Esser Jorge Silva – Teorias de um treinador envergonhado

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Com sua licença, os verdadeiros treinadores de futebol, vou hoje travestir-me. Em geral este escrevedor não gosta de se colocar na posição do treinador de bancada e explanar planos e estratégias do género “se fosse comigo”. Tenho pelo trabalho de treinador de futebol uma secreta admiração que advém de um certo mistério que lhe encontro, às vezes como se estivesse perante um alquimista transformando banalidades em ouro e, outras tantas vezes, falhando desastradamente o golpe de mágica mil vezes ensaiado. Durante alguns anos tentei perceber o que era um bom treinador; como treinava, como falava, o que dizia, como motivava, como corrigia.

Na minha longa carreira de puto-penetra-no-estádio, tive oportunidade de ouvir Mário Wilson explicar ao filho mais novo (para sempre o Wilson, irmão da Ana Wilson) como fazer uma jogada com jeito, assistir a Mário Imbeloni explicando a Nivaldo como se jogava futebol em Portugal, “um negócio mais rápido e mais duro”, ouvir José Maria Pedroto corrigir detalhes e vícios de formação a alguns jogadores, melhorar o meu vernáculo com António Morais, um verdadeiro dicionário de escatologia futebolística, uma mente cheia de criatividade capaz de por a mãezinha de um jogador a fazer acrobacias extraordinárias com o corpo a todo o momento. A minha formação entre treinadores ainda conseguiu conviver com o silêncio de Raymond Goethals e o não menos falador Herman Stessl, acabando por ganhar em matéria de animação linguística com Marinho Peres e Paulo Autuori. Claro que também ouvi, com muita atenção e insistência Emídio Magalhães e Valdemar Custódio que não tinham culpa nenhuma da qualidade do artista. Talvez isso explique o facto do improvável jogador ter dado em empenhado escrevedor.

Apesar desta longa carreira de convivências entre sabedores do ofício, resiste em mim o encantamento pelo tutor do desenho das práticas dos futebolistas. Hoje as transições, os losangos, a pressão alta, o recuar estratégico, a posse e circulação da bola, expressões que ocupam as discussões futeboleiras não me seduzem. Continua todavia a prender-me a atenção a atitude dos futebolistas perante o jogo. Tomemos como exemplo o Vitória destes dois últimos anos. Por ser constituído por jogadores jovens e sem experiência começou-se por se lhes pedir “humildade”.

E assim, humildemente, entraram no jogo projetando uma imagem de aplicação, seriedade e abnegação de onde era impossível esconder a presença de uma certa noção de limitação imposta pelo destino. Esta modéstia tornou-se extensiva a todo o corpo vitoriano, sócios e adeptos inclusive contentando-se com a limitada realidade. Mas, a pouco e pouco, os jovens ganharam confiança e, amiúde, abandonavam a “humildade” para se darem a ares de algum atrevimento. Ao chegar ao estado de uma equipa capaz de agir sem altivez e sem submissão, o Vitória ganhou uma chama praticamente das cinzas.

Nesta viagem de superação das dificuldades foi notória a dificuldade dos jovens vitorianos em enfrentar equipas com algum estatuto na imprensa. Fruto da inexperiência, o peso desse estatuto manifestou-se em variados resultados. Não passou assim despercebido a ninguém a habituação que passou a pousar nos jogos com os alcunhados “grandes”. Abordagens receosas ao jogo, muito nervosismo, bola a queimar, passes errados, perdas infantis da bola, incapacidade de disputa do meio campo, recuo no terreno, tudo isto se tornou numa espécie de cultura da equipa que, todavia, mostrava uma outra faceta, totalmente diferente, logo a seguir, desde que a disputa se desse com uma outra coletividade considerada normal.

Aquela final da taça de Portugal já nos demonstrara uma clara revolução nas mentes jovens. Mas parecia que não voltávamos a ver uma atitude pouco respeitosa com essas equipas engrandecidas. Até que se deu este jogo com o Porto. Atente-se que, como era habitual, a abordagem começou com receios o que permitiu um avanço de dois golos aos portistas. Mas é verdade que, por vezes, o sentimento de perdido por um, perdido por mil, liberta os jogadores das malhas mentais da humildade levando-os a desinibirem-se numa atitude libertadora, uma espécie de arrogância saudável que faz emergir os talentos escondidos ou envergonhados.

O Vitória evoluiu nos últimos dois anos partindo de um ponto de humildade asceta em direção à matriz que os vimaranenses gostam na equipa: a arrogância na disputa. O empate no último jogo, algo lisonjeiro para os portistas, provou que os jogadores estão agora a experimentar essa noção de gosto pela irreverência. O taticismo da espera está a dar lugar à arrogância no avanço. No filme “Fuga para a Vitória” (Victory no original) de John Houdson (1981), quando treinador manda jogar com cuidados e caldos de galinha, Pelé pega no giz e, ziguezagueando pelo quadro, demonstra de forma decidida, que a tática não pode ser de contenção mas sim de invasão do terreno adversário. E é assim que no final os presos aliados vencem o inimigo alemão.

Faz todo os sentido guardar a memória daquela mensagem “Ó Vitória vamos a eles” que se cantou finalmente no Afonso Henriques. Creio que já não ouvia o cântico do apelo arrogante há uns dois anos. Também já não via esta atitude de confiança e de gosto pelo risco já tinha desaparecido das retinas. Ia aqui glosar que passamos do estado de “inconseguimento” para o estado de prazer no jogo da bola. Estou em crer que o Vitória estará apto para aventuras quando os seus jogadores estiverem despossuídos dos receios e do permanente apelo da humildade (que fora importante outrora mas que não pode perdurar). Ao contrário de muitos associados atribuo esta mutação ao trabalho formador e pedagógico do treinador Rui Vitória. Ter de “começar de novo” (como cantava Ivan Lins) com um naipe de gente muito jovem, mantendo presente o ânimo de “vai valer a pena” e não quebrar nas muitas dificuldades que o futuro oferecia, revelou uma faceta de coragem e risco poucas vezes vista em Portugal. Agora, é tempo de introduzir a noção de conquista no espírito guerreiro sabendo que o adversário, qualquer que ele seja, já não oferece nem segredos, nem artimanhas, nem superioridade, nem gigantismos. Gigantes, quando quisermos, somos nós.

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