Jesus… O Último dos Ídolos da Rádio…

Lembro-me como se fosse ontem…

Não teria, ainda, seis anos, mas aquela época foi o meu encontro com uma causa que a partir daí me arregimentou…pela qual sempre dei e darei tudo!

Falo do Vitória… do meu, que também é vosso, o nosso Vitória!

E nesse ano, como nos sentíamos orgulhosos, meninos, no meu caso, ou mais velhos em possuírmos no coração, os Branquinhos..

Eram os tempos da rádio, do dealbar das históricas “rádios piratas”… em que construíamos mentalmente cada lance, mesmo sem os vermos… onde, locutores, que ainda hoje nos arrepiam ao gritar os golos da nossa imensa paixão, davam os primeiros passos!

E das “imagens faladas” desses homens, construíamos os mitos… e eu, que vivia em terra onde a maior parte tinha outros amores, sentia com redobrado ânimo quando dizia que marcava um golo à “Paulinho Cascavel”, fazia uma habilidade digna de “Ademir Alcântara”, tentava marcar um livre com a colocação e potência de “Roldão”, ou quando, nesses tempos, não muito contrariado, ia à baliza e procurava voar como o “Jesus”…

E digo, não muito contrariado, pois das grandes imagens dos jogos que nessa altura vi, e como já disse ouvi, é a do emblemático guardião do Vitória… logo, na minha inocência de menino era um orgulho poder imitar o homem, que segundo as rádios diziam, era quase como um milagreiro…  o homem que, qualquer locutor desportivo nos fazia acreditar ser capaz de voar ao Olimpo, para rapidamente descer com a bola agarrada ao coração – esse  traidor que o levou, cedo demais -, como querendo dizer que a amava tanto que jamais admitiria ser ludibriado por ela!

E como me lembro dessas imagens faladas… da grande penalidade defendida no Vicente Caldéron e que deu a carta de alforria ao Vitória na Europa… a bota de Jesus que serviu para desviar a bola das redes e o concomitante igualar da eliminatória deu-nos a ilusão de um Vitória incomensuravelmente grande… em amor, ilusão, mas também em decíbeis…nos que eu, em menino, lancei vendo que naquele momento, realmente, existia Deus… ainda, para mais, sob o manto de Jesus!

E essas imagens recriadas na minha mente, apesar de conhecer o homem fruto dos jogos que já ia vendo pela mão do meu pai no velhinho Municipal, fizeram que eu o “pintasse” diferente do que era”: alto, hercúleo, de cara fechada… impenetrável na alma, tal como tornava as balizas!

Mas, porém, tal realidade não poderia ser mais falsa… baixinho, sempre com expressão jovial, o Jesus era o que se podia dizer a antítese do guarda redes actual… mas quantas estiradas miraculosas fez? Quantos cruzamentos extinguiu?

Mas, acima de tudo, manteve em nós a ilusão do impossível… fez muitos vitorianos crer que com ele entre os postes, todos os sonhos seriam possíveis… e fez parte de uma inolvidável equipa que ainda hoje qualquer um de nós citará de cor…

E, essa no dia em que somos confrontados com a sua abrupta partida, terá sido a sua grande vitória… o direito a figurar eternamente nas nossas memórias e tal como fizeram connosco, um dia que contemos as estórias do nosso clube aos nossos filhos ou netos, arranjar um espaço para aquela equipa que nos fez sonhar e em que constava, talvez, o maior guardião da nossa história, sem desprimor para nomes como Machado, pai do actual treinador, Roldão, Rodrigues, Melo, Damas, Neno, Palatsi ou o actual Nilson… mas, estes que me desculpem, Jesus só houve um e foi o homem que trancou as redes de trinta mil branquinhos em Praga, em Madrid, em Groningen,em Tatabanya, em Beveren – onde defendeu, duas grandes penalidades no desempate através das mesmas -, e em tantos outros sítios onde a televisão não chegava, mas em que nos fazia felizes só por imaginar que com as nossas estiradas, almejavamos a um estatuto de potência europeia…

Assim sendo, crivados de dor, restar-nos-à, talvez, lembrar que o nosso guardião hoje, noutra dimensão, estará fazendo o que mais gostava…defendendo umas redes, sempre com o seu inseparável urso de peluche, amuleto símbolo de muitas vitórias…

Quanto a mim, a certeza que um dia quando fizer para a minha filha – esperando que herde os genes paternos e ame o futebol, já que o Vitória já estará no sangue- uma resenha de quem somos e quem fomos, o nome de Jesus lá aparecerá… como um dos últimos ídolos da era romântica do futebol, quando as televisões, ainda, não monopolizavam os sonhos…

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