O Vitória 11/12 – Análise Táctica

Dos primeiros jogos vitorianos uma ideia sai reluzente…Manuel Machado, ao invés do ano anterior, terá em mente apostar num sistema táctico de 4-2-3-1 em detrimento do iniciado no debutar na época passada que era um 4-4-2 losango.

Porém, tal aposta,apesar de teoricamente ser baseada em princípios sólidos prometerá acender uma árdua pugna para os lugares do meio campo, atendendo à quantidade e qualidade – e, ainda mais agora com a chegada de Pedro Mendes – dos jogadores para aquela posição, à que acresce a (desnecessária) adapatação do marroquino El Adoua à posição de volante defensivo.

Na verdade, ontem, ficou claro que Machado, também fruto das várias lesões existentes nas partes laterais defensivas já terá o quarteto mais recuado definido para a estreia europeia. O mesmo não deverá andar muito longe da aposta em João Alves a lateral direito – devido às lesões de Alex e de Tony -, de Anderson Santana no lado esquerdo e a dupla de centrais deverá ser constituída por João Paulo, talvez o único verdadeiramente indiscutível dos centrais, e N´Diaye, que, também, acarreta em si a necessidade de ser titular para aprimorar as suas qualidades, mas acima de tudo para continuar nas montras dos hipotéticos vendáveis, mesmo que seja em Janeiro.

E estes interesses economicistas são conducentes ao primeiro dilema e ao primeiro problema com que Manuel Machado se tem deparado. E esse problema, tem um nome: El Adoua. Com efeito, o técnico vimaranense já entendeu que o marroquino vai ser pedra fulcral no seu esquema. A sua qualidade, vislumbrada em parcos momentos, fazem dele uma mais valia. Mas como encaixá-lo no seu lugar de origem, se um dos centrais é uma das vozes de comando da equipa dentro e fora de campo – João Paulo –  e outro tem necessidade de ter sobre si os holofotes da imprensa, os olhos ávidos dos empresários e a curiosidade dos clubes endinheirados dessa Europa?

E, aí até ao momento, Manuel Machado não tem sabido resolver esse problema, preferindo criar outro. Na verdade, o marroquino tem bons pés, é imponente no seu raio de acção, mas não consegue libertar-se dos princípios de jogo seu lugar de origem. Apesar de executar, quase sempre, bem, não comprometendo qualquer acção colectiva, a verdade é que o faz com lentidão, emperrando o jogo ofensivo e a imprevisibilidade da equipa. Quando a mesma poderia partir para um contragolpe insidioso e venenoso, o jogo acabara tornando-se perro por uma hesitação de um ou dois segundos, também devido à sua formação como jogador que o faz em processo defensivo encostar-se em demasia aos centrais. Esta situação, num momento posterior à recuperação de bola da equipa, reduz à mesma amplitude de movimentos, pois um dos homens encarregues da primeira fase de transição para o momento atacante está muito longe dos desequilibradores da equipa.

E o problema, reside no médio que tem emparceirado com o Leão do Atlas. Efectivamente, quer Renan quer Leonel Olímpio, apesar de serem jogadores genética e morfologicamente diferentes, não executam com o critério necessário. Se o primeiro raramente arrisca um passe de ruptura, optando uma postura conservadora de manutenção de posse de bola e apostando, defensivamente, na ocupação do seu espaço, o outro com maior capacidade física aposta na recuperação e no passe longo para os flancos, talvez fruto do hábito entranhado em Paços de Ferreira, onde o relvado de diminutas dimensões a isso convidava. Porém, em noites de menor acerto, como aconteceu ontem, os passes errados comprometem totalmente as tentativas de ataque da equipa. Apesar disso, atendendo às características que denota poderá ser um atleta útil, principalmente nos jogos fora, onde uma recuperação de bola e um passe longo para as costas das defesas oponentes poderão gerar desequilíbrios

Mas, porém, a partir de ontem, nesta equação de barómetros, terá, obrigatoriamente, de entrar Pedro Mendes. Com efeito, o eterno menino bonito dos vitorianos é dono de qualidade insuspeita. Quantos jogadores tem o Vitória com as suas internacionalizações? Quantos já foram titulares num Mundial?

E deste modo, com o superavit de qualidade aportada pelo novo número 4, e com o equilíbrio de soluções que existem na zona intermédia, é de esperar uma luta incessante pelos lugares em que se definem o jogo, já que homens como João Alves, que para já vai actuando na lateral direita, Dinis ou Bamba terão, possivelmente, de aguardar por melhores dias para se imporem.

Porém, a verdade é que o manancial de soluções permitirá adoptar a morfologia de cada atleta a cada jogo…com efeito pretendendo apostar na circulação de bola com segurança apostar no recuo de Pedro Mendes ao lado de João Alves ou Renan, ou então atacar o desafio através da impetuosidade do marfinense Bamba ou do canterano Dinis.

