Opinião Luís Cirilo: Opção africana

É lugar comum dizer-se que Portugal é um país com vocação atlântica e 600 anos de História comprovam-no amplamente.

África, Índia e Brasil foram os destinos da epopeia dos descobrimentos portugueses que levaram os portugueses aos quatro cantos do mundo conhecido.

Não admira, pois, que por razões de afinidades, de língua, de ligações históricas o futebol português tenha, especialmente na segunda metade do século XX, seguido os seus antepassados e procurado as novas “especiarias” nesses mundos que Portugal deu ao mundo como costuma dizer-se.

Não nas Índias, que nessa matéria de futebol nunca deram “uma para a caixa” , mas sim nos outros dois destinos referidos.

África e Brasil.

Em África aproveitando o facto de até 1974 existirem vastos territórios que eram Portugal e onde a prospecção de jogadores se tornava extremamente fácil mais que não fosse através das filiais dos clubes da então chamada Metrópole.

De lá vieram grandes jogadores de que muitos ainda se recordarão.

Coluna, José Águas, Matateu, Vicente, Hilário, e tantos outros com merecido destaque para o maior de todos:
Eusébio.

Posteriormente, e muito por influência do Vitória, o mercado brasileiro tornou-se o mais apetecível em termos de importação dada a qualidade dos jogadores, a enorme oferta, e os preços muito em conta que atraia os clubes portugueses para esse “pé de obra”.
Com os exageros conhecidos.

Progressivamente, por razões várias a que as guerras civis que devastaram Angola e Moçambique não foram alheias, os clubes portugueses foram-se desinteressando dos mercados africanos e passaram a apostar noutras zonas do globo para a contratação de jogadores.

Mantendo a aposta no Brasil mas descurando, quase por completo, a própria formação de jogadores que devia ser a máxima prioridade de clubes situados em mercados essencialmente exportadores como o nosso.
Adiante.

O Vitória, precursor (Edmur, Carlos Alberto, Ernesto Paraiso, Caiçara) do investimento brasileiro, acabou também ele por aderir á moda do “multimercado” e por cá passaram jogadores um pouco de todo o mundo em muitos casos de qualidade mais que duvidosa.
Até do Brasil, a par de grandes jogadores (Cascavel, Jeremias, Ademir, Roldão), vieram alguns “barretes” cujo nome me dispenso de citar porque pouco importantes e que de alguma forma apenas foram a excepção que confirma a regra.

Creio pois, e defendi-o publicamente ainda há bem pouco tempo, que é tempo de o Vitória voltar a África.

A África de onde vieram Joaquim Jorge, Manafá ou N´Dinga.

Mas também a África de Benachour, Ziad ou Ghilas.

Sendo o mesmo continente são realidades futebolísticas muito distintas entre o futebol espontâneo mas muito pouco táctico da África negra e o futebol quase europeu da zona do Magrebe.

Em ambos os casos mercados, que apesar de vivermos numa economia global, ainda são acessíveis ás bolsas dos clubes portugueses e que tem a enorme vantagem de terem um potencial imenso.

Penso que o Vitória se deveria posicionar estrategicamente em ambos os mercados.

Mais a sul, na tal África negra, aproveitando as enormes sinergias possíveis com Angola e Moçambique criando nesses países escolas de futebol através de parcerias com os governos locais e aproveitando alguns incentivos existentes para o efeito.

No fundo essas escolas funcionariam como centros de triagem de jovens talentos e a sua adaptação a métodos de treino que viriam encontrar em Portugal quando para cá viessem integrar os escalões de formação do clube.

Permitiria, também, através dos técnicos que para lá se deslocassem criar uma rede de olheiros não só nesses países como também em nações vizinhas onde o futebol tem indiscutível importância.

No Norte de África a estratégia seria diferente.

Por razões que se prendem com a passagem de Ziad por Guimarães o Vitória desfruta de grande popularidade na Tunisia onde é um dos clubes portugueses mais conhecido e seguido pelos adeptos locais.

Aí a estratégia passaria por um protocolo (dos bem feitos é claro!) com um dos principais clubes tunisinos de molde a que o Vitória tivesse preferência na contratação de jogadores desse país.

Claro que estas ideias, apresentadas em linhas muito gerais, mereceriam se postas em prática o aprofundamento necessário.

Uma coisa tenho como certa: Uma boa aposta nas “duas” Áfricas, uma formação compatível com as exigências do futebol actual nomeadamente na transição júnior/sénior, uma rede de olheiros nacional e internacional devidamente montada e poderíamos transformar o mercado brasileiro naquilo que ele começou por ser:

A excepção e não a regra de constituição do plantel da maioria das equipas portuguesas.

Acredito que um clube como o Vitória, que não tem nem nunca terá (previsivelmente) os meios financeiros dos três do costume, só poderá crescer e disputar títulos se tiver o engenho e a arte de inovar, de descobrir novos mercados, de estar avançado no tempo em relação á concorrência.

Sei que é possível.

Haja vontade !

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