O CÓDIGO MACHADÊS…

Quer se admire o estilo, quer se abomine, a verdade é que Manuel Machado jamais deixará alguém indiferente.
Assim se falarmos na sua elaborada capacidade de articulação de discurso, ou nos seus conhecimentos tácticos, teremos de o considerar sempre como um dos melhores treinadores nacionais e a quem, acima de tudo, deve ser assacado o mérito de o Vitória, por estes dias, ir efectuando um campeonato muito razoável… já que a direcção é a mesma do ano passado, com iguais virtudes e com os mesmos defeitos!
Ora, deste modo, e apesar de errar ser fruto da natureza humana, o treinador vitoriano tem sabido disfarçar os erros dos outros, com a mestria do seu trabalho sério, dedicado, conseguindo tornar a amálgama de jogadores que chegaram no início da época, numa verdadeira (ou aproximado disso) equipa!
Mas, relembrando essa ipseidade da natureza humana, poderemos dizer que, ontem em Braga, na estreia do novo ano, o treinador vimaranense deixou-se contagiar pelo estado de apatia e inércia que reina em quem deve mandar.
Começaremos por partes, tentando descodificar o comportamento de um treinador que, fruto da sua postura ponderada, jamais dará ponta sem nó, ainda que, como demonstraremos, com diversos erros de análise.

ANTES DO JOGO

As afirmações de Manuel Machado no período que antecedeu a realização do desafio demonstraram a escassa importância que, supostamente, atribuía à competição.
Naturalmente, que a dita Bwin Cup é uma competição menor… que serve para alimentar a voracidade dos ditos clubes grandes ávidos de lucros e títulos… que a sua calendarização é ridícula… mas, haverá algum vitoriano que enjeite a possibilidade de bater o Braga?
Ademais, sabendo que o Nacional houvera batido o Porto e que, hipoteticamente, o Vitória defrontaria nas meias-finais os madeirenses, não teria sido mais óbvio fazer uma inflexão no discurso e assumir que o jogo de ontem, ao invés de mero treino, era a chave para atingir a final da competição?
Com tal atitude, Machado absorveu um dos principais estereótipos do clube, por estes tempos: uma gritante falta de ambição e a incapacidade de projectar um futuro sorridente…

O JOGO

No desafio, o treinador vitoriano, até à primeira substituição de Flávio Meireles pelo estreante Jorge Ribeiro, foi pouco mais de imperceptível, incompreensível nos seus desígnios.
Adoptando um esquema inicial de 4*2*3*1 fez tábua rasa das debilidades da equipa, indo totalmente ao arrepio das declarações que houvera produzido na transacta semana a um desportivo local.
Efectivamente, a colocação simultânea de dois trincos como Flávio e Cléber foi conducente a um dos piores períodos de jogo que há memória na história recente vitoriana. Na verdade, se a ideia era encaixar no sistema táctico adversário, esse jogo de intenções fracassou rotundamente, atento ao facto da pouca capacidade dos dois médios em apoiarem os homens da frente.
Efectivamente, se o rival apostava em Hugo Viana para apoiar Mossoró e cobrir o espaço por ele deixado quando deambulava para uma das faixas laterais – principalmente a esquerda do seu ataque -, no Vitória a incapacidade destes dois homens juntarem-se aos elementos que actuavam na entrelinha (meio campo/ataque) suscitou que estivéssemos quase a observar um episódio da série Lost… já que Maranhão, João Ribeiro e Toscano nunca tiveram o apoio dos homens das linhas atrasadas e ficaram num espaço que quase poderia ser visto como uma verdadeira ilha deserta.
Num tempo em que se procura rebater a ideia dos trincos do ferrolho, em detrimento do denominado pivot defensivo, o treinador vitoriano não apostou num jogador com essas características… foram, logo, dois trincos!
Com a sua incapacidade de serem elos de ligação com os elementos desequilibradores, a que se juntava a pressão alta do rival, a única solução foi a opção pelo jogo directo praticado quer pelo próprio guarda redes Nilson, quer por um dos centrais, o que como é óbvio foi conducente a inúmeros pontapés para bancada e um futebol completamente desarticulado. A juntar a esta asserção, registe-se o malogro na aposta num bloco médio (o tal constituído pelos trincos) muito recuado e quase encostado aos centrais. Ora se carecem de velocidade, se tecnicamente são limitados, se estavam a jogar quase encostados aos centrais, como haveriam de ter possibilidades, de aquando da recuperação da bola, começar a gizar alguma jogada colectiva? Jamais!
Aliás, o treinador vitoriano cedo deu conta do erro e emendou a mão, tendo em conta os recursos disponíveis… a entrada de Jorge Ribeiro permitiu que a equipa se organizasse melhor em campo, voltando a adoptar uma estrutura mais equilibrada, já que a melhor capacidade técnica do lisboeta permitia que a equipa saísse em organização desde o seu bloco mais recuado, num processo de transição baseado na posse de bola e mais consentâneo com o produzido até ao dia de ontem.
Seria, aliás, com a sua entrada que cessariam os pontapés sem nexo para a frente de ataque, onde os quatro homens mais adiantados, jamais teriam apoio para construir lances ofensivos, como já referimos, anteriormente.
Porém, mesmo com a entrada de Jorge Ribeiro, o futebol vitoriano viveu e irá continuar a viver a sofrer de uma tremenda crise de identidade ofensiva. Sem querer considerar Toscano um mau executante – que já provou que não é –, a verdade é que não poderá jamais desempenhar o papel que Nuno Assis desempenhava na equipa.
Desde logo por ser um transportador de jogo e não um fio condutor.
Na verdade, enquanto o Rato Genial, fruto da incapacidade colectiva, via-se na contingência em recuar quase até aos centrais, para a partir daí pegando na batuta desenhar os movimentos atacantes, o brasileiro, quando o fez, no desafio de ontem e em outros, atendendo às suas características, era quase de imediato desarmado, o que, também, explicou os pontapés para a frente dos elementos mais recuados.
Na verdade, Toscano poderá ser um jogador útil ao Vitória, mas se foi contratado para ser organizador de jogo, foi um tremendo erro de casting e um desperdício de dinheiro. Todavia, a sua utilização, como elemento mais avançado, em desafios em que o contra-ataque seja a opção prioritária, dá a entender que pode ser coroada com algum êxito.
Além de todos estes malogros, realce-se a incapacidade de Maranhão e João Ribeiro assumirem, ontem, um papel relevante quer em situações ofensivas de 1*1, quer nos apoio aos defesas laterais. E se o brasileiro até se entende, fruto vir de uma lesão e estar a ganhar ritmo, continua-se sem entender o errante comportamento do extremo vindo da Académica… que tudo prometia e nada tem concretizado!
No tocante à análise ao desempenho dos extremos, é imperceptível a contínua aposta em Faouzi… o marroquino já provou estar muito verdinho, como se viu ontem, e se houvera visto em Aveiro, mas, talvez fruto do golo apontado ao Porto, continua a ter crédito junto do treinador…
Aliás, a aposta no marroquino demonstra alguma incoerência… então se o jogo de ontem era para os atletas ganharem ritmo competitivo, se o extremo está a lucrar com o seu momento de glória, porque não ter apostado em Targino que viveu um momento, ainda, mais sublime em Alvalade e precisa de minutos nas pernas para voltar ao que já foi?
Ainda para mais quando é um jogador com mais mercado – e sabe-se o quanto isso, por estes dias, é importante em Guimarães -, e das suas entradas resulta sempre um empolgamento da equipa e até da massa adepta!
Com tantos equívocos, era quase impossível retirar algo de positivo de um jogo em que o árbitro Duarte Gomes foi o protagonista principal.