Na frente, dos médios, as apostas parecem estar a ser definidas. No vértice superior do triângulo, já que o modelo, como já referimos, encontra-se, cada vez mais formatado, Rui Miguel parece, finalmente, assumir-se como playmaker da equipa. Ainda para mais, com a certeza que as suas costas vão se encontrar bem escudadas e que, graças a isso, poderá dar azo a toda a sua criatividade. Todavia, como ainda ontem se viu, perante adversários mais fechados e menos desgastados terá superiores dificuldades em impor o seu futebol. Efectivamente, o beirão, cada vez mais mostra, que é um jogador de qualidade extra entrando no desafio com o adversário mais desgastado, a efecturar as marcações de modo menos rigoroso. Aí, na verdade, o talentoso vitoriano exprime com maior facilidade todo o seu futebol, desempenhando até com critério as funções de segundo ponta de lança, entrando provindo de linhas atrasadas.

Porém, não obstante esse facto, o seu mais forte concorrente para o lugar, Jean Barrientos, ainda, parece não ter a continuidade para o futebol europeu. Na verdade, o uruguaio, se não se tivesse conhecimento da sua nacionalidade, poder-se dizer que seria brasileiro e do Rio de Janeiro. Dotado de uma técnica como há muito não se via no D.Afonso Henriques, ontem voltou a demonstrar que carece do ritmo europeu, desaparecendo amiúde do jogo, como se quisesse esconder dele para aparecer em momentos em que deixa boquiabertos a todos a que assistem aos seus pormenores. A trabalhar, dedicadamente, mas com tolerância e arriscando a que à época que agora principia seja meramente de adaptação.

Nas alas, principalmente na direita, a fartura. Nomes como João Ribeiro, Targino, Maranhão, Paulo Sérgio, Faouzi e, inclusivamente, Marcelo Toscano são candidatos às alas. Ontem, a aposta recaiu, inicialmente, em Toscano na direita e Faouzi na esquerda. Se o brasileiro devido ao facto de na sua carreira já ter desempenhado várias posições, é um bónus táctico entrando várias vezes como segundo avançado, desalavancando espaço para o ponta de lança, ou permitindo a penetração do lateral, o marroquino voltou a demonstrar as virtudes e os defeitos da transacta época. Muita rapidez, boa técnica, mas muita ingenuidade e uma incapacidade atroz em decidir os lances de maneira eficaz. Tais factos fazem dele um forte candidato ao banco, sendo, ainda, certo que Saucedo poderá chegar.

E se o boliviano chegar, atendendo às características dele, poderá equilibrar tacticamente a equipa, pois poderá fazer à esquerda, o que se pede a Toscano para fazer à direita. Entretanto, os demais, partindo da asserção que se manterão no plantel, poderão funcionar como joker e alguns deles graças à sua polivalência desempenhar outras funções. Assim, Targino actuou ontem, actuou como ponta de lança que não é uma opção virgem e será até válida para jogos em que se aposte em maior contenção, e João Ribeiro tantas vezes, na época passada, actuou como organizador de jogo.

Na frente da ataque, como avançado fixo só há, ainda, Edgar. E o brasileiro insiste nos defeitos da época passada. Lentidão na recepção, dificuldades em jogar de costas para a baliza exasperam o mais pacato dos adeptos. Porém, a verdade é que as potencialidades do avançado não foram ontem, nem têm sido aproveitadas, já que atendendo às suas características urge que o Vitória aposte, essencialmente, em cruzamentos, em segundas bolas aéreas ganhas pelo longilíneo brasileiro e não em trocas de bolas pelo centro conducentes a penetrações no interior das defesas contrárias, onde o brasileiro, atendendo à sua reduzida técnica com os pés, continua a ser incapaz de tabelar para permitir a penetração de companheiros mais recuados, a ser incapaz de segurar jogo de costas para baliza e incapaz de se desmarcar e isolar-se perante o guarda redes opositor.

Assim, e após o malogro da contratação de N’ Djeng, urge arranjar um ponta de lança de características antagónicas e que dê possibilidade de o Vitória se exprimir de acordo com o raciocínio em jogo dos seus organizadores, já que persiste a diferença de linguagem entre os médios ofensivos e o ponta de lança, qual Torre de Babel. E lembremo-nos que Fábio Fortes, ainda, não é avançado para o clube, de modo a alicerçar a premência da contratação de um novo jogador para a posição e para fazer concorrência ao brasileiro.

Porém, ainda, estamos na pré-época, altura ideal para corrigir erros, defeitos e vícios. Além disso, nada melhor que perder agora do que quando for a doer. Esta altura é para correcções e descoberta do modelo ideal e dos melhores modos de interpretar os momentos de jogo e os seus intérpretes. Porém, o desafio europeu está aí à porta e há que o vencer…Esperemos que sim…