Luís Cirilo – O Negócio

Cirilo

O NEGÓCIO

Um dos principais factores para o sucesso de um negócio, qualquer negócio, é a credibilidade de que o mesmo se revista para todos os que nele se envolvem.

De há umas décadas a esta parte o futebol deixou de ser apenas um desporto e passou a ser, também ele, um negócio que no mundo inteiro movimenta somas colossais em todas as suas componentes.

Salários, prémios, transferências, apostas, publicidade, televisão, merchandising e por aí fora.

Daí o ter-se passado a chamar, a partir de certa altura, ao futebol a “indústria do futebol” face a todo esse negócio que em torno dele gira e que sendo factor do seu sucesso é também uma das ameaças à sua subsistência enquanto espectáculo minimamente desportivo.

Em Portugal, porque é isso que nos interessa, o futebol tem cada vez menos credibilidade face a todo o negócio que em volta dele se desenrola e que o condiciona de forma absolutamente anti desportiva para não lhe chamar bem pior.

Desde logo porque existe uma ditadura dos chamados “grandes”.

Ditadura televisiva, ditadura nos jornais e rádios, ditadura na publicidade que por força dos dois factores anteriores é maioritariamente encaminhada para três clubes com brutais prejuízos de todos os outros.

Depois essa ditadura alastra a outros factores já desportivos.

Das arbitragens á disciplina.

Em que para casos de gravidade semelhante se assiste a penas bem diferentes consoante a cor das camisolas.

Máxima tolerância para vermelho, azul e verde (por esta ordem) e máximo rigor para todos os outros em especial se um dos outros for o Vitória Sport Clube que em matérias de disciplina leva sempre pela medida máxima e até penas a “estrear” como vimos na época passada.

E isto distorce a verdade dos campeonatos.

Porque quando vemos um jogador como Addy ser expulso contra o Benfica por uma falta que não fez e que se sucedeu a um amarelo forçado e do outro lado está um dos maiores (senão o maior mesmo) “caceteiros” do campeonato chamado Maxi Pereira que só ao fim de 162 jogos da Liga (!!!) foi expulso pela primeira vez todos percebemos que há dois pesos e duas medidas.

Ou quando assistimos ao rigor com que fomos punidos pelos incidentes no jogo da equipa B com aquela agremiação de Trás Morreira, incidentes da total responsabilidade da meia dúzia de adeptos desse clube, e à tolerância que existe para mil e uma tropelias de claques do Benfica e Porto entendemos que uns são “filhos” e outros “enteados”.

O que se reflecte depois noutros factores como por exemplo a severidade com que os nossos adeptos são tratados enquanto aos outros (do trio entenda-se) tudo é permitido dos petardos às tochas, dos apedrejamentos ao obrigarem adeptos adversários a terem de se refugiar atras de uma baliza.

O futebol português perde credibilidade todos os dias.

Porque todos os dias os adeptos se apercebem que as regras não são iguais para todos, que o tratamento jornalístico tem “cor”, que as instâncias que comandam têm “preferências”.

Eu sou daqueles que lamenta que as assistências no nosso estádio já não sejam o que eram.

Há factores vários, da crise económica à emigração jovem, que o explicam.

Mas mesmo assim é um verdadeiro milagre de vitorianismo que ainda vá tanta gente ver um espectáculo que está “viciado” pelo “sistema” e desacreditado pelas diferenças entre clubes que deviam merecer um tratamento de absoluta igualdade mas não o tem.

Mas, lá está, o vitorianismo é um fenómeno sem paralelo no nosso desporto.

E isso dá-nos a força necessária para continuarmos a combater por um futebol mais verdadeiro, mais igual, mais credível.

Porque ao contrário de outros, cuja luta é apenas para não serem menos beneficiados do que o rival, nós apenas queremos não ser prejudicados.

Não me parece que seja pedir muito!

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