[SAD] A opinião de Filipe Fumega!

O segundo artigo foi-nos escrito pelo sócio número 7601 do Vitória Sport Clube e também sócio da Associação VitóriaSempre, Filipe Fumega. É estudante no 3º Ano de Administração Pública, na Universidade do Minho

Opinião de Filipe Fumega

Antes de começar deixem-me fazer duas declarações de interesse/aviso:

  1. Eu não sou contra o modelo SAD em si, mas sim quanto ao tempo de aplicação;
  2. Irá haver neste texto alguns exercícios de futurologia ou de vidência.

SAD: Prós

Ora vamos então ao que interessa, à SAD. É verdade que Júlio Mendes e a sua lista A prometeram a SAD, e nisso pelos vistos irão cumprir com o prometido pelo que não pode este assunto ser surpresa para ninguém.

A Lista A quando em campanha prometia uma SAD com investidores, com o clube a mandar, com capital social no mínimo 5 Milhões, sendo esta a solução para todos os problemas. Só que a história não será bem assim!

Porém, antes disso vamos enumerar aquilo que normalmente é dito em defesa da SAD:

  1. A SAD é um modelo moderno de gestão;
  2. A SAD irá profissionalizar a gestão do Clube;
  3. A SAD traz consigo maior facilidade no que toca a financiamento;
  4. Efectivação das Responsabilidades por erros de gestão;
  5. A SAD vai pagar o passivo ao Vitória e assim permitir viver com maior desafogo;
  6. A SAD vai permitir ao Vitória estar a jogar para lugares mais altos no curto/médio prazo;
  7. A SAD irá fazer com que o Vitória fique mais transparente.

Estes são os pontos comuns a favor da SAD e outros foram ditos durante a campanha por alguns actuais dirigentes do Clube. E se formos a olhar ponto a ponto alguns podem ser verdade.
O ponto 1 está correto pois realmente o modelo de gestão da SAD é um modelo mais moderno e que se coaduna mais com a actual visão do mundo do futebol, isto é, o futebol industria.
O Ponto 2 também refere uma semi-verdade, pois é certo que a SAD irá obrigar a profissionalizar a gestão do clube; ou seja, irão existir administradores pagos para gerirem a SAD. Porém o que aqui não se refere é que o mesmo poderia ser feito no modelo clube, através da contratação de funcionários com competências para desenvolver determinadas funções.
O ponto 3 está também ele correcto pois a SAD irá permitir que o financiamento se concretize, não recorrendo aos banco, mas sim a investidores que irão comprar obrigações emitidas pela SAD. Sendo que outro tipo de financiamento que se irá fazer através do aumento do capital social.
O ponto 4 é mais uma semi-verdade, ou seja, vai acontecer o que está lá referido, talvez com maior frequência do que agora, mas no clube também se podiam efectivar responsabilidades por má gestão, pois os meios a usar são os mesmos.
E com o ponto 5 chega a primeira falsidade, é falso que a SAD vá pagar o passivo ao Vitória eu diria mesmo que o que vai acontecer é bem pior, a SAD pode vir a aumentar o passivo do clube, em termos consolidados. Ora o clube VSC vai passar todos os direitos desportivos para a SAD, isto é, o clube vai por na SAD a única coisa que normalmente lhe poderia dar algum lucro.

 Ora o que fica para trás é o que dá prejuízo, ou seja, o Estádio, a Formação, as Modalidades e provavelmente algum pessoal não ligado directamente ao futebol. Ora como diria Bill Clinton há que fazer a Aritmética. Se tudo o que dá lucro vai para a SAD, a única coisa que o clube receberá será parte da quotização e um pagamento pelo uso de algumas instalações. Isso faz-me pensar que poderá ser difícil a SAD pagar a dívida do clube, mesmo que ela venha a distribuir dividendos pelos accionistas, coisa pouco vista neste tipo de sociedades. E nem a venda de acções vai alterar o cenário, porque 1 milhão não é nada à beira de 23M. (Vejam o caso do Braga que apresentou um orçamento negativo, no clube, para a próxima época)
No ponto 6, tal pretensão é algo de intangível. Não se pode provar nem deixar de provar. Isso depende dos jogadores e não de um modelo de gestão. Mas claro não tendo dívidas o clube viverá mais desafogado e poderá mover-se de outra forma no mercado.
O ponto 7 é uma semi-verdade, pois à mais transparência com a SAD visto esta ter de prestar contas e dar informações à CMVM de forma a manter os seus investidores (stakeholders) informados. Mas mesmo assim quantos clubes SAD vemos nós a não fazê-lo…