PÓS JOGO

Duarte Gomes prejudicou o Vitória… e isso é ponto assente!
Admitindo que o golo de Toscano é, realmente, fora de jogo, teremos de lembrar, também, que a grande penalidade de Bruno Teles é discutível, atendendo onde se encontra o jogador e a parte do corpo com que toca a bola e os dois golos adversários, são, também, fruto de situações de off-side.
Ademais, a expulsão de Jorge Ribeiro pode ser forçada, já que parece não haver dolo na prática do acto, sendo que quanto à de Freire desconhece-se o teor das suas palavras. Mas, refira-se, que a decisão da expulsão do médio, só é tomada após pressão do sector de adeptos afecto ao clube da casa e já por aí suscita dúvidas… o apitar de ouvido na sua máxima essência!
Porém, Manuel Machado não referiu nada disto… ou melhor referiu, dizendo que os golos em fora de jogo equivaleram-se e as expulsões poderiam ter sido justas.
Não obstante, tais palavras possuíam um claro segundo significado e uma mensagem muito explícita para quem manda no Vitória e que se prendia com a inércia que a Direcção tem patenteado na defesa dos interesses do clube.
No Sporting, apesar da vitória, o treinador lembrou os erros escabrosos dos árbitros e não teve o acompanhamento de quem manda…
No desafio perante o Braga, para o campeonato, teve de ser ele a defender o clube das críticas de António Salvador, ao invés do Presidente da direcção que nada disse, fazendo de conta que nada se houvera passado…
Na Madeira, quando actuou frente ao Marítimo, o treinador insurgiu-se contra o juiz… da direcção nem uma palavra de apoio teve!
Após tantas e tantas diferenças de comportamento, o treinador percebeu que não tem a retaguarda que os demais possuem… se Domingos, Jorge Jesus ou Villas-Boas quando se queixam de terem sido prejudicados sabem que têm um suporte directivo para os defenderem e comprovar a veracidade das suas críticas, em Guimarães o treinador tem ficado a falar sozinho, como se os elementos que deviam dar força à sua cruzada se desmarcassem das suas responsabilidades! E Machado é treinador de futebol, é pago para orientar tacticamente e tecnicamente a equipa, e não para reclamar respeito para a equipa… esse trabalho deve ser de outros, que, infelizmente, não o têm feito!

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