Justo e Escasso…

Há determinadas crónicas difíceis de alinhavar, atendendo ao carácter intrincado do assunto… e quando a mesma se refere a um jogo de futebol, por vezes as linhas redigidas assumem verdadeiros foros de partida de ping pong, tais as carambolas e alterações que o jogo vai sofrendo ao longo do seu decorrer!
Porém, hoje num Afonso Henriques a roçar a meia casa, tal não sucedeu… e não sucedeu, devido ao facto de apenas uma equipa, desde o debutar da contenda, ter pretendido lograr o êxito, almejar três pontos que fizessem o seu manancial de confiança atingir níveis estratosféricos e acima de tudo ter a certeza que durante a próxima semana, pelo menos, continuaria a dormir no segundo lugar e simultaneamente assistir a hipotéticos tropeços dos putativos candidatos ao posto de vice-rei, sentado num confortável cadeirão. Essa equipa foi o Vitória!

Apresentando a mesma equipa e o mesmo desenho táctico que bateu o actual campeão nacional, cedo se viu que os branquinhos pretendiam não deixar qualquer dúvida acerca do desfecho do prélio… com Toscano e João Ribeiro verdadeiramente endiabrados, cedo o perigo começou a rondar as redes de Diego Gottardi, substituto do último alvo dos desmandos da SAD leiriense: o internacional sérvio, Andjelko Djuricic.

Assim, aos seis minutos, Edgar após excelente desmarcação do antigo extremo academista poderia ter destruído o verdadeiro bunker que parecia ser o eixo central da defensiva leiriense; porém, isolado o antigo internacional sub 20 canarinho não conseguiu repetir o êxito que teve na pretérita semana perante o espanhol Roberto.

Todavia, tal clamorosa perdida serviu para atiçar, ainda mais, os ânimos vitorianos que conseguiam confundir as marcações dos homens do Lis, que não obstante terem apostado num sistema táctico em tudo idêntico ao dos vitorianos – 4-4-2 losango – limitavam-se a correr atrás dos homens da cidade onde Portugal nasceu.
E nesse situacionismo, Toscano, logo de seguida, poderia ter aberto a contagem e possibilitado a visualização de um desafio completamente distinto… todavia, ao toque em habilidade do repentista vitoriano, respondeu o guardião leiriense com uma estirada que levou o esférico a sair rente ao poste, quando o Inferno branco já flamejava com a potencial abertura do activo por um dos novos meninos bonitos dos adeptos da melhor massa associativa do mundo.

O Vitória continuava a ser a equipa mandona do início do desafio, e haveria de sê-lo durante toda a primeira metade… porém, por um circunstancialismo ou outro o zénite do desporto-rei não surgiria! E mesmo, quando, parecia que tal haveria de suceder, o árbitro fez vista grossa a uma grande penalidade, transformando a grande penalidade cometida sobre João Ribeiro num livre lateral.

E assim chegou-se ao intervalo, com a certeza que o resultado era injusto e que tamanho domínio seria merecedor de redundar em golos… em alegria similar à vivida no jogo com o Benfica!
Apesar disso, o início da segunda metade, seria o pior período dos homens comandados por Manuel Machado!
Caixinha fez os seus homens subirem no terreno, adoptando um bloco alto de pressão que colocava dificuldades na primeira fase de transição ofensiva vitoriana.

Tal facto, obrigava os elementos encarregues do início da fase de construção a procurarem o mais rápido possível a cabeça de Edgar, levando a que de rendilhado e envolvente o futebol vitoriano buscasse a rectidão de processos, de modo a que o esférico não se perdesse num caminho enviesado constituído pelos jogadores oponentes.

Ora, tal aposta revelava-se condenada ao insucesso, já que os centrais leirienses demonstravam-se superiores ao ponta de lança brasileiro na pugna pelas bolas aéreas; deste modo, facilmente o esférico era recuperado e as oportunidades de golo dos branquinhos reduziam-se.

Todavia, se existe um treinador é para a partir do banco destrinçar qualquer problema… e verdade seja dita, se no ano passado Paulo Sérgio brindava-nos com um tom monocórdico nas substituições permitindo ao maior dos leigos, na maior parte das vezes adivinhá-las, o Professor faz juz ao epípeto.
Assim, as suas apostas nas alterações enredilharam os leirienses numa teia que lhes seria fatal… ipso modo se ao intervalo a troca de João Alves por Rui Miguel foi óbvia, atendendo ao que o flaviense (não) jogou, as duas seguintes demonstram a sua argúcia táctica e que, efectivamente, no banco vencem-se prélios… mesmo a mais empedernida das batalhas!
Para se entender tal manancial de encómios atente-se e analise-se as mesmas.
Assim, a primeira delas consistiu na entrada de Bruno Pereirinha, retirando do jogo o homem mais adiantado, Edgar.

Ora, como já referimos, o Vitória por estas alturas caía na excessiva tentação de requisitar o jogo aéreo de brasileiro. Retirando-o, Machado procurava estancar um sistema de jogo que não estava a render qualquer lucro. Ademais, em vez de um avançado estático e posicional procurava um que causasse turbulência na área contrária, arrancando de trás com a bola controlada. Sabendo da reconhecida lentidão dos stoppers adversários apostava na possibilidade do 90 vimaranense embalar… e tal facto era conducente ao último acto da mise-en-scéne preparada para fazer iludir Caixinha.

Tal acto, verdadeiro epílogo da representação, consistiria na entrada de Maranhão para o lugar de João Ribeiro, que apesar de batalhador esteve uns furos abaixo do que fez perante os lisboetas.
Era a verdadeira aposta na turbulência e na velocidade… se Edgar havia desgastado, o Fórmula 1 Maranhão haveria de recolher os lucros… se a defensiva adversário demonstrava o seu conforto perante o status-quo modorrento em que o jogo se houvera tornado, tal facto era já uma doce recordação à primeira arrancada do veloz brasileiro, uma espécie de bip-bip mas, ainda, mais rápido… um fundista que em excesso permanente de velocidade é candidato a destruir qualquer defesa, a humilhar um fatigado central!

E se as fichas foram assim jogadas, deu jackpot… depois de muito porfiar, aos setenta e um minutos numa transição rápida, Toscano abriu na direita para Rui Miguel que centrou para o Ferrari vitoriano empurrar perante um indefeso Gottardi…tardio, justo e um imenso clamor de alívio no estádio mais branco do país!
Faltavam, ainda, vinte minutos… o Leiria haveria de empertigar-se e num cabeceamento o gelo ameaçou tomar conta do inferno… porém, desta vez, os deuses, que por vezes gostam de pregar partidas e são injustos, resolveram que quem tudo fez para vencer não mereceria ser desfeiteado e a bola sairia ao lado!

E com Rui Miguel, do meio da rua, a proporcionar ao guardião brasileiro a defesa da noite, o jogo terminaria, com a certeza que o Vitória possui inúmeras soluções para fazer frente a todos os problemas… e quando no banco se encontra um homem capaz de potenciar esses recursos, o caso é sério… muito sério, para felicidade e para os recursos oníricos de todos os vitorianos…Oxalá, assim seja!