas inúmeras oportunidades não concretizadas. Mas apreciei sobremaneiraas nuances do delinear do jogo, do fio ordeiro, da circulação redondinha, da paciência na procura do golo. Vi método nas esquematizações, isto para não falar da entrega ao jogo, aspeto totalmente ausente no jogo com o Paços de Ferreira. Gostei ainda mais porque finalmente vi o Vitória a jogar em casa, como se joga em casa: dominando o jogo, impondo regras, anulando o adversário, no fundo, jogando pela positiva.

Bem sei que a equipa vitoriana está em permanente construção desde há uns anos e, no futebol, como em tudo na vida, nada se constrói de um dia para o outro. Mas, o que nos difere das outras equipas, excetuando as que têm jornais diários ao seu serviço, é insistirmos que o jogo é acima de tudo um espetáculo e não exclusivamente um somatório de pontos. Neste aspeto, ter assistido ao futebol pensado, insistente e persistente alegrou-me. No matter. Tryagain. Fail again. Fail better (Falha,não importa. Tenta outra vez. Falha novamente. Falha melhor…) disse Samuel Beckett em hora de inspiração. É bem melhor ver uma equipa jogando bem e fazendo por isso, do que assistir àquele futebol musculado com ajuntamento de jogadores aos trambolhões na bola, não jogando nem saindo de cima.

É certo que ter uma abordagem ao jogo pela positiva configura risco. As equipas de futebol negativo não arriscam. Executam um processo repetitivo que consiste em esperar pelo adversário aproveitando depois um lance improvável para marcar. Época após época, este tipo de futebol está cada vez mais presente no principal escalão do futebol nacional. Quando se olha para o D.Afonso Henriques, questionamo-nos se a melhoria da qualidade do jogo não representaria mais adeptos assistindo aos jogos, mais vibração nas bancadas, mais cenário humano em vez do cimento gelado. Tudo pesado, é verdade também que o Vitória enquanto empresa tem de enveredar por algum pragmatismo porque o mundo não está para romantismos. Mas, chegado ao ponto em que o fantasma da descida de divisão já não assusta, é preciso descomplexar, libertar a mente agrilhoada e jogar bem não só para ganhar mas também e, essencialmente, para agradar.

Os jogadores de futebol são hoje indivíduos muito bem preparados técnica e fisicamente. Sabem também de tática futebolística. Conseguem compreender e executar com profissionalismo quase extremo aquilo que os treinadores lhes pedem. Atrás de si têm anos de formação e de rotinização. Perante determinado tipo de lance sabem à partida as hipóteses que o adversário pode usar. Conhecem o antídoto para a maior parte das situações tidas por possíveis. Preparam-se tendo em conta o ínfimo pormenor do jogo e das rotinas do adversário. Um jogador sabe para onde finta, como chuta, como corre, qual é a impulsão, a velocidade e os recursos do seu contraponto. Os futebolistas sabem tanto da sua profissão, percebem tanto do seu jogo que se nivelam quase todos pelo mesmo.

Onde está então o elemento desequilibrador de um jogo de futebol? Manuel Machado num congresso de treinadores de futebol usou uma alegoria com tanto de inusitado como de interessante: “falta o rapaz com a fisga no bolso”. Esta declaração já foi feita de outras formas. Há uns anos Jupp Heynckes lamentava-se pelo desaparecimento dos futebolistas autoformados, daqueles que aprendiam por si, descobriam por si e, também por si, inventavam o que ainda não fora inventado. Sucumbidos perante uma infinidade de ofertas no seu dia-a-dia, desapareceram os grupos que jogavam futebol informalmente. Há muito que não se vê jogar “os de cima contra os de baixo”, o bairro A contra o bairro B, a Quintã contra a Conceição, Santa Luzia contra a Rua D.João, os jovens do Sport Pegada e Benfica contra os jovens do S.Romão. Toda a aprendizagem traz agora trás de si uma explicação. Toda a invenção impõe imediatamente um antídoto. O futebol é das poucas artes em que todo o conhecimento produz a anulação dele próprio a uma grande velocidade. Com esta teoria, talvez fiquem explicados o excesso de empates.

Os atuais futebolistas em aprendizagem aprendem regras, normas, disciplina, obediência, assertividade. São eles os elementos que farão as equipas de amanhã. Entretanto, sempre que se pretende um jogador diferente apanha-se um avião para o Brasil, Argentina, Colômbia ou para os filões escondidos de diamantes africanos. Por ali ainda há aprendizagem do futebol livre, indisciplinado, vaidoso, romântico, improvável. Uns e outros dão futebolistas com diferentes variações: os primeiros podem estruturar a espinha dorsal das equipas e os segundos dão criatividade, surpresa e aleatoriedade. Mas, com raras exceções, o que se tem notado em Portugal é uma predileção das academias por uma formação que gradualmente vai expurgando a espontaneidade, trocando-a pela mecanização.

O seu historial demonstra que o Vitória costuma antecipar soluções. Talvez seja tempo de voltar a ter uma atitude própria, desligar-se do futebol musculado e resistente. Voltar a produzir espetáculo. O que se viu nos jogos com o Gil Vicente e o Sporting pode ser uma amostra de uma equipa capaz de possuir a bola durante muito tempo, circulá-la, disputá-la, apresentar soluções múltiplas, convocar à esquerda, mover-se à direita. E pode fazê-lo com várias soluções táticas, às vezes com um, outras vezes com dois pontas-de-lança, mas sempre pensando no espetáculo. Parece estranho porque num dos jogos empatámos e noutro fomos derrotados. Todavia, jogando assim, seguramente os resultados virão a seguir.

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