SAD: Contras

Para mim a grande questão a debater antes de passarmos ou não a SAD é se este é o momento certo para o fazermos. O clube está mal financeiramente, perto da falência mesmo, mas criar uma SAD a preço de saldo não será a solução para o problema, pois apesar de ser um projecto que começa do “zero” em termos de passivo não haverá grande interesse de investidores, pois a crise financeira mundial assim aconselha.

Outra questão importante é o porquê de o processo subitamente ter sido acelerado, de tal forma que os debates prometidos passaram a um debate de algumas horas seguido de votação “express” no dia seguinte. Porquê Senhor Presidente desta súbita operação Blitzkrieg? Tem algum investidor pronto a entrar e há possibilidade de ele fugir se demorarmos? Está a fazê-lo porque acredita que nos vamos qualificar para as competições Europeias e a única forma de conseguirmos acreditação será a SAD, pois o clube está enterrado em dívidas e jamais passa o teste do fair-play financeiro? Ou será antes pelo facto de o Senhor Presidente achar que mais dia menos dia o clube vai efectivamente ter de ceder à pressão dos credores e vai decretar falência fechando as portas. Será esta a grande jogada de salvação daquilo que motiva o povo? O Vitória clube de futebol salva-se, mas o Vitória clube ecléctico com 90 anos fecha, aos olhos da Lei… Estas são perguntas que mereciam resposta mas como sabemos dificilmente verão tal coisa, seja na assembleia seja fora dela.

Quanto aos contras eles já foram sendo ditos mas vamos agora enumera-los de forma a terminar este texto:

  1. A SAD pode fazer com que os sócios, verdadeiro coração do clube, possam deixar de ter uma palavra a dizer sobre a gestão do mesmo (nem que seja pelo fato de aprovar ou reprovar um simples orçamento, os sócios tem voz no clube);
  2. O financiamento mais acessível da SAD pode gerar uma sensação de facilidade nos seus gestores, e podemos ter uma SAD a viver acima das possibilidades como tivemos o clube;
  3. A SAD não é sinónimo de competência de quem a gere;
  4. A SAD não é sinónimo de transparência;
  5. A profissionalização da gestão poderia ser feita no clube;
  6. A efectivação de responsabilidades pode ser feita num clube tal como na SAD, os meios são o mesmo. Auditorias, verificação das contas e opções de acordo com critérios como a legalidade, economia, eficiência e eficácia.
  7. A SAD pode levar a um aumento do passivo;

Em suma, a minha conclusão é a mesma do professor  Paulo Reis Mourão, da minha universidade, antes de pensarmos em SAD devíamos equilibrar e reestruturar o clube, pois entrar no mercado a preço de saldo não é uma boa opção e, muito menos será, olhar para a SAD como a tábua de salvação. Primeiro temos de nos equilibrar financeiramente, apresentar alguns lucros no final do exercício económico anual e depois sim vamos falar de uma SAD que nos leve a outros patamares de economia, eficiência e eficácia… Três E’s que até hoje não tem feito parte do vocabulário deste clube com 90 anos de história.

 

 Texto escrito por: Filipe Fumega 

A Associação VitóriaSempre quer agradecer mais uma vez toda a disponibilidade demonstrada por Filipe Fumega!

Esteja atento porque em breve serão publicadas mais opiniões de Vitorianos…