SAD’s … Ou Uma Ilusão De Aparência!

Nos dias que correm, mais propriamente desde o dia do aniversário vitoriano, que o tema da constituição de uma Sociedade Anónima Desportiva no Vitória foi lançado com maior pertinência, muito por culpa das palavras do presidente da mesa da Assembleia Geral, João Cardoso, que voltou a colocar a temática na ordem do dia.

Porém, tal discussão relembre-se já vem desde o início do século – o verdadeiro debutar deste modelo gestionário – tendo mesmo sido uma das bandeiras da campanha de António Pimenta Machado, na última eleição vencida pelo antigo presidente vitoriano.

Porém, tal projecto de modelo jamais avançou no Vitória, e atendendo ao situacionismo actual parece ser uma mera quimera que depois de esfumada, deixará antever uma realidade…ainda mais dura que a presente!

Na verdade, numa sociedade demasiado arreigada aos seus valores, aceitar que o clube em que os integrantes do mesmo cantam orgulhosamente, e com razão,o Vitória Somos Nós,  causará engulhos saber que os verdadeiros proprietários do clube não serão os sócios, aqueles que apaixonadamente contribuem e sempre contribuíram para um Vitória Maior, mas sim quem, endinheiradamente, teve a possibilidade de  injectar quantias no clube. Ora, tal facto, permitiria que o Vitória passasse a ser gerido por um verdadeiro Conselho de Administração, em que o CEO do Vitória poderia ser alguém totalmente deslocado da realidade do clube e, simplesmente, colocado pelos mais fortalecidos economicamente e que seriam os donos da parte dita profissional do clube. Ora, apesar de todo e qualquer sócio ter direito à informação, em sede de Assembleia Geral, a verdade é que falamos de um direito meramente informativo e não deliberativo… cada vez mais os vitorianos da razão e da paixão ficariam afastados das decisões realmente importantes para a vida do clube.

Além disso, importará lembrar que toda e qualquer decisão de uma entidade, tem reflexos perante terceiros… na verdade, o Vitória para enveredar por este arquétipo teria de se encontrar numa situação de interacção orgânica diversa da que se encontra. Importava que as relações com a autarquia municipal fosse totalmente sã para garantir um background suficientemente forte caso a oferta pública de subscrição pudesse revelar-se um fiasco – e atendendo à actual crise à escala mundial, é um risco efectivo -. Importava que o tecido empresarial vimaranense se encontrasse pujante como nos idos anos 70 e 80 e disposto a apoiar o clube e não depauperado e lutando para sobreviver no dia a dia… veja-se isso pelo decréscimo de camarotes vendidos no estádio e ter-se-à a real noção que cada vez menos há investidores com intenções de manter o clube dentro do seu círculo!

E assim sendo, o mais óbvio seria suceder uma de duas hipóteses: ou a subscrição das entradas não era realizada na sua totalidade, impossibilitando o clube de auferir das entradas que projectou e idealizou o que agravaria a situação económica actual, ou levaria a que o Vitória tivesse de vender a alma ao diabo, sujeitando-se a entradas de dinheiro de excêntricos, de megalómanos que veriam o nosso amor como um brinquedo e que por dá cá aquela palha abandonariam o projecto, deixando-nos com dolorosos encargos, como o Beira Mar parece ser, actualmente, um exemplo dilecto.

Não se olvide, também, que o activo das SAD são os atletas profissionais da equipa de futebol… ora, num clube em ruinosa situação económica, a fazer uma época desportiva quase paupérrima como a actual e que nos últimos anos não tem demonstrado qualquer estabilidade classificativa, será que a SAD iria trazer lucros? Muito dificilmente, pois não era por a mesma existir que Geromel deixaria de ser quase dado ao Colónia, ou Sereno, Desmarets, Ghilas e tantos outros abandonariam o clube pela porta de trás. Além disso, os arrivistas, leia-se empresários de futebol, atendendo à nossa fragilidade financeira, olhariam, ainda, mais para o clube como um entreposto comercial e colocariam aqui os seus atletas, prejudicando desportivamente o clube.

A acrescentar a isso não estaríamos livres de cláusulas como Pinto da Costa tem no seu contrato de Presidente do Conselho de Administração da SAD do Porto, que fixou, em conluio com os restantes administradores, salários principescos, prémios principescos em caso de vitória dos jogadores, bem como inclusivamente comissões pelos jogadores que ADQUIRE!!

Deste modo comprova-se, desiludindo-se quem assim pense, que com a assumpção de tal modelo, a transparência contabilística e fiscal seria uma realidade no clube. Muito pelo contrário, já que o Vitória não teria possibilidade de realizar entradas em capital suficientes para integrar o mercado de valores mobiliários, pelo que a obrigação de informar os investidores de todas as transacções efectuadas não existiria. Simplesmente, existiria um modo de injecção de capitais exógenos à agremiação e que seria, apenas, uma lufada de ar fresco nas contas. A partir daí, tudo continuaria no mesmo status quo ante podendo as informações flutuar livremente e sem controlo, já que as mesmas acções não teriam cotação em bolsa, o que também afastaria os especuladores que fazem aumentar as cotações dos títulos.

Ademais, existe sempre a possibilidade da emissão de obrigações, que mantendo a independência do clube, poderia gerar o efeito pretendido, já que através de um acordo com uma qualquer instituição bancária – como o Porto fez – os investidores poderiam comprar esse tipo de títulos, sendo remnerados a uma taxa de juro e permitindo ao clube o pretendido: o encaixe de capital.

A acrescentar a todos estes pontos, há a lembrar que a ideia da profissionalização tão em voga em Guimarães para justificar esta aposta, não procede. Não procede porque, neste momento e sempre a questão não é o desempenho de um cargo,a  título permanente e com efeitos remuneratórios. Trata-se, simplesmente, de uma questão de competência e vontade. Que interessa ter três administradores principescamente premiados, se os mesmos iriam ser nomeados, e a competência deles fosse uma ilusão? Prefiro acreditar na boa vontade das pessoas… no dar por amor, como tantos homens que construíram a nossa história o fizeram e permitiram que o Vitória chegasse aos dias de hoje a arvorar-se de ser uma referência incontornável no futebol nacional e europeu.

Construamos o Vitória com o orgulho da nossa essência…lancemos as bases do futuro com base na realidade que é dura, mas exequível… lutemos, como os nossos antepassados lutaram pelo engrandecimento do nosso clube… mas não nos iludamos com soluções miraculosas, dinheiro supostamente fácil e a resolução imediata de todos os problemas… houve rivais que assim pensaram, e hoje lutam perante o Lordelo, Gondomar e outros…  não queiramos isso para o nosso amor comum!

* Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação VitóriaSempre

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