Que futuro Vitória?

desxtaque

A resposta a esta pergunta para mim é e será apenas uma:

é preciso construir uma estrutura, assente na paciência e nos valores dos adeptos, e junto com ela será preciso implementar 2 planos desportivos: um a curto prazo e outro a médio/longo prazo.

O que significa isto? Bem, usando uma ferramenta que dá pelo nome de Benchmarking, isto é, aprender com os melhores, vou expor aqui dois exemplos que poderão e deverão servir de inspiração ao Vitória.

O Dortmund do Louco

É o primeiro exemplo que trago aqui à baila pois é também aquele que se poderá, com as devidas diferenças de escala, assemelhar mais ao momento do Vitória. Há cerca de 10 anos o Dortmund começou um caminho em direcção ao inferno, e não era aquele inferno amarelo tantas vezes visto dentro do Westfalenstadion, mas sim o inferno financeiro e desportivo. Poucos pensaram que 1 ano após serem campeões o Dortmund iria precisar de um empréstimo do seu maior rival, Bayern Munique, para pagar salários e que em 2005/2006 tivesse de cortar 20% nos salários de todos os jogadores, treinadores e dirigentes. A forma como o Dortmund chega a este ponto é em tudo um tanto ou pouco semelhante à do Vitória. A má gestão financeira, a aposta em jogadores demasiado caros com a esperança de entrada em competições europeias, leva o Dortmund a passar 4/5 anos em que se viu em lutas para não descer e a vender o nome do seu próprio estádio.

Para regressar aos tempos áureos o Dortmund obrigou-se a si mesmo, aproveitando a aposta da Federação local (alemã) , de criação de academias de excelência, para começar a renovar a equipa e apostar em jovens jogadores formados seja no próprio clube (Sahin, Gotze, Schmelzer) seja noutros (Hummels, Bender, Gundogan) e em jovens desconhecidos de outros países e divisões (Lewandowski, Großkreutz, Błaszczykowski). Para liderar dentro de campo e do balneário estes jogadores o Dortmund manteria Sebastien Kehl, Patrick Owomoyela e Roman Weidenfeller. A juntar a esta equipa jovem, a direcção do Borussia haveria de criar um relacionamento mais próximo com os seus adeptos, principalmente as mais de 200 associações de adeptos do cube, dando-lhes voz em decisões como preço dos bilhetes de época, localização das claques, entre outras questões da vida do clube.

Para liderar o grupo de jovens jogadores, o Dortmund voltou atrás no tempo e foi recrutar aquele que no meio das dificuldades mais tinha entusiasmado as bancadas. O seu nome? Jurgen “o louco” Klopp. Em 2009-2010 o Dortmund, que praticava um futebol “jovem e vibrante”, haveria de ficar em quinto lugar e qualificou-se para a Liga Europa, falhando a Liga dos Campeões apenas nas últimas duas jornadas. Contudo no ano seguinte o Dortmund haveria de fazer regressar os dias de festa ao Westfalenstadion, sendo campeão 2 jornadas antes do fim do campeonato. Em 2011-2012 o Dortmund faria história e conquistaria a dobradinha, entretanto pelo meio perdeu Sahin um dos seus jogadores mais fulcrais no meio campo e António da Silva também do meio-campo. No final desta época o Dortmund perderia Kagawa, mais um fulcral elemento da manobra do meio-campo. Esta época haveria mesmo assim de chegar à final da Champions League.

Mas mais do que falar dos jogadores aqui devemos falar sobretudo de gestão desportiva e financeira. Em termos desportivos a aposta em Klopp foi um sucesso o Dortmundo joga hoje um futebol de transições e pressão alta. Corre muito, pressiona mais, vai com garra e devora qualquer adversário. O seu meio-campo 2-1, com os 2 mais atrasados a serem jogadores 8, capazes de atacar e defender (Bender Gundogan) faz com que consigam sair a jogar com grande tranquilidade de qualquer tipo de pressão.
Em termos financeiros este Dortmundo tem optado por deixar sair 1 a 2 jogadores por ano por bons valores. Prefere sobretudo que eles saiam por algum dinheiro do que por nenhum como virá a acontecer com Lewandowski. Todos os jogadores tem clausulas de rescisão consideráveis se olharmos ao que custarão. Vejamos Kagawa, por exemplo: chegou por 350.000€ saiu por cerca de 15Milhões de €. Gotze saiu recentemente para o rival por 37,5Milhões de euros… Transfererência que levou o clube a colocar um ponto final nas clausulas de rescisão por entender que já recuperou a grandeza necessária para atrair bons jogadores sem deixar uma porta entreaberta para a sua saída.

