Opinião Luís Cirilo: Causa e efeito

Acabada a época desportiva com o insucesso de todos conhecido, importará agora reflectir alguma coisa sobre esta preocupante tendência do Vitória para se afastar cada vez mais das posições que tradicionalmente eram as suas.
Claro que podemos sempre, se nos quisermos enganar a nós próprios, atirar responsabilidades para cima dos árbitros que nos prejudicaram ou para o escasso golo (é, foi um golo não um ponto que nos pôs em inferioridade perante o Marítimo) que nos impediu de ir á Liga Europa.
Mas árbitros, azares vários, pontos e golos são apenas o efeito visível dos erros cometidos a montante e que nos afastam quer da Europa quer do Braga.
Porque árbitros e azares explicam muita coisa mas são altamente insuficientes para justificarem trinta pontos de atraso em relação ao velho rival minhoto.
Então onde está o verdadeiro problema?
Do meu ponto de vista não é apenas um problema mas sim uma mistura deles que todos juntos contribuem para estarmos numa fase da vida do clube em que as alegrias são cada vez menos e as preocupações cada vez mais.
Tipificarei três:
O modelo de gestão, a concepção do futebol, a percepção do clube.
Começando pelo primeiro não deixa de ser uma curiosa ironia que o Vitória tenha tido direcções colegiais no tempo da ditadura e pouco depois da restauração da democracia tenha enveredado por formas de presidencialismo que roçaram nalguns casos o verdadeiro posso quero e mando. Nessa matéria andamos um pouco ao contrário da História.
Mas sejamos claros e sem hipocrisias: Foi assim porque os sócios quiseram, e continuam a querer, que assim seja.
Durante mais de vinte anos tivemos o presidencialismo exacerbado de Pimenta Machado, um tempo em que o Vitória cresceu estruturalmente, cresceu desportivamente e ganhou voz no contexto do futebol nacional. Infelizmente nada se modernizou em termos de gestão e de compreensão da evolução do futebol.
Mesmo assim foi o tempo em que o clube ganhou o estatuto de 4º grande.
A seguir veio o presidencialismo envergonhado de Vítor Magalhães.
Eleito com um enorme capital de esperança por parte dos sócios (não com o meu voto) que depois dos tais vinte anos de Pimenta Machado ansiavam, naturalmente, por um estilo de gestão diferente.
Mais participada, com uma Direcção em que os seus membros tivessem autonomia e capacidade de decisão, um modelo mais consentâneo com os novos tempos.
Foi ilusão de pouca dura.
Porque o Presidente eleito pouco demorou a dizer ao que vinha: Debaixo do slogan do “homem sério” e de uma simpatia devidamente estudada depressa se percebeu que queria era mandar como o seu antecessor.
Infelizmente a cópia saiu pior que o original e Vítor Magalhães conseguindo imitar Pimenta Machado nalgumas das coisas que este tinha de pior nunca dele se conseguiu aproximar no que tinha de melhor.
Visibilidade nacional, capacidade reivindicativa, algum respeito das estruturas do futebol.
Faço-lhe contudo a justiça de reconhecer que teve algum azar (para o qual também contribuiu com a absurda substituição de Manuel Machado por Jaime Pacheco!) nos resultados desportivos dado ter sido o último presidente que investiu a sério na equipa de futebol. Bastará recordar que no ano da descida tínhamos equipa para ir á Europa de caras.
É claro que esta sequência presidencialismo exacerbado, presidencialismo envergonhado dificilmente poderia deixar de dar no que deu; o presidencialismo desorientado de Emílio Macedo da Silva.
Que quer tanto mandar como os anteriores, com a legitimidade de o poder do Presidente ser algo que os sócios sufragam há três décadas, mas sob uma capa de democraticidade interna baseada nos vice-presidentes.
Que são, eles vice-presidentes, a prova provada do presidencialismo desorientado.
Um que admite, impávido e sereno, a afronta de Paulo Sérgio usar as nossas instalações (apetecia-me ironizar mas fica para outra oportunidade) para falar aos sportinguistas.
Outro que esteve, saiu no meio de um chorrilho de acusações mútuas, e agora volta exactamente para o mesmo sítio como se a memória das pessoas fosse algum conceito abstracto.
