O sonho do Júlio…

O ÁLB’oon inicia hoje uma parceria com a Associação Vitória Sempre.

Esta parceria consiste na publicação de cartoons da autoria de Miguel Salazar, e de textos humorísticos de José Rialto. O painel de Cronistas da AVS está assim, alargado. Miguel Salazar com os seus belos desenhos e José Rialto juntam-se a Luís Cirilo, Esser Jorge e Ricardo Gonçalves.

As publicações não terão, no entanto, uma periodicidade regular, surgindo apenas quando se considerar oportuno.

Não lhe fazemos perder mais tempo…

@ Cartoon de Miguel Salazar

@ Cartoon de Miguel Salazar

O sonho do Júlio…

 Júlio assistia, com muito interesse, a um jogo das modalidades, quando subitamente adormeceu. Esta é a história do sonho que teve nessa altura…

À entrada do Céu, mesmo junto às portas do Paraíso…

– Ó meu amigo, ouça lá, você sabe onde fica o Paraíso?
– Bom dia também para ti, meu irmão. O Paraíso fica para além destas portas.
– Boa! Então chegue-se para lá e deixe-me passar, que estou com pressa.
– Calma, meu irmão. Eu sou Pedro, o Guardião das portas do Paraíso. E tu, quem és? E o que te traz por aqui?
– Chamo-me Júlio, e venho reclamar aquilo que é meu por direito.
– E vens de tronco nu? Talvez com um pouco mais de decoro…
– Tirei a camisola porque não quero que os meus amigos Presidentes pensem que ainda tenho alguma ligação ao clube em que eu mandava.
– Julgas então que já és merecedor de entrar no Paraíso?
– Claro que sim! Fiz muitas boas-acções. Demais até. Salvei a vida a um moribundo, e cumpri os ensinamentos do Pai, dando a outra face àqueles que me bateram e perdoando aqueles que me ofenderam.
– Ai sim?…
– O clube em que eu mandava, estava na miséria, moribundo, e eu salvei-o da morte certa.
– Muito bem!
– O meu querido amigo e vizinho António, esbofeteou-me um sem-número de vezes, e eu sempre dei a outra face. Está a ver a minha cara, cheia de marcas?
– Realmente. Estou a ver…
– Quando o meu grande amigo Bruno insinuou que eu só me movia por interesses pessoais, eu ignorei as suas ofensas. Quando o meu querido amigo Carlos disse que eu era um “pau-mandado”, perdoei-lhe sem esperar que se retractasse. E quando o meu queridíssimo amigo Luís me chamou “caloteiro”, também o perdoei, ainda que ele nunca tenha chegado a mostrar qualquer arrependimento.
– Muito bem, meu irmão. Julgo que ganhaste o teu direito de entrar no Paraíso, mas que mais pretendes tu ainda reclamar?…
– O que pretendo eu? Reclamar o direito a um cadeirão. Já fiz muito para o merecer. Estava a pensar no da Liga…
– O da Liga deve estar mesmo, mesmo a vagar.
– E aquele grandalhão ali, é de quem?
– Aquele é o do Pai, mas esse está, como sempre esteve, ocupado pelo Pai.
– Bem… para já, o da Liga chega…

E assim, Júlio sentou-se finalmente à direita do Pai, não conseguindo evitar lançar um último olhar, enigmático… para o cadeirão grandalhão à sua esquerda… 

Ainda estava Júlio com um sorriso de enorme felicidade, quando foi arrancado ao seu sonho dourado, por uma voz que se tornava cada vez mais alta…

– …Então, Presidente? Não sabia que falava a dormir…

Foi como se tivesse sido atingido por um raio. O sorriso desapareceu, e o sangue sumiu-se-lhe da face. Júlio ficou mais branco do que as camisolas do Vitória. Já com a voz trémula, e quase em pânico, perguntou…

– E… o que é que eu disse?…
– Calma, Presidente. Não disse nada. Estava a brincar consigo…

Texto de José Rialto

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