Não existem Vitorianos sozinhos!

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@ Não existem Vitorianos sozinhos!

É um facto: não existem Vitorianos sozinhos!

É uma lei da física que deveria ser lecionada, desde tenra idade, pelas instâncias primárias deste país.
Aliás, sempre desconfiei do Newton, se levasse com a espada do Afonso em vez da maçã, garanto-vos que a coisa não seria a mesma e, como sabemos, está provado que, hoje, as espadas caem como frutos maduros!

Digo-vos que guardo dentro do peito seres que gritam, seres que me extravasam a pele, que gritam com uma voz, que não minha, outra, a cada pontapé, a cada empurrão, seres que rasgam a camisola e se tatuam no olhar orgulhoso de quem vê, de quem se regozija com o uniforme do Rei suado.

Depois de um jogo, com os pulmões a arfar, cansados, com a camisola suja da batalha, não do sangue de outros tempos, mas de terra, de relva colada ao esforço da bravura, das quedas e dos gritos, dos pontapés e das cabeçadas, uma coragem que guarda uma força bem maior do que um ser, uma força bem maior do que mil homens, do que mil tempos.

Deve ser por isso que não existem Vitorianos sozinhos. Porque cada batalha é travada com o singular sentimento que nos une, um sentimento que não se explica, Sente-se!

Nestes primeiros jogos cresce um orgulho subjacente a uma equipa de miúdos, há um paternalismo de quem se orgulha dos pequenos que, pelo trabalho, pela entrega, dão lições aos marmanjões cheios de vícios, cheios de tiques subservientes a uma comunicação social lapidada às mãos calejadas da masturbação dos clubes que se dizem grandes.

Por isso conto-vos um trecho decorrido num pequeno café, longe de Guimarães, que podia ser outro qualquer, mas que o destino me conduziu pelo sussurro nefasto, monótono, dos comentários de um jogo televisivo.

Depois das cervejas emborcadas, acompanhadas não por tremoços porque essas iguarias não existem, mas por batatas fritas de pacote que é o que se arranja, e com o nervo do sangue, o nervo da espada timbrada junto do peito, festejo o apito final, festejo a receita de três tentos marcados como se fosse normal dada a mestria dos miúdos, e, levantando o copo de cerveja acima da cabeça, brindando sozinho como se fosse possível, escuto:
– És de Guimarães.- Perguntam desde o fundo café.
Hesito – E pode-se ser de outro lado? – Respondo com a voz característica de Guimarães como quem diz: Vamos lá ver se queres ficar a cagar dentes durante 15 dias.
– Oh, se faz favor! Mais uma cerveja para aquele senhor, sou eu que pago. – Respondem-me.
Outros brindes. Outras cervejas emborcadas. Outros tempos. Outros homens. O mesmo sentimento.

É como vos digo, confirmem se não acreditam, não existem Vitorianos sozinhos!

 

Texto: André Gonçalves (retirado do Fórum da AVS)

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