Não é Vitória quem quer!

Hoje, deixamos-lhe aqui um artigo de opinião de Fernando André Gonçalves.

Sem Título

@ AVS – Opinião

Os passos fazem-se trôpegos, desalinhados de pensamentos e desligados de qualquer vontade, enquanto palmilho esta rua. Hoje, parece-me mais inclinada e pequena, vertiginosa nos movimentos pesados das pernas, na respiração ofegante que me abandona os pulmões desenhando nuvens espessas de álcool e alcatrão. Guardo dentro do peito um peso bem maior do que o corpo, tenho a memória desta rua vazia enquanto criança, enquanto a percorria nos dois sentidos como se fosse plana, como se não fosse rua sequer. Era apenas um trajecto que, nos dias da semana, com os cadernos debaixo dos braços, me levava à escola primária das piscinas, mais tarde ao ciclo João de Meira, e por fim ao Liceu. Mas, no tempo sempre igual das manhãs do fim-de-semana, com uma bola debaixo do braço, com a camisola do Vitória vestida, levava-me a onde bem quisesse.

Recordo uma dessas manhãs de “futeboladas” improvisadas. Relembro que, nas condicionantes rigorosas da escolha das equipas, quem tinha uma camisola do Vitória jogava a ponta de lança – era, instantaneamente, uma subida na hierarquia – ,e caso tivesse um cabelo à Paulinho Cascavel, então era um craque com méritos reconhecidos. Mas, por outro lado, também aumentava a responsabilidade. Não posso jurar, mas acho que – se bem que de forma inconsciente – todos procuravam passar a bola a quem albergasse a camisola do Vitória, para que cada golo fosse verdadeiramente festejado com amontoados de corpos, uns em cima dos outros, que gritavam Vitória e gritavam golo, contudo, a cada passe falhado, a cada golo falhado, a pressão aumentava: – “Oh maior! Vê-la se não queres ficar sem camisola!” – Apregoava quem estivesse a ver. Ou então: -“ Vou-te largar em Marrocos, lá és um Maradona.”

Retenho uma recordação de um desses jogos em plena Praça da Oliveira. Deveria ter dez ou onze anos, e jogávamos contra pessoal bem mais velho de dezoitos, dezanoves, ou até vintes. De um lado, o arco do Padrão do Salado limitava uma baliza e, no extremo oposto, uma das arcadas desenhava a outra. Era um campo inclinado e torto mas isso não interessava a ninguém. O jogo começou e acho que devo ter falhado uns quantos passes e uns quantos remates, porque, passado uns minutos, fui eu que fui para a baliza. E é apenas disto que recordo com exatidão, enquanto olhava para cima, para os lados, medindo distâncias entre a pedra das colunas e a minha cabeça, pensei: “Enquanto aqui estiver, não há bola que entre!”. No primeiro remate, levei uma bolada nas fuças que fiquei a sangrar do nariz, mas a bola não entrou. Isso é que importava. Tinha a honra intacta, o castelo defendido. A seguir foi um corridinho de golos sofridos, lembro-me de ir buscar umas quantas bolas à Praça de Santiago, e não sei por quantos perdemos, mas saí dali com o orgulho intocável. Aliás, a camisola do Vitória suja com sangue, era símbolo disso mesmo.

Nesse dia cheguei a casa já perto da hora do almoço. Sabia que, quando tinha alguma coisa a esconder, o meu pai apanhava-me sempre – conhecia-me melhor que eu mesmo -, e, por isso, não me surpreendi quando nos cruzámos nas escadas.

– O que se passou? Tens a camisola cheia de sangue.
– Foi a defender uma bola. – Digo-lhe com o peito cheio de ar.
Só lhe ouvi o silêncio da compreensão.
– Não é Vitória quem quer. – Disse-me, largando as palavras no ar como camuflagem de um sorriso tímido – um sorriso que, ainda hoje, nas recordações que me assolam enquanto subo esta rua, se continua a desenhar em orgulho.

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