Esser Jorge – Vitória é uma mulher

Esser Jorge

Vitória é uma mulher

E aos domingos à tarde, sem que fosse a obra de Fernando Namora, o rapaz passeava a rapariga pelo Toural, enlaçando-a pelos ombros; ela suportando o peso dos braços másculos dele em forçado descanso sobre o corpo fêmea, ele mantendo a outra mão encostada ao ouvido, absorto num quadro de quase silencioso dominado por um rumor sussurrado que às vezes até parecia uma lamúria amorosa. Por vezes, num uníssono o rumor sussurrado ocupava todo o Toural. Era golo do Vitória num qualquer campo adversário. O rapaz sorria de felicidade e até parecia que a intensidade dos amantes crescia nesse momento. E a rapariga vendo o moçoilo em êxtase, lá se dava a uns ares de contenteza, nem que tal fosse apenas para cumprir o seu papel de companheira compreensiva e obediente.

Às vezes, claro, o jogo era em casa e tudo mudava de figura. O Municipal enchia, mesmo o “peão”, um verdadeiro eufemismo visual para se ver um jogo. Lá estavam todos os rapazes agora misturados com os homens feitos, pais de família levando o rebento-rapaz, todos juntos naquele areópago de emoções fortes. Fosse na Central, na Bancada Lateral, na Superior, enfim, como diria a justiça no seu pior, o futebol era, de todo em todo, “a coutada do macho latino”. Fora do estádio, aguardando nos carros, nos bancos dos jardins ou sentadas nos pedaços de relva, as mulheres realizavam o seu destino, aguardando num silêncio interiorizado, à espera que o tempo se consumisse entre o matraquilhar de duas agulhas de croché e um novelo de linha. Às vezes, nesta ausência do macho, falavam entre si sobre as qualidades do “meu homem”, circunstância quase única engendrada para declarar a sua posse.
Não se passaram trinta anos sobre estas duas configurações do modo das mulheres vitorianas se realizarem. Podemos designar esta história como “as vitorianas”, na vertente da circunstância do ser obediente ao “senhor meu marido” que, largos anos, demasiados anos, ocupou a malha mental das nossas mulheres. E, valha a verdade, a palavra não dos trai, este era um tempo como o da Era Vitoriana (vivido em Inglaterra durante o reinado da rainha Vitória entre 1837 e 1901), uma sociedade caracterizada por moralismos e disciplina, preconceitos rígidos e proibições severas. No Vitória Sport Club de então, as senhoras valiam tanto como um menor, inclusive, não tinham direito de voto nas reuniões magnas. O argumento para que tal acontecesse era um verdadeiro eufemismo: pagando meia cota não podiam valer um voto, como se fosse possível a condição “meia mulher, meio voto”.

Para uma jovem da atualidade este quadro é aberrante, talvez impossível de imaginar, provavelmente tido como um delírio do escrevedor. A realidade de hoje é gostosamente diferente. Libertas daquela malha mental que as acometia a um lugar secundário da existência, as mulheres vimaranenses passaram a ter o Vitória muito perto do coração e, em poucos anos, tornaram-se numa grossa fatia do público que se apresenta no Afonso Henriques. Os números não enganam: o clube apresenta hoje cerca de 7000 sócias, sendo que aproximadamente 1.000 são jovens menores.

Trata-se de uma mudança radical da sociedade vimaranense que, apesar da longa tradição portuguesa na secundarização do papel da mulher, conseguiu em poucos anos uma transformação a todos os níveis impressionante. Quando me falam de um deficit do qual, dizem, somos todos culpados menos os bancos e as empresas de especulação financeiras que lhe deram origem, eu respondo-lhes com este verdadeiro superavit humano capaz de transformar as armadilhas mentais inculcadas gerações e gerações, realizado num curto espaço de tempo e após uma totalitária história de repressão.

Hoje num qualquer jogo, quando se percorre as bancadas com o olhar, é vê-las, produzidas e lindas, com gorros e cachecóis brancas e/ou pretas, umas vezes incentivando o “morcão” taciturno a apoiar a equipa, outras em grupos só “delas”, tipo “moçoilo não entra”, divertindo-se com as peripécias do jogo, glosando com a vizinhança, discutindo o drible, emocionando-se com os golos, às vezes, até lembrando ao árbitro que ele deve honrar a mãezinha, não prevaricando, nem deixando dúvidas sobre a sua honradez. E não se pense que são só mulheres jovens que ali se apresentam. As quase jovens também comparecem cada vez mais em força e determinadas na exigência de bom futebol, obviamente com beleza, aliás como elas.

Não é um exagero dizer-se que o Vitória afirma-se no feminino. Na mitologia romana Victória, filha de Palante e de Estinge, era a deusa responsável pela entrega do triunfo ao vencedor. Na correspondência grega tomava o nome de Nike (apropriada como marca comercial, eles é que nos deviam pagar!). Victória (ou Nike) era irmã de Cratos (poder) e Bia (força) e Zelo (rivalidade), aliados de Zéus no Olímpio. Na sua representação figurativa, Victória tem asas, alusão à proteção dada a Fidípides após correr os 42 quilômetros que separavam Maratona de Atenas para anunciar a vitória grega sobre os persas. Desde 1953 que existe em Guimarães uma estátua de Victória simbolizando a independência da autoria de Eduardo Tavares. Está colocada junto à fonte de Sequeira Braga, levada em 2011 do Toural para a Alameda Alfredo Pimenta.

“Vitória” é assim mais do que um clube. Não faz parte apenas da identidade vimaranense inscrita regularmente num passado de uma longa riqueza histórica. É também a expressão de um traço mitológico que casa a o poder, a força, a destreza, a resistência e a resiliência na disputa e se revê na proteção dos deuses da graça, da performance. E é mulher, sem dúvida alguma. Provavelmente, por isso mesmo, adorada por tantos vitorianos, que a amam tão profundamente.

Esser Jorge Silva

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