Um terceiro que não passa de um comissário politico, na posição de “controleiro”, sem o mínimo jeito para as funções que ocupa e sem que da ocupação que faz do cargo se vejam vantagens para o Vitória.
Há um quarto, provavelmente o mais capaz de ter uma intervenção positiva na gestão do clube, mas que curiosamente é o mais invisível de todos.
Ou seja, e para concluir este ponto, o Vitória continua sem um modelo de gestão capaz de responder aos tremendos desafios que o futebol profissional hoje acarreta.
E por isso “navega” á vista, sempre na ânsia de uma receita extraordinária que permita equilibrar um orçamento cronicamente deficitário, obrigado a vender jogadores ao sabor das suas necessidades mais prementes e não ao valor de mercado que esses jogadores tenham.
Quanto ao modelo de futebol, e porque o artigo já vai longo, o Vitória tem de fazer opções.
Ou quer ser um clube formador, que assente a base do seu plantel nos jogadores feitos nas camadas jovens, e depois contrate cirurgicamente jogadores bem avaliados para posições específicas sempre na perspectiva de formar-utilizar/valorizar – vender e assim manter uma bitola competitiva que tenha o 5º lugar como a pior classificação possível.
Ou então continua a desperdiçar alegremente os jovens talentos da formação, emprestando-os a clubes da III Divisão onde nunca conseguirão evoluir ao nível de saltarem para a I liga, e constituindo o seu plantel com base nas sobras dos amigos de ocasião (ontem o Porto, hoje o Benfica, amanhã…o Braga?), nas propostas dos empresários, nas viagens ao Brasil de quem calha, ou em jogadores de percurso desconhecido e que depois se revelam flops.
Finalmente, e porque o mais importante, a percepção do clube.
O Vitória tem que ser gerido por quem o perceba.
Ao clube, á comunidade, aos sócios, a Guimarães.
Todos sabemos que o Vitória tem um potencial tremendo, uma massa associativa impar (mas as imitações já por aí andam e a crescerem..) uma comunidade que o acarinha. Mas também sabemos que tanta dedicação sem contrapartidas cansa.
As desilusões não matam mas moem.
E isso acaba por se reflectir na compra de cadeiras, na assiduidade ao estádio, na aquisição de merchandising, no acompanhamento da equipa. E o vermos o vizinho do lado numa tremenda dinâmica de crescimento em nada nos ajuda. Porque em termos de dedicação não tememos comparação. Mas os resultados das últimas década estão claramente do lado deles.
Porque tem sido quase sempre melhores.
Melhores classificações, mais apuramentos europeus, e agora o vice campeonato através de um segundo lugar que nunca obtivemos.
Um dos nossos maiores orgulhos era o sermos o único clube fora de Lisboa e Porto que já tinha estado no pré eliminatória da Champions.
Agora já não somos.
E com o risco de vermos o Braga chegar á fase de grupos, ao pote dos milhões, á possibilidade de com mais dinheiro ser maior, mais forte e mais competitivo.
Oportunidade que nós desperdiçamos. Não por um fiscal de linha desonesto (embora também) mas porque quem nos dirige não percebeu as oportunidades extraordinárias que ali estavam de darmos o grande salto em frente.
No dia em que nos saiu o Basileia, como ultimo obstáculo á entrada na fase de grupos, tínhamos de apostar tudo. Correr riscos e reforçar a equipa de molde a garantir a passagem.
Contratamos o Gregory e o Wénio, zangamo-nos com o Porto e envolvemo-nos numa aventura trágica com o Benfica.
Que só podia acabar como acabou. Porque quem nos dirige não percebeu.
Creio que todos estes problemas, e outros de menor escala, tem estado na origem da nossa irregularidade classificativa e da frustração que todo nós sentimos quando vemos um grande clube como o nosso a ficar muito aquém das suas possibilidades.
Estes problemas não são de hoje, vem de trás, mas importa reconhecer que os últimos anos os têm agravado significativamente.
Olho com preocupação a próxima época.
Quer quanto ao número de sócios (é ano de renumeração), quer quanto às cadeiras vendidas, quer quanto á qualidade do plantel e às opções em termos de clube satélite.
Chega de pedir aos sócios que não falhem. Porque eles nunca falham.
É tempo de outros não falharem.
Porque já basta o que basta.

Luís Cirilo
http://depoisfalamos.blogspot.com

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