 

A Fergiestabilidade

Todos conhecem o Manchester United e aquilo que representa. Todos conhecem a história de Busby e dos seus babes. E todos conhecem a história dos 26 anos de Ferguson incluindo os primeiros 6 em que nada ganhou. Mas os que poucos sabem é que nestes 6 anos Ferguson preocupou-se em criar condições a longo-prazo para o sucesso. Apesar de estar sempre a reforçar a primeira equipa e a melhorá-la as grandes contratações de Ferguson nesta fase foram um conjunto de miúdos que davam pelos nomes de:
Ryan Giggs, Paul Scholes, Gary Nevile, Phil Nevile, David Beckam, Nicky Butt.

Eles fizeram formação no clube, foram campeões e chegaram ao topo sendo sempre acompanhados pelo treinador principal que na altura certa apostou neles mesmo contra aqueles que diziam que com miúdos não se ganha nada! E assim começava uma nova história do Mancheter United que se baseava na formação com contratações para compensar as falhas que pudessem haver e este MU ao longo do tempo tem vindo a ter vários jogadores interessantes saídos da sua formação. Mais recentemente podemos ver por aí a brilhar jogadores como: Cleverley, Welbeck, Macheda, Pogba, Shawncross, Dany Simpson, uns estão na casa mãe outros brilham por adversários.

Mas a juntar a isto temos o facto de Ferguson se ter rodeado de gente que sabe o que é o clube e sabe ao mesmo tempo o que é ganhar. Olhar para a equipa técnica do MU de baixo acima podemos ver vários ex-jogadores que andam por lá a treinar as actuais e futuras estrelas. E a isto chama-se estrutura, chama-se passar a cultura do clube.

 

E o Vitória, pah?

Lembram-se do que disse no inicio? Não se lembram, eu volto a dizer:
é preciso construir uma estrutura, assente na paciência e nos valores dos adeptos, e junto com ela será preciso implementar 2 planos desportivos: um a curto prazo e outro a médio/longo prazo.

O que quero dizer com isto. Simples, mais do que pensar em treinadores e objectivos o Vitória tem de criar um plano, um projecto. É preciso manter a equipa A e não descurar a mesma, contratando nas divisões inferiores e nas nossas camadas jovens, ao mesmo tempo que se tem jogadores experientes para segurar estes jovens, um pouco à imagem desta temporada mas melhor. É preciso negociar os contractos com tempo, não se pode esperar pelo último ano de contrato para renovar com os jogadores que interessam!

Ao mesmo tempo que se mantém esta aposta na equipa A é preciso criar uma estrutura que permita desenvolver o clube. Uma estrutura que permita potenciar todas as vertentes do clube, mas sobretudo a vertente formação, na qual se deve apostar em termos de recrutamento de jovens jogadores, sejam eles vimaranenses ou algarvios ou açorianos, que tenham valor e possam crescer e daqui por 5/6 anos ser aposta na equipa principal, sendo trabalhados ao longo da formação nesse sentido. No sentido de aprenderem a jogar à Vitória e como Vitória e depois transportarem isso para a equipa. A última grande geração a nível de formação do clube tinha os jogadores que actualmente estão a brilhar nos B e A.

A juntar a isto temos a questão treinadora. É verdade que em Portugal estabilidade do treinador não existe. Mas o Vitória terá de encontrar treinadores que se enquadrem naquilo que é o seu projecto. Eu pessoalmente acho Rui Vitória um bom motivador mas enquanto treinador e táctico parece-me ter limitações, mas se for essa a escolha do clube então que se construa uma estrutura à sua volta, onde jogadores históricos do clube possam preparar as novas gerações.

Esta será, para mim, a melhor forma de salvar o clube financeiramente, pois vamos valorizar activos para vender, criando estabilidade num curto prazo, para que no longo-prazo possamos trazer das nossas escolas uma ou várias boas gerações de jogadores que possam levar o Vitória aos voos que merece.